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02/02/2026

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Crítica do filme: 'Grão' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Com um personagem central que percorre seus dias na solidão de pouquíssimas oportunidades, a bordo de um carro de quase 20 anos equipado com som de proibidões nas alturas e preso à roleta russa do destino, o curta-metragem Grão, exibido na seleção da 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, aborda, em sua essência, o trabalho informal e as desilusões do buscar a sobrevivência à margem da sociedade.

Se sustentando da venda ilegal de soja, recolhendo grãos encontrados entre produtos que se extraviam com o vai e vem dos transportes, o protagonista é um jovem invisibilizado por sua condição, bem distante de qualquer sonho que persegue seu pensar, estagnado na solidão de encontrar soluções para sobreviver. Vivendo no sul do Brasil, uma das principais regiões produtoras do produto mencionado, o personagem começa a perceber que precisa encontrar novas soluções para continuar sobrevivendo.

Dirigido por Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, o interessante projeto - com cerca de 20 minutos - coloca em evidência um drama pessoal e a relação com um dos principais produtos que está no epicentro da economia agrícola do nosso país, uma junção que logo chega em reflexões sobre nossa sociedade. As críticas que chegam pelas entrelinhas juntam as peças para expor a escassez de oportunidade e a luta para existir dentro de um cenário de total exclusão.

Grão, em sua narrativa fluida, não dificulta a compreensão, situa o público sobre seu discurso e apresenta, através de uma única perspectiva, um contexto importante para levantar questionamentos sobre as formas de exclusão de afetam muitas pessoas.

 

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01/02/2026

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Crítica do filme: 'Roteiro para uma Fuga’ [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Com um ar filosófico e pulos de um existencialismo abraçado na narrativa, o curta-metragem pernambucano Roteiro para uma Fuga levanta questões de identidade e automaticamente simbolismos e razões que constroem um existir. Com direção e roteiro de Priscila Nascimento, esse filme aposta na delicadeza caminhando a curtos passos pelas angústias e a busca por sentidos, revelando-se uma investigação sugestiva pela própria história de uma narradora – figura viva e observadora na narrativa.

Nesse projeto, selecionado para a 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, não há nada de inovador quando pensamos em linguagem cinematográfica, mas o seu modo de contar essa história - direto e simples - encontra atalhos para tornar atraente ao público as imposições do que é incontrolável – também conhecido como obstáculos pelo caminho. Uma boa definição da obra é: um filme fácil de digerir e que pode convidar à reflexões.

Com imagens que passam pelo tão falado São Luiz, um dos cinemas de rua mais charmosos e amados pelos cinéfilos de todo o Brasil, e outros lugares que se ligam a lembranças e experiências que representam dilemas, logo se chega também em analogias através de conhecidos filmes. Com uma narração que impõe intimidade, acompanhamos o surgimento de questões que envolvem família, amor, trabalho - elementos que vão de encontro ao medo das repressões sociais.

Enfatizando a certeza de que o contexto molda uma trajetória de vida, o filme desvendar um olhar para o processo de criação de histórias, na aproximação com as vivências e as relações encontradas pelos caminhos percorridos. Nesses questionamentos profundos, que lidam com dúvidas a todo instante, a única certeza que permanece é que o filme de nossas vidas é uma página de roteiro sempre à espera das próximas linhas.

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Crítica do filme: 'Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto’ [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Uma legenda logo no início da obra nos situa em um panorama amplo de um passado que segue vivo no presente. A partir da busca por um registro do que restou de memórias de um lugar simbólico de um movimento religioso - símbolo de resistência camponesa que percorreu as década de 1920 e 1930 -, o curta-metragem Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto abre algumas páginas de um livro de recordações sobre uma situação que marcou a história cearense.

A autonomia em um processo artesanal de revelação, aliado a um ajuste por meio de recursos digitais, cria-se dentro dessa narrativa algumas possibilidades. Entre sensações que parecem paralisar o tempo e nos conduzir de volta ao ponto principal do seu registro, o filme, em cerca de 10 minutos, estrutura imagens e movimentos feitos em 16mm, nos quais as dimensões sensoriais da imagem influenciam experimentações.

Do intrigante da captação à amplitude histórica, nem tudo é explicado, necessitando complemento por meio de pesquisa. A origem de tudo que vemos, começa em Crato (Ceará), com José Lourenço, líder católico popular nordestino que criou um modelo coletivo de vida, baseado no trabalho comunitário - algo que, aos poucos, foi incomodando manda-chuvas da região. Alguns anos depois, o lugar onde viviam foi invadido e destruído pelas forças do governo de Getúlio Vargas, e seguidamente bombardeado pela Força Aérea Brasileira.

Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, selecionado para a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e dirigido por Weyna Macedo, Lucas Parente, Adeciany Castro, Mariana Smith, segue o movimento que o cinema provoca: o de registrar pra eternidade. A partir desse relevante registro, pontos importantes de um episódio marcante na cultural nordestina - que se entrelaça na fé e na luta pela terra - nunca ficarão adormecidos.

 

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31/01/2026

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Crítica do filme: 'Gilson de Souza – Na Corda Bamba' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Com um recheio generoso de inesquecíveis canções, que buscam o complemento para uma atmosfera introspectiva de um lutador que, em muitos sentidos, buscou seu lugar no mundo por meio de sua arte, o curta-metragem Gilson de Souza – Na Corda Bamba brinda o espectador com uma história que precisava ser contada, mesclando documentário e ficção.

Dirigido por Brunno Alexandre, o projeto apresenta um curto recorte da vida de Gilson de Souza: de pugilista da categoria meio-pesados à sambista, autor de ‘Orgulho de um sambista’ e ‘Poxa’. Falecido há quatro anos, no dia do próprio aniversário, aos 78 anos, percorremos algumas de suas estradas da vida, com início no interior de São Paulo, na década de 1960, perto do começo da ditadura no Brasil. Nesse momento chave de sua trajetória, vemos um homem em conflito entre o esporte e a música, duas paixões de sua vida.

Ressaltando silêncios e provocando atemporalidade por meio da estética de uma fotografia em preto e branco, além de umas brincadeiras com a linguagem de forma a causar impacto estético e contribuir com o ritmo e a imersão da narrativa, esse filme de 10 minutinhos acerta no alvo ao resgatar a memória de uma rica trajetória e transformá-la em registro.

Selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, Gilson de Souza – Na Corda Bamba nos leva para um passeio por meio de uma realidade subjetiva, na qual sensações e pensamentos conflitantes se tornam expressões das mais diversas emoções.  

 

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30/01/2026

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Critica do filme: 'Para não ser levada por qualquer ventania' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Impressionante como, em apenas sete minutos, uma obra consegue ser tão profunda e criativa ao mesmo tempo. Articulando as diversas potencialidades da linguagem, tendo apenas ligações telefônicas feitas a um alguém especial que já se foi e de uma série de cenários sob um olhar distante e aleatório, o curta-metragem Para não ser levada por qualquer ventania apresenta o luto como tema principal de uma narrativa que se sente e convoca reflexões.

Selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, o projeto escrito e dirigido por Eleonora Loner utiliza poucos recursos e, ainda assim, consegue alcançar o brilhantismo de uma mensagem por meio de uma ideia simples e eficiente. Filmagens caseiras - provavelmente feitas por câmeras de celulares – tornam-se nossos elos com os mistérios de algumas conversas que, a princípio, não entendemos direito sobre o que se trata, mas que vamos entendendo aos poucos seu sentido.

A necessidade do afeto, o desejo de não perder as lembranças, as aflições da ausência, e até mesmo o silêncio que se torna ensurdecedor são pontos chaves para decifrarmos as mensagens que a obra produz chegando diretamente ao conjunto de reações que o luto provoca. Esse sentimento de vazio logo vira uma dedicatória poética, avançando por um percurso de ressignificação.

Ao dividir com o público essa história, de maneira corajosa, Loner expõe suas dores, desejos e tormentos, através também do vazio que ficou. Nessa ebulição do silêncio - um ponto marcante na obra -, todos nós ganhamos, de alguma forma, razões para pensar sobre nossas próprias histórias e nossos próprios silêncios deixados por alguém que já se foi.  

  

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Crítica do filme: 'Faísca' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Por meio de imagens marcantes e de uma narração potente, o curta-metragem Faísca, selecionado para a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes é um filme que gera impacto logo nos primeiros minutos. A obra nos leva para conhecer a aldeia marrecas, ligada a um povo indígena, a partir do notório desaparecimento de animais conhecidos da região. Pelas terras avermelhadas desse lugar, a narrativa nos guia para um tour que atravessa gerações de mulheres imersas em uma cultura rica, que precisa vencer os obstáculos que se impõem.  

Pelos desabafos e paralelos entre o desaparecimento de onças através e histórias familiares dessa comunidade do povo Kariri, em Quiatius, distrito de Lavras da Mangabeira, no Ceará, percorremos reflexões que envolvem ensinamentos familiares, degradação ambiental e o vínculo afetivo de pertencimento. Nessa espécie de filme-denúncia, a conexão dessas muitas realidades constrói paralelos poderosos como uma força resistente contra a ação nociva e desenfreada do homem.

