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Crítica do filme: 'Pobres Criaturas'


A libertação aos olhos ingênuos de um renascimento. Indicado para 11 Oscars e com um chamativo estilo visual repleto de referências, absorvendo uma peculiar identidade na linguagem, o novo trabalho do cineasta grego Yorgos Lanthimos pulsa em tons e sensações, longe do pudico, apresentando uma história de uma volta à vida que dialoga com os tabus de uma época. Adaptação de uma obra homônima escrita pelo escritor britânico Alasdair Gray no início dos anos 90, Pobres Criaturas foi exibido pela primeira vez no Festival de Veneza, onde levou o prêmio máximo do evento, o Leão de Ouro.

Na trama, conhecemos Bella Baxter (Emma Stone), uma jovem que ganhou uma segunda chance na vida após ser salva da morte pelo Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe), um excêntrico cientista famoso por experiências bizarras. Buscando reaprender valores e o básico da vida, Bella logo se abraça a necessidade do livre-arbítrio embarcando assim em uma enorme aventura quando foge com um duvidoso advogado chamado Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo).

Com muitas cenas filmadas em estúdio, é notório o uso de um estilo visual fascinante com total domínio de uma própria criação na identidade da linguagem, com experimentos na fotografia, trocas de lentes e a busca constante pelo alcançar o peculiar. Méritos de Yorgos Lanthimos, cineasta grego que antes de impactar o mundo do cinema logo no seu terceiro longa-metragem (Dente Canino) foi uma das mentes criativas da abertura e encerramento das Olimpíadas de 2004 em Atenas.

A narrativa, com um impressionante dinamismo, nos leva para uma verdadeira epopeia que alcança o desejo da descoberta em um contexto inserido dentro da era vitoriana em um cenário europeu ainda tímido em relação as interpretações sobre a moralidade. O roteiro usa com habilidade a atemporalidade ligada à críticas sociais para realizar um trabalho primoroso que gera muitas reflexões.

O uso de imagens chocantes dentro de uma linha surrealista que vai do absurdo ao sensível, explorando o abstrato das emoções através de um eficiente tour, transborda até seus ótimos personagens, com destaque para a atuação impecável de Emma Stone como a grande protagonista. Pobres Criaturas pode ser definido como uma fábula ligada ao comportamento humano que caminha pela estranheza para debater o atemporal em uma sociedade ainda carente de bons debates.

  

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