Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Ervas Secas'


Quando se fecha os olhos, os problemas nunca tem fim. Um vilarejo turco, um professor desiludido e com o sonho de sair dali, um fato marcante em meio a uma neve incessante. Indicado à Palma de Ouro em Cannes no ano passado, o longa-metragem turco Ervas Secas escancara o conformismo para destrinchar as relações humanas movidas pela esperança, a raiva, as incertezas. Baseado no diário do professor Akin Aksu, esse, que é o nono longa-metragem do excelente cineasta Nuri Bilge Ceylan, um decifrador da natureza humana, caminha na objetivo de apresentar argumentos de que uma vida tem valor mesmo que não encontre mais sentido.

Na trama, acompanhamos um período na vida do professor de artes Samet (Deniz Celiloglu), um homem que chegou no último ano como professor em uma aldeia distante e já planeja novos voos em uma das maiores cidades da Turquia. As desilusões sobre o ensino, as desconfianças sempre foram uma marca de sua personalidade. Um dia, ele e mais outro professor, são acusados de contato inadequado com duas alunas, fato esse que muda para sempre seus planos. Quando tudo parecia bem confuso e perdido, se aproxima de Nuray (Merve Dizdar), professora de uma outra escola da região, uma mulher que o confronta sobre seu conformismo, sua acomodação dentro de um fugir ao invés de encarar, trazendo novos olhares e restos de esperança.

O sufoco dos próprios gritos. As desilusões sobre o papel do ensino na formação, as desconfianças, retratos políticos, os relacionamentos se somam a trajetória de um protagonista que culpa o lugar por todos os seus problemas. O intrigante labirinto das suas emoções se jogam na evidência ao não conseguir entender os porquês das acusações que podem influenciar para sempre seu futuro. Cansado da esperança, se joga na incerteza. Esse relato nada mais é que um paralelo com muitos destinos do lado de cá da tela, transformando essa obra é algo muito próximo quando enxergamos uma enxurrada de realidade em cada movimento.

O espectador precisa de paciência, são mais de três horas de duração. A narrativa caminha de forma lente e desabrochando uma poderosa trama onde tudo é minuciosamente envolvido por belas imagens e diálogos longos, profundos. Impressionante como tudo faz grande sentido quando pensamos no uso das imagens e seus movimentos. Somos testemunhas de uma enorme viagem rumo ao abstrato dos sentimentos sem perder o norte de apresentar os caminhos para novas perspectivas, novos olhares, para dentro e para o que está lá fora.


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...