O título, Faísca, ganha inúmeros significados. Atravessa os rituais dos ancestrais, a vivência na caatinga, a sabedoria transmitida de mãe para filha, os aprendizados e a validação da palavra identidade, além da força que surge para enfrentar a pressão de empreendimentos em território indígena. Dessa ideia, nasce um desabafo potente, que ganha forma poética pela condução objetiva e simbólica da narrativa.

Dirigido por Barbara Matias Kariri, Faísca já havia sido exibido no Festival de Brasília do ano passado e, nesse início de 2026 ganhou espaço na programação da Mostra Praça, em Tiradentes. Um lugar onde as mensagens da obra ganharam mais força, em um encontro coletivo sob o céu mineiro.

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Crítica do filme: 'Hacker Leonilia' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Selecionado para a 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, o engenhoso trabalho do brasiliense Gustavo Fontele Dourado, Hacker Leonilia, explora a ficção cientifica entrelaçada à aventura por meio de técnicas de animação e da extensão do mundo real para o digital - seja pela identidade ou mesmo pela interatividade. Um projeto criativo, com ótimo desenvolvimento de sua protagonista: uma idosa hacker que busca na força das memórias uma luta contra o universo que está presa. A obra é baseada, em parte, na história da avó de Gustavo, Leonilia Ferreira.

Os caminhos para esse roteiro não devem ter sido fáceis, já que o que se apresenta em tela é uma sofisticada estrada para se chegar na autorreinvenção através de uma realidade virtual. Há um simbolismo importante sobre a vida eterna, do embate entre meio ambiente e tecnologia, assim como dos laços que se distanciam por questões ligadas ao passado. Da utopia de um mundo ideal à distopia que expõe sinais evidentes de alerta, vamos entendendo diversas razões humanas como o estopim de uma mudança de rota.

Para recriar toda essa ideia, a materialização parece ser feita, em partes, através da ilusão do movimento em fotografias quadro a quadro (stop-motion) combinada a técnicas em 2D (desenhos sequenciais). Essa junção imprime um ritmo bastante corrido, fazendo com que algumas pontas fiquem soltas - algo que não influencia o entendimento - por isso a atenção do público é necessária. Festas realizadas por meio de lives, andróides que assumem formas humanas, elementos vão sendo inseridos para compor um cenário extenso de um metaverso e também toda a denúncia quando esse universo se revela nocivo.

Hacker Leonilia integrou a excelente seleção de curtas-metragens brasileiros que foram exibidos na principal praça da cidade de Tiradentes (MG), localizada no Largo das Forras. Um filme que impressiona pela sagacidade em transmitir suas reflexões sobre a vida, inseridas em um debate atual sobre tecnologia.

 

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Crítica do filme: 'Lomba do Pinheiro' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Buscando a identidade coletiva através de uma narrativa híbrida, com elementos sobrenaturais, que explora um mito através de uma das primeiras áreas indígenas do sul do nosso país, o curta-metragem Lomba do Pinheiro, dirigido por Iuri Minfroy, registra uma imersão cultural ligada à ancestralidade em um recorte que se propõe amplo, articulado por diálogos sobre o cotidiano.

Com apenas 19 minutos, o projeto rompe as fronteiras entre a ficção e o documentário ao apresentar o cotidiano de integrantes da aldeia kaingang Fag Nhin, situada na zona leste de Porto Alegre, por meio de suas rotinas. Do artesanato ao treinamento de um time de futebol feminino, passando pela inserção da tecnologia na cultura indígena e pelo desejo de documentar a história da aldeia, aos poucos vamos sendo conquistados por essa narrativa inventiva, que chega em ótimas reflexões.

O curioso se mostra presente através de depoimentos que nos situam diante de relatos sobre aparições de um possível lobisomem, que já fora visto por diversas pessoas na região. Essa junção do sobrenatural ao concreto dos desafios de um povo que enfrenta enormes obstáculos para manter sua cultura viva se insere no mar de possibilidades que a linguagem cinematográfica oferece – e aqui é amplamente oferecida pela narrativa.

Lomba do Pinheiro foi selecionado para o recorte Panorama da Mostra de Cinema de Tiradentes 2026. Um filme que dribla algumas fragilidades técnicas através da força de uma narrativa.

