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Crítica do filme: 'Mal Viver'


Não existe band-aid para grandes feridas. Selecionado de Portugal para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2024, Mal Viver nos apresenta um intrigante olhar para a figura materna repleto de inquietudes que nos tiram do lugar comum. Escrito e dirigido pelo cineasta João Canijo, baseado vagamente em sua própria infância, o projeto, muitas vezes desafiador, parece querer apontar seu norte para as lacunas do afeto, os conflitos persistentes de uma família, algo como uma página revirada em um mar de recordações trazendo na bagagem momentos de revelações tendo como alicerce uma personagem enclausurada numa bolha melancólica que parece aguardar sem pressa o último suspiro.

Na trama, conhecemos uma família de cinco mulheres que estão prestes a passar alguns dias juntas no hotel da família, numa região praiana, localizado em uma vila portuguesa do Município de Esposende. Entre idas e vindas dos hóspedes, conflitos entre elas se estabelecem tendo o passado como algo desafiador a ser relembrado. O epicentro se coloca na relação entre Piedade (Anabela Moreira) e Salomé (Madalena Almeida), mãe e filha, a primeira cheia de angústias e medos com uma depressão evidente, a segunda já na fase da faculdade, acabou de perder o pai e tenta se reconectar com a mãe com quem não nunca se deu bem.

A incerteza faz parte da vida mas se jogar nela é um passo doloroso para alguns. Partindo desse contexto, o conflito com a figura materna se mostra como a origem de tudo que vemos. Duas tentativas de reconexões de gerações entre mãe e filha, com barreiras entre elas, segue se sustentando nos desabafos desalinhados associados até a última gota de egoísmo. Em todos os casos, uma relação familiar danosa provoca a incapacidade de encarar os problemas de frente.

Vencedor de um importante prêmio na última edição do Festival de Berlim, o Urso de Prata (prêmio do júri), Mal Viver não se encosta em pausas dramáticas, a tensão é constante, mesmo assim há um espaço para o refletir. Subtramas também recheadas de conflitos vão se modelando conforme a narrativa apresenta seu ritmo lento, por vezes com imagens distantes, planos sequências, em busca de complementos do olhar do outro. O quebra-cabeça emocional proposto por Canijo é realmente perturbador, para o olhar mais atento tudo em cena tem um porquê.

 


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