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Crítica do filme: 'A Sociedade da Neve'


Comer para viver. Outubro de 1972. Um lugar inóspito. 45 pessoas sofrendo as consequências de uma tragédia podendo contar apenas uns com os outros. Chegou nesse início de janeiro no catálogo da Netflix mais uma obra que busca seu recorte sobre uma dolorosa história já vista em dois longas-metragens de ficção e outros dois documentários, a mais famosa tragédia com um avião na Cordilheira dos Andes. Adaptação de um livro homônimo escrito por Pablo Vierci e dirigido pelo ótimo cineasta espanhol J.A. Bayona, A Sociedade da Neve é uma angustiante jornada onde relações humanas são colocadas em xeque, uma nova sociedade surgindo a partir dos fatos impostos por uma situação desumana onde os métodos de sobrevivência variam em sua forma de pensar.

Na trama, voltamos ao início da década de 70 onde um grupo de pessoas, integrantes ou amigos e parentes de um time de rúgbi uruguaio que ia até o Chile para uma partida precisam sobreviver após o avião em que estavam se chocar com as montanhas numa região praticamente inacessível da temida Cordilheira dos Andes. Ao longo de muitos dias, a esperança e o luto andaram lado a lado. A fé, o acreditar, se tornam figuras presentes nos pensamentos de cada um deles.

A virada de chave de uma tragédia e a busca por um milagre. Passando rapidamente pelos contextos locais em um Uruguai prestes a presenciar um golpe de Estado (fato que ocorreria no ano seguinte) em 15 minutos já estamos no epicentro da trama. Muitos jovens com a vida toda pela frente, muitos em sua primeira viagem para longe de casa, batem de frente com o caos. Assim conhecemos um pouco de cada um deles, suas maneiras de pensar, se expressar, e seus entendimentos sobre o que precisam fazer para não perder a esperança.

Como seguir em frente a partir do constante luto? Esse ponto contorna cada um daqueles dias que eles viveram e se junta a peça chave e tecla mais batida nas outras produções que abordaram o tema. A narrativa não se esconde, mostra os fatos, inclusive da situação mais polêmica enfrentada por aquelas pessoas, o canibalismo. J.A. Bayona apresenta seu olhar sobre tema de forma delicada e respeitosa.

O que você faria se estivesse naquela situação? É possível julgar? Essas e outras perguntas se tornam uma onda frequente visto em cada situação que acompanhamos. A vontade de viver e todas as variáveis que a cercam numa linha angustiante que segue até o último segundo de fita se completam com uma narração em Off que se torna um achado da narrativa, podemos dizer até mesmo uma homenagem, uma surpreendente revelação ao longo das hipnotizantes quase duas horas e meia de projeção.

A Sociedade da Neve chega para mostrar mais detalhes ao mundo sobre uma tragédia que marcou gerações, uma obra primorosa com uma fotografia impecável, uma aula de narrativa e uma direção merecedora de prêmios.



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