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Crítica do filme: 'Tião Personal Dancer' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


De uma forte expressão cultural ligada à celebração coletiva às surpresas da intensidade da atração, em Tião Personal Dancer somos convidados a acompanhar um jogo de sedução de duas almas solitárias que tem a pista de dança como cenário. Dirigido por Aristótelis Tothi, o curta-metragem foi uma das obras selecionadas para o recorte Panorama da Mostra de Cinema de Tiradentes 2026.

Reginaldo (Adolfo Moura) faz parte de um de amigos que sempre que podem estão pelas casas de forró espalhadas por Goiânia. Numa sexta-feira dessas, a atenção de Reginaldo se fixa em Tião (Otto Caetano), um professor de dança profissional. Ao longo da noite, de um evento a outro, algo parece se conectar para esses dois universos.

Ao longo de 23 minutos e embalada pela batida do forró, a narrativa progride de forma envolvente ao transformar um momento de lazer em uma oportunidade de encontro. Buscando a todo instante uma curta experiência de impacto, focada em dois personagens, com construções sensoriais marcantes – a trilha sonora, o silêncio, cores, luz, enquadramentos – a obra abre seus leques de reflexões confiando mais na sutileza das cenas do que em uma maior imposição.

O roteiro posiciona seu discurso para o interpretar o que acontece através da atração, um caminho complexo e cheio de estradas, mas que aqui encontra equilíbrio ao enfatizar as sugestões em vez de romper camadas de explicação. Explorando muitos elementos cinematográficos de forma simples - e também inventiva -, Tião Personal Dancer camufla suas intensidades deixando caminho aberto para as poesias da atração.   

 

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Crítica do filme: 'Nosso Amigo Romário' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Em um dos dias de Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, nos encontramos com um filme repleto de simbolismos, que percorre os caminhos curiosos do inusitado para atravessar razões existenciais de grande valor. Nosso Amigo Romário, escrito e dirigido pelo cineasta mineiro Antonio Pedroni, valoriza a atmosfera ligada às emoções, construindo uma experiência emocional marcante que convida para lindas reflexões e gerando muitas lições.

No interior de Minas Gerais, no ano da copa do mundo de futebol masculino de 1994 – aquela mesma onde o Brasil venceu – conhecemos Francisco (Carlos Francisco), um senhor de idade que vive em uma casa humilde junto de sua filha Renata (Paula Amorinni) e seu neto Pedrinho (Daniel Pedro). Um dia, ele se depara com uma fato peculiar: encontra um alienígena a poucos metros de casa e passa o restante dos dias criando um forte vínculo de amizade com ele.

Selecionado para a Mostra Praça, no lindo Cine Petrobrás, a céu aberto, esse é um filme que nos instiga a ver o mundo através de seu protagonista. Utilizando vetores de afeto para provocar interessantes diálogos, a narrativa nos conduz para questões existenciais – sobretudo à oposição conceitual entre a vida e a morte – e também a beleza de simples gestos, o voltar a ser criança e as lembranças que despertam.

A compaixão logo se mostra presente, sendo um alicerce acoplado na ingenuidade. Nada é forçado, tudo é construído com a força da beleza das relações, da empatia, da dinâmica familiar. Em 18 minutos, sem muitas inovações quando pensamos em possibilidades para a linguagem cinematográfica, vemos uma obra pés no chão mas que levita para as possibilidades através de uma atuação emocionante de Carlos Francisco. Lindo filme.

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05/02/2025

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Crítica do filme: 'Milton Bituca Nascimento' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2025]


Indo de encontro ao impossível, o decifrar, explorando todas as facetas, de um ícone da música brasileira o documentário Milton Bituca Nascimento teve sua primeira exibição na 28ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Batendo forte na tecla de que os começos é que são eternos, com a fragilidade e a fortaleza se encontrando numa trajetória, o músico nascido na tijuca - mas que logo virou mineiro de coração – tem aqui os olhares dos outros para contar sua própria história.

Diferente de outras obras documentais, onde a lógica era tentar que o próprio centro das atenções contasse sua história, o documentário dirigido por Flavia Moraes aposta em menos canções com Milton à frente, investigando respostas de lacunas nunca preenchidas através de quem o admira, que logo se torna um desvendar cheio de caminhos de um dos mais enigmáticos artistas que nosso país já conheceu.

O tempo, a imortalidade, ganham atmosfera poética e até filosófica que inclui uma narração constante feita pela grande Fernanda Montenegro. O processo criativo através de depoimentos de outros expoentes da arte ganha força na tela explorando todas as facetas de um exímio conector de talentos, conhecido pelas melodias diatônicas. A contagem regressiva dos palcos parece ditar o tom das quase duas horas de projeção sempre com um discurso que atravessa a complexidade em busca de respostas sobre o que é e o que representa.

