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Crítica do filme: 'Paloma'


O desabrochar de um sonho. Vencedor do Prêmio de Melhor Atriz e Melhor Longa-metragem da mostra competitiva da Première Brasil do Festival do Rio de 2022, Paloma nos leva para uma história, baseada em uma notícia de jornal, sobre uma mulher transexual que tem o sonho de se casar na igreja. Dirigido pelo experiente cineasta pernambucano Marcelo Gomes, o projeto apresenta uma forte protagonista em uma jornada de conflitos, incertezas, amores, traições, que fortalece a força da fé num recorte sensível e profundo sobre os desenrolares do desabrochar de um sonho.


Na trama, conhecemos Paloma (Kika Sena), mãe da pequena Jenifer que mora com o companheiro Zé (Ridson Reis) em uma casa humilde em Saloá, município de Pernambuco, uma pequena cidade nordestina com pouco mais de 15.000 habitantes. Paloma é transexual e trabalha diariamente como agricultora (numa colheita de mamão) e de vez em quando faz bico como cabeleireira. Ela tem um desejo dentro dela que acaba saltando em seu presente: ela quer se casar na igreja de véu e grinalda. Em uma conversa com o padre da cidade, ela fica sabendo que somente o papa poderia dar autorização para ela casar na Igreja. Assim, resolve escrever uma carta para a maior autoridade católica do planeta. A partir dessa iniciativa, conhecemos alguns conflitos que a protagonista atravessa na caminhada para seus sonhos e sem nunca perder sua fé.


Também exibido na 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Paloma contorna as linhas sempre dolorosas do preconceito mas aqui combatidas com uma força impressionante de uma alegria genuína. De forma contagiante parece convencer, até mesmo inspirar, a todos ao seu redor para embarcar no seu sonho. Mas a estrada é cheia de obstáculos, a impunidade de uma violência desumana está muito próxima. Essa filha de Deus como qualquer outra pessoa busca uma aceitação dentro de um cenário conservador que muitas vezes parece não enxergar que o amor está em toda e qualquer relação de duas almas que se amam. 


Sua relação com Zé também tem grande profundidade na narrativa. Há muito amor nesse lar mas também conflitos sobre o principal sonho de Paloma. Por exemplo: a mãe de Zé não aceita essa relação e isso vira um outro conflito com o circo midiático que acaba se estabelecendo com o casamento. Há também escolhas que a protagonista faz pelo caminho, como seu relacionamento relâmpago com um terceiro, erros e acertos que aqui são empurrados pela força dos seus desejos. Kika Sena se doa completamente a sua personagem em uma interpretação emocionante que ficará gravada para sempre na memória do cinema brasileiro.


Quando a realização chega em paralelo ao seu sonho (o sacramento sagrado do patrimônio), parece um momento de descobertas mais sombrias e preconceituosas de um entorno conservador, preconceituoso, que dilacera sua felicidade mas sem nunca deixar de seguir em frente como todos que sabem lutar pela sua verdade. Paloma chega ao circuito exibidor brasileiro em novembro, uma oportunidade para todos assistirem mais uma impactante obra-prima do cinema brasileiro.



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