Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'O Estranho'


Em sua segunda exibição em território nacional, que aconteceu no CINEBH2023, o longa metragem O Estranho é uma profunda viagem de encontros do presente com o passado às margens das idas e vindas de um famoso aeroporto que fica em um território indígena. Os que passam e os que permanecem envolvidos com esse lugar ditam o ritmo de uma narrativa que vai do passado, passando pelo presente por meio de memórias e experiências. Rodado em 2021, exibido no Festival de Berlim, o projeto dirigido por Flora Dias e Juruna Mallon é bastante interpretativo.


Na trama, somos envolvidos por curiosos recortes que de alguma forma estão relacionados a uma área onde funciona um aeroporto de alta frequência, um enorme espaço ligado por meio do tempo com os indígenas. Nesse lugar de constantes transformações ao longo dos anos, percorremos retratos tocantes de pessoas que buscam responder a uma mesma pergunta: Como enxergar o mesmo lugar de formas diferentes?


O tempo como referência se torna um importante elemento para a narrativa. O refletir sobre essa obra é algo que se faz durante as horas que se seguem, é muita coisa para captar nesse longa atemporal. Outra deixa sobre a questão: o tempo passa por você mas como é a sua interpretação diária do que passa por você? Nesse ponto entram os personagens que se misturam junto às referências dentro de uma bolha interpretativa que deve gerar boas conversas sobre as individualidades do entendimento.


As horas correm, tudo passa por você mas como é a sua interpretação diária do que passa por você? Refletir no agora, o significado das palavras, brigas por uma necessidade de estar ali, o projeto ruma para uma questão existencial onde o espectador, cada qual com suas experiências, vai ao encontro das angústias dos personagens no presente, no ‘eu’ hoje e os seus encontros com o tempo.


A resistência indígena vira um complemento, um subtema para a narrativa, um recurso em forma de crítica que faz pensarmos bastante sobre o capitalismo e suas formas de usufruir do que muitas vezes não tem direitos. Com o presente esbarrando em pitadas de uma extensa linha temporal, O Estranho caminha lá de trás para encontrarmos soluções para frente.



Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...