O projeto é bem corajoso, poderia ter seguido muitos caminhos mas resolve arriscar-se jogando-se num desmistificar pensamentos e conclusões do que é um artista completo que são preenchidos por entrevistas, imagens da turnê de despedida, tendo a trajetória de Bituca como referência. Milton Bituca Nascimento joga luz e passa pela história do Brasil além de questões sociais que vemos em constante debate até os dias hoje. Durante a turnê de despedida, um dos epicentros que compõe a narrativa, a emoção é vista em cada olhar, em cada sentimento. 


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31/01/2025

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Crítica do filme: 'A Vida Secreta de meus Três Homens' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2025]


O lembrar, o esquecer, o entender. Em uma interessante abordagem que reúne o concreto de reflexões com a transmissão de lições de moral através das histórias de três personagens que de alguma forma ajudam a criar retratos de um país cheio de perguntas sobre seus caminhos e destinos, A Vida Secreta de meus Três Homens é um filme que explora a originalidade em sua essência.

Selecionado para a Mostra Olhos Livres, da 28ª edição da Mostra de Tiradentes, o longa-metragem com cerca de 70 minutos, repleto de achados visuais, joga na tela perguntas sobre o lembrar e o esquecer além das conexões entre o passado e o presente. Com roteiro e direção de Letícia Simões, a obra passa muito pela história da sua própria família com contextos e a consciência invadindo o trânsito entre mundos, os contrapontos até um fabular a partir da violência.  

Construindo revelações através de um jogo de cena, conhecemos versões de fatos de três fantasmas que envolvem a violência, a sexualidade, a política. O próprio processo criativo do filme ganha forma como se as cortinas caíssem e nos mostrassem cada canto de uma busca por verdades. O rumo até descobertas de verdades não ditas cria um novo universo que vai de uma desconstrução da admiração e o medo passando pela discussão da realidade.

Simples e criativo, esse é um filme corajoso que se arrisca numa transmissão de lição de moral. O roteiro audacioso, fora da caixa, costurado com uma narrativa que dribla o convencional, explora o infinito da linguagem e o sons. Tudo que vemos em tela faz muito sentido, se complementam, fazendo as reflexões pularem a todo instante.

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29/01/2025

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Crítica do filme: 'Tijolo por Tijolo' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2025]


Selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes depois de passear - deixando ótimas impressões - em outros festivais de nosso país, o documentário Tijolo por Tijolo caminha pela era das redes sociais e, em consequência, as oportunidades pelo mundo dos influencers sem esquecer de paralelos com os sonhos e a realidade difícil. Nesses versos de imagens e movimentos urbanos com recortes de um cotidiano familiar chegamos de forma animada nas maneiras de como lidar com as dificuldades.

Dirigido por Victória Álvares e Quentin Delaroche, esse filme de 103 minutos nos leva até a história de uma carismática família, moradores do Ibura, na periferia do Recife, com a realidade atravessando o sonhar ainda numa época de pandemia. A reconstrução de uma casa se torna o primeiro passo para abertura de camadas profundas onde descobertas chegam ao mesmo tempo de recortes intimistas de um cotidiano guiados pela figura materna que se lança como influenciadora digital.

Um dos grandes méritos desse projeto é o fato de não deixar de ser interessante nem um minuto. Busca o dinamismo através das camadas que se abrem como pontos de vistas sobre o trabalho, a reconstrução de um lar, a relação familiar. Numa pequena mostra dentro da seleção de Tiradentes, onde há um forte debate sobre temas e formas, Tijolo por Tijolo apresenta sua simplicidade e a riqueza das possibilidades de câmeras em várias mãos.

Muito bem montado, com filmagens que duraram dois anos, consegue fluir numa narrativa onde questões sociais se ampliam para ótimos debates. O empreender, a maternidade, se tornam pontos chaves sempre ligados ao amor, a luta, a solidariedade e ao afeto. Esse é um daqueles documentários que marcam. Tijolo por Tijolo é, sem dúvidas, um dos melhores documentários brasileiros do ano passado.

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Crítica do filme: 'Nem Deus é tão Justo Quanto seus Jeans' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2025]


Selecionado para a aguarda Mostra Aurora da 28ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o projeto paulista Nem Deus é tão Justo Quanto seus Jeans explora o vazio existencial que a depressão provoca através de um amargurado e perdido personagem que vaga pelo cotidiano preso nos pensamentos movidos por amores num passado que se foi e num presente cheio de interrogações. A direção é assinada por Sergio Silva.

