Uma legenda logo no início da obra nos situa em um panorama amplo de um passado que segue vivo no presente. A partir da busca por um registro do que restou de memórias de um lugar simbólico de um movimento religioso - símbolo de resistência camponesa que percorreu as década de 1920 e 1930 -, o curta-metragem Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto abre algumas páginas de um livro de recordações sobre uma situação que marcou a história cearense.
A autonomia em um processo artesanal de revelação, aliado a
um ajuste por meio de recursos digitais, cria-se dentro dessa narrativa algumas
possibilidades. Entre sensações que parecem paralisar o tempo e nos conduzir de
volta ao ponto principal do seu registro, o filme, em cerca de 10 minutos, estrutura
imagens e movimentos feitos em 16mm, nos quais as dimensões sensoriais da
imagem influenciam experimentações.
Do intrigante da captação à amplitude histórica, nem tudo é
explicado, necessitando complemento por meio de pesquisa. A origem de tudo que
vemos, começa em Crato (Ceará), com José Lourenço, líder católico popular
nordestino que criou um modelo coletivo de vida, baseado no trabalho comunitário
- algo que, aos poucos, foi incomodando manda-chuvas da região. Alguns anos
depois, o lugar onde viviam foi invadido e destruído pelas forças do governo de
Getúlio Vargas, e seguidamente bombardeado pela Força Aérea Brasileira.
Do Caldeirão da Santa
Cruz do Deserto, selecionado para a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e
dirigido por Weyna Macedo, Lucas
Parente, Adeciany Castro, Mariana Smith, segue o movimento que o cinema
provoca: o de registrar pra eternidade. A partir desse relevante registro,
pontos importantes de um episódio marcante na cultural nordestina - que se
entrelaça na fé e na luta pela terra - nunca ficarão adormecidos.
