Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Segredos em Família'


Um clima de tensão constante, cenas chocantes, diálogos marcados pelo confronto, assédio sexual. O longa-metragem chileno Segredos em Família nos apresenta de maneira excruciante o retrato de uma família disfuncional, até mesmo parte preconceituosa, que fica presa em uma Ilha no sul do Chile. Exibido no Festival de San Sebastian em 2019 e no Festival do Rio desse ano, dirigido pelo cineasta Jorge Riquelme Serrano (em seu segundo longa-metragem na carreira), somos conduzidos até os conflitos de um ‘big brother’ instaurado que logo aflora o pior lado de relações já conflituosas, mostrando até mesmo uma parte sombria de seus personagens. No elenco, a excelente atriz Paulina García (do sucesso Gloria).


Um ambicioso casal em busca de um empreendimento, leva os pais de uma das partes para uma visita à uma ilha onde supostamente existe um ótimo lugar, onde não falta nada, e daria um ótimo hotel. O intuito desse convite é conseguir uma boa parte do dinheiro de entrada desse negócio. Acontece que o responsável pela casa na ilha, após algumas situações constrangedoras com elementos da família, acaba fugindo, deixando o restante das pessoas sem ter como sair da ilha. O que era pra ser um passeio agradável, regado à vinho e conversas descontraídas logo vira um ambiente hostil, tenso, onde facetas escondidas logo vem à tona.


Partimos do encontro de três gerações: os avós, os pais e os filhos. Só por isso, já dá pra imaginar iminentes conflitos. Os mais velhos parecem analisar o casal mais novo, destilando veneno pra todos os lados, se colocando como os senhores da razão em relação a todos os assuntos. As críticas que não são faladas ‘olho no olho’ vão nos mostrando as verdades de personalidades dúbias. O clima de tensão tem seu início na questão da sobrevivência, por estarem em um lugar inóspito, sem água e outras coisas básicas. Mas logo uma surpreendente questão vira palco de questionamentos, com os personagens já no seu desfecho não sabendo lidar com o ocorrido. O público é surpreendido nos minutos finais, com o roteiro deixando em entrelinhas rasas qualquer desdobramento sobre o chocante fato.


O ritmo é lento, mas há um sentido nisso, aos poucos vamos nos surpreendendo e chocados assistimos uma série de situações destrutivas, absurdas. Rodado na comuna de Calbuco, Região de Los Lagos, no Chile, o projeto bate na tecla de que as aparências enganam, do fato mais que lógico que não existe família perfeita, da pergunta filosófica que acaba fazendo total sentido aqui nessa história: Afinal, as pessoas nascem boas ou más? Ou é o seu caminho de escolhas que te leva para um lado ou outro?  



 

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...