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01/02/2026

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Crítica do filme: 'Roteiro para uma Fuga’ [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Com um ar filosófico e pulos de um existencialismo abraçado na narrativa, o curta-metragem pernambucano Roteiro para uma Fuga levanta questões de identidade e automaticamente simbolismos e razões que constroem um existir. Com direção e roteiro de Priscila Nascimento, esse filme aposta na delicadeza caminhando a curtos passos pelas angústias e a busca por sentidos, revelando-se uma investigação sugestiva pela própria história de uma narradora – figura viva e observadora na narrativa.

Nesse projeto, selecionado para a 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, não há nada de inovador quando pensamos em linguagem cinematográfica, mas o seu modo de contar essa história - direto e simples - encontra atalhos para tornar atraente ao público as imposições do que é incontrolável – também conhecido como obstáculos pelo caminho. Uma boa definição da obra é: um filme fácil de digerir e que pode convidar à reflexões.

Com imagens que passam pelo tão falado São Luiz, um dos cinemas de rua mais charmosos e amados pelos cinéfilos de todo o Brasil, e outros lugares que se ligam a lembranças e experiências que representam dilemas, logo se chega também em analogias através de conhecidos filmes. Com uma narração que impõe intimidade, acompanhamos o surgimento de questões que envolvem família, amor, trabalho - elementos que vão de encontro ao medo das repressões sociais.

Enfatizando a certeza de que o contexto molda uma trajetória de vida, o filme desvendar um olhar para o processo de criação de histórias, na aproximação com as vivências e as relações encontradas pelos caminhos percorridos. Nesses questionamentos profundos, que lidam com dúvidas a todo instante, a única certeza que permanece é que o filme de nossas vidas é uma página de roteiro sempre à espera das próximas linhas.

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Crítica do filme: 'Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto’ [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Uma legenda logo no início da obra nos situa em um panorama amplo de um passado que segue vivo no presente. A partir da busca por um registro do que restou de memórias de um lugar simbólico de um movimento religioso - símbolo de resistência camponesa que percorreu as década de 1920 e 1930 -, o curta-metragem Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto abre algumas páginas de um livro de recordações sobre uma situação que marcou a história cearense.

A autonomia em um processo artesanal de revelação, aliado a um ajuste por meio de recursos digitais, cria-se dentro dessa narrativa algumas possibilidades. Entre sensações que parecem paralisar o tempo e nos conduzir de volta ao ponto principal do seu registro, o filme, em cerca de 10 minutos, estrutura imagens e movimentos feitos em 16mm, nos quais as dimensões sensoriais da imagem influenciam experimentações.

Do intrigante da captação à amplitude histórica, nem tudo é explicado, necessitando complemento por meio de pesquisa. A origem de tudo que vemos, começa em Crato (Ceará), com José Lourenço, líder católico popular nordestino que criou um modelo coletivo de vida, baseado no trabalho comunitário - algo que, aos poucos, foi incomodando manda-chuvas da região. Alguns anos depois, o lugar onde viviam foi invadido e destruído pelas forças do governo de Getúlio Vargas, e seguidamente bombardeado pela Força Aérea Brasileira.

Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, selecionado para a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e dirigido por Weyna Macedo, Lucas Parente, Adeciany Castro, Mariana Smith, segue o movimento que o cinema provoca: o de registrar pra eternidade. A partir desse relevante registro, pontos importantes de um episódio marcante na cultural nordestina - que se entrelaça na fé e na luta pela terra - nunca ficarão adormecidos.

 

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31/01/2026

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Crítica do filme: 'Gilson de Souza – Na Corda Bamba' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Com um recheio generoso de inesquecíveis canções, que buscam o complemento para uma atmosfera introspectiva de um lutador que, em muitos sentidos, buscou seu lugar no mundo por meio de sua arte, o curta-metragem Gilson de Souza – Na Corda Bamba brinda o espectador com uma história que precisava ser contada, mesclando documentário e ficção.

