Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Temporada de Caça'


Um intrigante narrador anuncia uma espécie de prólogo para o que viria a ser uma jornada de angústia, sofrimento, loucura e escolhas onde um protagonista no limite das emoções dá as cartas. Lançado no final da década de 1980, Temporada de Caça aborda a obsessão e o psicológico - além de seus porquês - em meio a traumas de um passado com sequelas e um presente confuso. 

Na trama, ambientada numa cidadezinha fria no interior dos Estados Unidos, conhecemos Wade (Nick Noite) um policial local, com traumas familiares no passado, que vive um alvoroço no seu presente. Tentando se entender com a filha que vive com a ex-esposa e com os pensamentos sempre tumultuados sobre tudo que aparece em seu cotidiano, acaba ficando obcecado por um acidente de caça fatal, com um líder sindical, que acontece na região. 

O roteiro é primoroso. É uma trama muito bem amarrada, com um desenvolvimento impecável de um protagonista amargurado, dissecado por uma narrativa detalhista. Tudo funciona em cena: a atmosfera fria que dialoga com os acontecimentos trágicos que acompanhamos, além de potentes atuações de Nick Nolte e James Coburn. 

Em camadas profundas, vemos um raio-x de um perturbado psicológico e percebemos reflexões sobre as razões humanas. Nesse ponto, a violência familiar se torna a sustentação de argumentos que vemos nas atitudes de um homem à beira da loucura que em seu isolamento constante ultrapassa os julgamentos morais chegando ao precipício por não encontrar o sentido do viver. Tudo isso é mostrado com a tensão nas alturas. 

Indicado para dois Oscars - vencendo na categoria de melhor ator coadjuvante (James Coburn) - Temporada de Caça é um filme onde a história está toda no seu personagem principal que dentro do seu egocentrismo derruba qualquer barreira do trivial.  Baita filme.


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...