A vida de Marcos anda uma amargura só: afastado do trabalho e em casa para curar suas dores, se perde em seus pensamentos através do que estrutura como as verdades que se seguirão em sua trajetória. Entendendo quase nada sobre sua nova relação com o namorado Gabriel – também preso no luto pelo ex que faleceu - se joga com força nas consultas com uma psiquiatra e acaba encontrando caminhos quando um inusitado gatilho aparece: a chegada de baby, um cãozinho deixado por um tempo sob seus cuidados pela irmã.

A narrativa busca explorar a linguagem e suas infinidades possíveis de forma organizada tendo uma estrutura base alcançada com o protagonista sendo o epicentro entre a razão e a emoção. Os desabafos se tornam estradas para chegarmos aos desejos e pensamentos, o que nada mais é que uma manifestação do inconsciente. O olhar do outro ganha importantes manifestações – aqui no sentido de revelação – tendo até mesmo o sobrenatural como elemento.

As peças se movimentam de forma lenta ao longo de 73 minutos, com os diálogos virando o alicerce do entendimento. Caminhar pela melancolia constante pode atrair ou não os olhares permanentes do público, principalmente quando a obra escapa do discurso indo para experimentações.

Com apenas seis diárias e pegando equipamento emprestado Nem Deus é tão Justo Quanto seus Jeans é um dos projetos mais interessantes que se encaixaram na proposta da nova Mostra Aurora, agora para o primeiro filme de realizadores e realizadoras.

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28/01/2025

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Crítica do filme: 'Para Lota' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2025]


Mostrando através da escuridão - que esconde as belezas de um emblemático point carioca - interpretações de desabafos em cartas trocadas sobre questões que envolveram a criação de um parque num aterro do Flamengo, o documentário Para Lota, é um filme, praticamente nascido de uma imagem, que transforma o tempo numa importante variável. Esse jogo de temporalidades, desbravando a linguagem, se junta num imaginar dos desejos e luta de uma contraditória e sonhadora da elite carioca.

Exibido no segundo dia da 28a Mostra de Cinema de Tiradentes, esse projeto dirigido por Bruno Safadi e Ricardo Pretti, mesmo trazendo importantes reflexões sobre uma época de mudanças em nosso país - que sempre devem entrar nas reflexões - poderá ser um grande teste de paciência. Viajando com sua câmera através do travelling, de ponta a ponta de um ponto turístico muito conhecido, apresenta passagens que não se ampliam em contextos, pecando na superficialidade da transmissão de mensagens, indo de encontro a um retrato de um país em tumultuado período na política.

A proposta segue linhas de encontro a partir de uma época pandêmica onde uma filmagem de 8km pela noite carioca entregou uma ideia ao diretor: contar em um objetivo recorte questões sobre a criação do Parque do Flamengo através de cartas escritas pela criadora do lugar, a arquiteta-paisagista e urbanista da elite brasileira Lota de Macedo Soares. As atrizes Leandra Leal e Mariana Ximenes dão vozes as cartas. O desafio a partir desse ponto é: como transformar isso em cinema?

Para Lota encontra em sua narrativa imagens de uma escuridão sem pessoas em plano, somente a paisagem, que poderia ser um interessante complemento contemplativo para o conteúdo histórico das cartas escritas por Lota. Porém, mesmo sem redundância e passando por uma época turbulenta no Brasil, sem deixar de se arriscar nas possibilidades autorais da linguagem, encontra seu sentido apenas para quem alcança a paciência.

  

 

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Crítica do filme: 'Prédio Vazio' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2025]


Filho de um ex-mágico e já consolidado como uma referência no gênero terror em nosso cinema brasileiro, o cineasta Rodrigo Aragão circula dramas e questões entre mães e filhas através de almas infelizes, atormentadas, com uma protagonista que está encontrando o seu pulsar pelo amor através do que encontra pelo caminho. Selecionado para a Mostra Olhos Livres, da 28ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o terror capixaba Prédio Vazio se afasta a cada segundo do convencional comercial, ganhando forte originalidade, onde o gótico e o ocultismo se encontram.

Desde criança tendo lembranças vagas de um certo momento traumático que viveu com sua mãe, a jovem Luna (Lorena Corrêa) está em um relacionamento ainda de descobertas com o namorado (Caio Macedo). Quando ela percebe que a mãe (Rejane Arruda) possa estar em perigo durante os últimos dias de carnaval, viaja até Guarapari em sua busca, entrando num edifício arrepiante na orla capixaba. Nesse lugar, vai se deparar com um enorme pesadelo.