Dirigido por Brunno Alexandre, o projeto apresenta um curto recorte da vida de Gilson de Souza: de pugilista da categoria meio-pesados à sambista, autor de ‘Orgulho de um sambista’ e ‘Poxa’. Falecido há quatro anos, no dia do próprio aniversário, aos 78 anos, percorremos algumas de suas estradas da vida, com início no interior de São Paulo, na década de 1960, perto do começo da ditadura no Brasil. Nesse momento chave de sua trajetória, vemos um homem em conflito entre o esporte e a música, duas paixões de sua vida.

Ressaltando silêncios e provocando atemporalidade por meio da estética de uma fotografia em preto e branco, além de umas brincadeiras com a linguagem de forma a causar impacto estético e contribuir com o ritmo e a imersão da narrativa, esse filme de 10 minutinhos acerta no alvo ao resgatar a memória de uma rica trajetória e transformá-la em registro.

Selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, Gilson de Souza – Na Corda Bamba nos leva para um passeio por meio de uma realidade subjetiva, na qual sensações e pensamentos conflitantes se tornam expressões das mais diversas emoções.  

 

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30/01/2026

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Critica do filme: 'Para não ser levada por qualquer ventania' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Impressionante como, em apenas sete minutos, uma obra consegue ser tão profunda e criativa ao mesmo tempo. Articulando as diversas potencialidades da linguagem, tendo apenas ligações telefônicas feitas a um alguém especial que já se foi e de uma série de cenários sob um olhar distante e aleatório, o curta-metragem Para não ser levada por qualquer ventania apresenta o luto como tema principal de uma narrativa que se sente e convoca reflexões.

Selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, o projeto escrito e dirigido por Eleonora Loner utiliza poucos recursos e, ainda assim, consegue alcançar o brilhantismo de uma mensagem por meio de uma ideia simples e eficiente. Filmagens caseiras - provavelmente feitas por câmeras de celulares – tornam-se nossos elos com os mistérios de algumas conversas que, a princípio, não entendemos direito sobre o que se trata, mas que vamos entendendo aos poucos seu sentido.

A necessidade do afeto, o desejo de não perder as lembranças, as aflições da ausência, e até mesmo o silêncio que se torna ensurdecedor são pontos chaves para decifrarmos as mensagens que a obra produz chegando diretamente ao conjunto de reações que o luto provoca. Esse sentimento de vazio logo vira uma dedicatória poética, avançando por um percurso de ressignificação.

Ao dividir com o público essa história, de maneira corajosa, Loner expõe suas dores, desejos e tormentos, através também do vazio que ficou. Nessa ebulição do silêncio - um ponto marcante na obra -, todos nós ganhamos, de alguma forma, razões para pensar sobre nossas próprias histórias e nossos próprios silêncios deixados por alguém que já se foi.  

  

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Crítica do filme: 'Faísca' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Por meio de imagens marcantes e de uma narração potente, o curta-metragem Faísca, selecionado para a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes é um filme que gera impacto logo nos primeiros minutos. A obra nos leva para conhecer a aldeia marrecas, ligada a um povo indígena, a partir do notório desaparecimento de animais conhecidos da região. Pelas terras avermelhadas desse lugar, a narrativa nos guia para um tour que atravessa gerações de mulheres imersas em uma cultura rica, que precisa vencer os obstáculos que se impõem.  

Pelos desabafos e paralelos entre o desaparecimento de onças através e histórias familiares dessa comunidade do povo Kariri, em Quiatius, distrito de Lavras da Mangabeira, no Ceará, percorremos reflexões que envolvem ensinamentos familiares, degradação ambiental e o vínculo afetivo de pertencimento. Nessa espécie de filme-denúncia, a conexão dessas muitas realidades constrói paralelos poderosos como uma força resistente contra a ação nociva e desenfreada do homem.

O título, Faísca, ganha inúmeros significados. Atravessa os rituais dos ancestrais, a vivência na caatinga, a sabedoria transmitida de mãe para filha, os aprendizados e a validação da palavra identidade, além da força que surge para enfrentar a pressão de empreendimentos em território indígena. Dessa ideia, nasce um desabafo potente, que ganha forma poética pela condução objetiva e simbólica da narrativa.

Dirigido por Barbara Matias Kariri, Faísca já havia sido exibido no Festival de Brasília do ano passado e, nesse início de 2026 ganhou espaço na programação da Mostra Praça, em Tiradentes. Um lugar onde as mensagens da obra ganharam mais força, em um encontro coletivo sob o céu mineiro.

