Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'YVY Pyte – Coração da Terra'


A sabedoria guarani através de imagens e movimentos. Com uma emocionante narrativa que flerta com a poesia, o documentário mineiro YVY Pyte – Coração da Terra nos leva para uma jornada de redescobertas de um personagem central em pleno voo livre e sem fronteiras para seu lugar de origem. Percorrendo 11 territórios indígenas do Brasil e do Paraguai, nesse road movie indígena, vemos um alguém com muito a descobrir que acaba se tornando um simbólico porta-voz da resistência guarani. Em sua busca, entre outras questões, chega-se a importantes reflexões sobre elementos da natureza e suas mensagens culturais.


Romper as barreiras que os anos e a ação do homem branco impôs de forma covarde é um dos objetivos dessa pequena pérola. Através da sua própria história, conhecemos um personagem com raízes indígenas que se vê em um presente estacionado nas fronteiras que dividem. E nada melhor que o cinema, um dos maiores pilares de qualquer noção de sonho coletivo, através da imagem, logo chegando na imersão, culminando em uma história que precisa ser contada pois todos nós podemos também aprender.


Há uma reflexão interessante sobre os indígenas e os homens brancos quando pensamos nas formas de pensar o individual e o coletivo. Essa talvez seja a questão que mais chama a atenção pois logo que pensamos sobre, traçamos paralelos sociais, algo próximo da realidade de muitos que fazem o exercício de olhar pelas suas próprias janelas.


O projeto, não é nada redundante no seu discurso mas é preciso prestar a atenção e embarcar nessa viagem junto com o personagem. Funcionaria melhor como uma minissérie documental? Sim, mas o vasto material é tão cheio de ensinamentos que os detalhes se tornam importantes por aqui, talvez por isso a narrativa não consiga encontrar um equilíbrio para o dinamismo. Para alguns, pode ser tornar cansativo mas pra quem dá uma chance, o filme pode ser uma obra que pode marcar suas memórias.


Há muita riqueza no material, que ainda conta com uma fotografia deslumbrante. Através de um caminho cheio de estradas e lugares que ficaram quase isolados acoplados na necessidade de uma pausa no tempo, longe dos avanços e mais próximos das suas próprias origens e ensinamentos, YVY Pyte – Coração da Terra se torna um ensinamento para todos que quiserem abrir os olhos.


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...