Com referências que vão do grande José Mojica Martins até Dario Argento, esse projeto, que contou com apenas 20 diárias de gravações, acerta no clima de tensão colocando a criatividade na frente de suas possibilidades o que causa um efeito dominante na atenção do público. Luzes coloridas, plot twist... das linhas do roteiro até as ações na narrativa, através do medo e do aterrorizar, encontramos camadas sobre relação entre mães e filhas, também pinceladas sobre as descobertas do amor.

Em Prédio Vazio, o gótico e o ocultismo andam de mãos dadas, até mesmo com um charme cômico que se encaixa como uma luva dentro de toda a atmosfera criada. Aragão vai de encontro a um universo que domina como poucos levando o público para uma jornada aterrorizante mas também divertida pelas infinidades do sobrenatural. São cerca de 80 minutos que passam rapidinho com gosto de quero mais.

 

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02/02/2024

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Crítica do filme: 'A Câmara'


O estacionar a câmera num lugar onde histórias nascem a todo instante. Exibido no recorte Olhos Livres durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2024, o documentário brasiliense A Câmara, dirigido pela dupla Cristiane Bernardes e Tiago de Aragão, nos apresenta os bastidores do poder em Brasília através de ações e reações de algumas deputadas federais em um período perto de nova eleições. Curiosidades da direita e da esquerda são colocadas à mesa onde a interpretação do fazer política vira algo bem próximo aos nossos olhos.

Os assuntos de interesse da população, como pautas sobre educação e direitos humanos, se misturam com algumas necessidades de se posicionar para as próximas eleições, ainda dentro do governo do ex-presidente Bolsonaro. Com a câmera ligada em várias situações, inclusive num quase inimaginável cantinho de oração da bancada evangélica e embates calorosos, vamos vendo um real cenário das polarizações e uma busca constante por consenso.

Esses bastidores do poder nos mostram também algumas verdadeiras atuações e as ‘conversas’ com seus votantes através de mensagens, muito dentro do posicionamento nas redes sociais, vídeos de uns para os outros da mesma bancada, variáveis que nos levam a associar a um verdadeiro palco onde os eleitos se tornam estrelas, personagens reais dentro apenas de suas próprias narrativas.

Buscando ser um profundo recorte sobre a política brasileira através de um foco totalmente observador estático, o documentário busca se sustentar na busca pelo imprevisível, porém o olhar através do aleatório muitas vezes pode ser algo que não transmite além da superfície.


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29/01/2024

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Crítica do filme: 'Lista de Desejos para Superagüi'


Tudo mundo merece, no mínimo, o respeito. Documentário paranaense exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes 2024, Lista de Desejos para Superagüi consegue contar uma importante história através de imagens belíssimas que passam todo o campo abstrato das emoções através de seu amplo alcance contemplativo. As denúncias de uma região abandonada, os dramas dos moradores, a realidade diferente de muitos de nós, com uma extensa pesquisa, além de todo o processo de filmagens que começou em 2018, esse documentário traça um raio-x de um lugar que respira a esperança pela volta de como era antes. Um dos melhores filmes exibidos na Mostra de Cinema de Tiradentes 2024 saindo o troféu da Mostra Aurora.

Autoral, ambientado numa Ilha do Paraná, também uma reserva federal, um lugar de pescadores artesanais, o projeto encontra seu norte através de um pescador na casa dos 70 anos chamado Martelo, um experiente homem do mar, que vem com recorrentes problemas de visão. Em busca de soluções, vai em busca de sua aposentadoria, mas pelo seu caminho as dificuldades do cotidiano se acumulam gerando uma série de reflexões que esbarram também nos dramas de outros moradores.

As imagens conversam com os temas propostos, o que é fundamental para um total entendimento. Tudo é captado em imagens repletas de beleza mas que se contrastam com as desilusões de um lugar muitas vezes esquecido. Sem fugir das características de um filme-denúncia, principalmente nos desenrolares sobre esse espaço carente de infraestrutura que se vê em dificuldade quando as pescas são proibidas nos momentos de reprodução dos peixes, Lista de Desejos para Superagui também esbarra seu olhar nas questões ambientais pela voz de quem tem muito a ensinar.

Criar uma história através de imagens nunca é algo fácil. Através dessa jornada repleta de variáveis de uma mítica ilha no litoral Sul do Brasil, o cineasta Pedro Giongo apresenta os fatos em contrastes, da solidão à união, dos desejos às desilusões. Será que há tempo para o sonhar? Imperdível documentário!