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Crítica do filme: 'Hacker Leonilia' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Selecionado para a 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, o engenhoso trabalho do brasiliense Gustavo Fontele Dourado, Hacker Leonilia, explora a ficção cientifica entrelaçada à aventura por meio de técnicas de animação e da extensão do mundo real para o digital - seja pela identidade ou mesmo pela interatividade. Um projeto criativo, com ótimo desenvolvimento de sua protagonista: uma idosa hacker que busca na força das memórias uma luta contra o universo que está presa. A obra é baseada, em parte, na história da avó de Gustavo, Leonilia Ferreira.

Os caminhos para esse roteiro não devem ter sido fáceis, já que o que se apresenta em tela é uma sofisticada estrada para se chegar na autorreinvenção através de uma realidade virtual. Há um simbolismo importante sobre a vida eterna, do embate entre meio ambiente e tecnologia, assim como dos laços que se distanciam por questões ligadas ao passado. Da utopia de um mundo ideal à distopia que expõe sinais evidentes de alerta, vamos entendendo diversas razões humanas como o estopim de uma mudança de rota.

Para recriar toda essa ideia, a materialização parece ser feita, em partes, através da ilusão do movimento em fotografias quadro a quadro (stop-motion) combinada a técnicas em 2D (desenhos sequenciais). Essa junção imprime um ritmo bastante corrido, fazendo com que algumas pontas fiquem soltas - algo que não influencia o entendimento - por isso a atenção do público é necessária. Festas realizadas por meio de lives, andróides que assumem formas humanas, elementos vão sendo inseridos para compor um cenário extenso de um metaverso e também toda a denúncia quando esse universo se revela nocivo.

Hacker Leonilia integrou a excelente seleção de curtas-metragens brasileiros que foram exibidos na principal praça da cidade de Tiradentes (MG), localizada no Largo das Forras. Um filme que impressiona pela sagacidade em transmitir suas reflexões sobre a vida, inseridas em um debate atual sobre tecnologia.

 

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Crítica do filme: 'Lomba do Pinheiro' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Buscando a identidade coletiva através de uma narrativa híbrida, com elementos sobrenaturais, que explora um mito através de uma das primeiras áreas indígenas do sul do nosso país, o curta-metragem Lomba do Pinheiro, dirigido por Iuri Minfroy, registra uma imersão cultural ligada à ancestralidade em um recorte que se propõe amplo, articulado por diálogos sobre o cotidiano.

Com apenas 19 minutos, o projeto rompe as fronteiras entre a ficção e o documentário ao apresentar o cotidiano de integrantes da aldeia kaingang Fag Nhin, situada na zona leste de Porto Alegre, por meio de suas rotinas. Do artesanato ao treinamento de um time de futebol feminino, passando pela inserção da tecnologia na cultura indígena e pelo desejo de documentar a história da aldeia, aos poucos vamos sendo conquistados por essa narrativa inventiva, que chega em ótimas reflexões.

O curioso se mostra presente através de depoimentos que nos situam diante de relatos sobre aparições de um possível lobisomem, que já fora visto por diversas pessoas na região. Essa junção do sobrenatural ao concreto dos desafios de um povo que enfrenta enormes obstáculos para manter sua cultura viva se insere no mar de possibilidades que a linguagem cinematográfica oferece – e aqui é amplamente oferecida pela narrativa.

Lomba do Pinheiro foi selecionado para o recorte Panorama da Mostra de Cinema de Tiradentes 2026. Um filme que dribla algumas fragilidades técnicas através da força de uma narrativa.

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Crítica do filme: 'Tião Personal Dancer' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


De uma forte expressão cultural ligada à celebração coletiva às surpresas da intensidade da atração, em Tião Personal Dancer somos convidados a acompanhar um jogo de sedução de duas almas solitárias que tem a pista de dança como cenário. Dirigido por Aristótelis Tothi, o curta-metragem foi uma das obras selecionadas para o recorte Panorama da Mostra de Cinema de Tiradentes 2026.

