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Crítica do filme: 'Uma Família Feliz'


O obscuro no mundo das aparências. Chega aos cinemas brasileiros nesse início de abril um suspense brasileiro que consegue estabelecer suas bases em um clima de tensão constante onde é construída a chegada até um esgotamento, os caminhos da paranoia, a quebra de confiança, um castelo de cartas que vai desmoronando rumo ao imprevisível. Dirigido por José Eduardo Belmonte, Uma Família Feliz coloca para reflexões o mundo das aparências, as verdades imprecisas, o linchamento público, a maldade, novos olhares para uma família taxada por todos como perfeita. No papel principal, Grazi Massafera, muito competente, que consegue encontrar um interessante caminho na construção dessa difícil personagem.

Na trama, conhecemos Eva (Grazi Massafera), uma artesã de bonecos de bebês à espera do terceiro filho, o primeiro menino, que vive seus dias felizes ao lado do marido, o advogado Vicente (Reynaldo Gianecchini), e das duas filhas gêmeas em um condomínio de alto padrão numa grande cidade brasileira. Certo dia, já após o nascimento do novo filho, e em meio a uma depressão pós-parto evidente, suas filhas aparecem machucadas e Eva acaba sendo acusada de ter cometido tal ato. Assim, sua vida muda completamente, desencadeando uma série de conflitos que rebatem em acontecimentos estranhos e duvidosos.

Como combater a maldade? A loucura é uma variável aqui invisível mas que permeia todo o caminho de muitos dos personagens. A quebra da confiança é o primeiro estágio que logo vira uma paranoia caminhando para uma angústia desenfreada onde a inconsequência logo toma conta da razão. A narrativa se constrói ao redor de toda essa tensão e um dos méritos é conseguir manter-se constante. Todo visto em cena: desde as cores, objetos, cenários, o figurino, conseguem ser elementos de impacto, que querem dizer alguma coisa, e se juntam para essa manutenção da tensão.

Há também uma grande lupa no sentido de família colocado para reflexões. Um casamento desmoronando aos poucos, a depressão pós-parto, a falta de entendimento nas lacunas não preenchidas, a imaturidade em lidar com situações conflituosas. Dentro de quatro paredes, a porta é aberta e o espectador percebe, não só nos detalhes, a desconstrução de uma família perfeita.

Cheio de referências a algumas famosas obras cinematográficas conhecida dos cinéfilos, desde Precisamos falar sobre Kevin de Lynne Ramsay até A Caça de Thomas Vinterberg, o longa-metragem encosta bastante na essência de Anjo Malvado de Joseph Ruben. Uma questão interessante é que o roteiro escrito por Raphael Montes, logo após (e somente após) virou um livro onde o universo visto na obra cinematográfica acaba se expandindo. Pode ser uma interessante ação complementar para o espectador.

É tão bom ver o cinema brasileiro explorando o universo do suspense, um gênero tão amado por muitos cinéfilos. O drible no chocar, talvez uma sensação guardada para o estrondo do seu desfecho, fortalece o terror psicológico em uma obra que caminha pelas aflições sem deixar as reflexões em segundo plano.



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