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27/01/2024

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Crítica do filme: 'Seu Cavalcanti'


O cinema como um complemento da realidade. Diante de uma certa necessidade de eternizar momentos através do cinema, o documentário Seu Cavalcanti, exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes em 2024, é um projeto leve, descontraído, que flerta com a necessidade de eterna liberdade personificada na figura de um senhor de mais de 90 anos. Dirigido por Leonardo Lacca, produzido por Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho, o filme se consolida como uma carta de amor através de imagens e movimentos tendo a força da saudade misturada a uma inventiva imaginação.

Logo conhecemos Seu Cavalcanti, um ex-policial, já há mais de 20 anos aposentado, morador de recife, Pernambuco. Um figuraça, capaz de momentos marcantes. Assim, ao longo de um grande recorte de sua trajetória ao lado da família, vamos acompanhando suas aventuras ao melhor estilo crônicas de um cotidiano, através de imagens que seu neto sempre fazia. Com um roteiro intimista, que conta com a casualidade em confronto com o provocado, esse vovô gente boa, visto sob um olhar afetuoso de sua família pode vir a ser um dos personagens mais marcantes desse ano no cinema brasileiro.

Intimista, buscando identidade sob as pegadas do campo emocional em seus 78 minutos de projeção, possui na montagem um de seus destaques. Um dos trunfos é sempre circular sob o discurso, nunca perdendo sua referência. Uma declaração de amor, uma necessidade constante de eternizar momentos pelo cinema, o que gira ao seu redor do protagonista. Nesse liquidificador criativo, Lacca transforma a dor de uma eterna saudade em uma caixinha de surpresas para o espectador.

Sem nunca deixar de esbarrar na lembrança, um dos fortes elementos ligados ao processo criativo, o documentário experimenta os olhares através das situações que envolvem seu protagonista. Seja na formatura da neta, na tristeza de ter o fiat uno antigo roubado, ou participando de um filme, Seu Cavalcanti aos poucos se torna novamente, assim como na vida real, o protagonista de sua própria história. Criar situações e mesclar com a surpreendente captura de um momento real é um experimento que pode confundir mas nunca deixa de refletir.



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26/01/2024

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Crítica do filme: 'Not Dead'


Um dos sete filmes selecionados para concorrer ao troféu barroco dentro da competitiva Aurora da Mostra de Cinema de Tiradentes em 2024, o documentário baiano Not Dead reflete sobre a ideologia, e seus muitos olhares, de um movimento que teve seu início na década de 70 na Inglaterra e atingiu com grande força a trajetória de alguns jovens baianos que tinham um ponto de encontro, uma loja de artigos musicais e voltada ao universo punk chamada Not Dead. Ao mesmo tempo que se mistura com a concepção do próprio filme, inclusive incluindo a importante temática da acessabilidade, o trabalho do cineasta Isaac Donato encontra sua força nas novas maneiras de personagens reais ligados ao movimento punk baiano enxergarem a sociedade nos dias de hoje onde estão inseridas suas novas realidades.

Tudo começa em um edifício colonial construído em 1549 na Rua Chile, a primeira fundada no Brasil, perto da praça Castro Alves, no centro de Salvador, um lar de descobertas de parte do cenário jovem baiano de décadas atrás onde existia um lugar de encontros onde os pensamentos se alinhavam sobre os novos rumos do Punk, na linha do espírito de nunca deixar o som morrer. O discurso do projeto contorna alguns recortes para buscar ampliar os horizontes mais em cima da linha da ideologia, da indomável sensação que muitos personagens tinham de ir pra cima do que pode ser desconhecido e dentro da política do ‘faça você mesmo’.

O documentário resolve caminhar no depois sem se aproximar muito no antes, fato que atrasar o dinamismo. Assim conhecemos personagens, alguns bastante carismáticos, do cenário punk baiano que após anos nessa estrada também precisaram se virar com a parte do seu próprio sustento. Assim, aproveitaram oportunidades na marcenaria, como mototáxi, cervejeiro artesanal, mas sem nunca perderem o espírito da ideologia que acreditavam. As leituras sobre o movimento punk e a importẫncia social se chocam nessa superficial análise do antes e uma profunda do depois, na descrença de alguns pontos e um novo olhar para outros dentro dessa ideologia repleta de interpretações.

Um fator interessante por aqui é que o longa-metragem de pouco mais de 70 minutos traz para o espectador o assunto da audiodescrição dentro do audiovisual, personificada em um representante importante do movimento punk baiano que tem deficiência visual instigando novos olhares para dentro de uma mesma obra. Diretor do intrigante Açucena, Isaac Donato se consolida como um diretor com total domínio dos assuntos que aborda tendo muito a oferecer aos amantes da sétima arte.



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