Reginaldo (Adolfo Moura) faz parte de um de amigos que sempre que podem estão pelas casas de forró espalhadas por Goiânia. Numa sexta-feira dessas, a atenção de Reginaldo se fixa em Tião (Otto Caetano), um professor de dança profissional. Ao longo da noite, de um evento a outro, algo parece se conectar para esses dois universos.

Ao longo de 23 minutos e embalada pela batida do forró, a narrativa progride de forma envolvente ao transformar um momento de lazer em uma oportunidade de encontro. Buscando a todo instante uma curta experiência de impacto, focada em dois personagens, com construções sensoriais marcantes – a trilha sonora, o silêncio, cores, luz, enquadramentos – a obra abre seus leques de reflexões confiando mais na sutileza das cenas do que em uma maior imposição.

O roteiro posiciona seu discurso para o interpretar o que acontece através da atração, um caminho complexo e cheio de estradas, mas que aqui encontra equilíbrio ao enfatizar as sugestões em vez de romper camadas de explicação. Explorando muitos elementos cinematográficos de forma simples - e também inventiva -, Tião Personal Dancer camufla suas intensidades deixando caminho aberto para as poesias da atração.   

 

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Crítica do filme: 'Nosso Amigo Romário' [Mostra de Cinema de Tiradentes 2026]


Em um dos dias de Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, nos encontramos com um filme repleto de simbolismos, que percorre os caminhos curiosos do inusitado para atravessar razões existenciais de grande valor. Nosso Amigo Romário, escrito e dirigido pelo cineasta mineiro Antonio Pedroni, valoriza a atmosfera ligada às emoções, construindo uma experiência emocional marcante que convida para lindas reflexões e gerando muitas lições.

No interior de Minas Gerais, no ano da copa do mundo de futebol masculino de 1994 – aquela mesma onde o Brasil venceu – conhecemos Francisco (Carlos Francisco), um senhor de idade que vive em uma casa humilde junto de sua filha Renata (Paula Amorinni) e seu neto Pedrinho (Daniel Pedro). Um dia, ele se depara com uma fato peculiar: encontra um alienígena a poucos metros de casa e passa o restante dos dias criando um forte vínculo de amizade com ele.

Selecionado para a Mostra Praça, no lindo Cine Petrobrás, a céu aberto, esse é um filme que nos instiga a ver o mundo através de seu protagonista. Utilizando vetores de afeto para provocar interessantes diálogos, a narrativa nos conduz para questões existenciais – sobretudo à oposição conceitual entre a vida e a morte – e também a beleza de simples gestos, o voltar a ser criança e as lembranças que despertam.

A compaixão logo se mostra presente, sendo um alicerce acoplado na ingenuidade. Nada é forçado, tudo é construído com a força da beleza das relações, da empatia, da dinâmica familiar. Em 18 minutos, sem muitas inovações quando pensamos em possibilidades para a linguagem cinematográfica, vemos uma obra pés no chão mas que levita para as possibilidades através de uma atuação emocionante de Carlos Francisco. Lindo filme.

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10/12/2025

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Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]


Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda, com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra.

Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.  

A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuidade identitária em meio ao urbano e capitalista, sempre pronto para aprontar alguma manobra que ferem essas comunidades. A narrativa, em seus 15 minutos, preenche a tela com passagens marcantes que atravessam esses conflitos, sem deixar de revelar também a beleza dos ensinamentos e a riqueza estética e espiritual que, mesmo com a pressão e insensibilidade capitalista, nunca perderá seu valor.

 

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Crítica do filme: 'A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero' [Fest Aruanda 2025]


Por que estamos vivos? Existe algum momento para se entregar? Lançando a todo instante perguntas existenciais e desabafos em formas de reflexões, hipnotizando o público com palavras carregadas de múltiplos sentidos, o curta-metragem A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero, adaptado de um conto de Bruno Ribeiro, apresenta de maneira criativa suas fascinantes estranhezas e abre um convite para que os espectadores reflitam sobre a vida e a morte.

Um cliente (Luiz Carlos Vasconcelos) divaga sobre a antítese mais famosa de todo ciclo vital. Logo, se junta a ele uma garçonete (Ingrid Trigueiro), e assim os dois conversam sobre questões da existência após uma mosca se entregar à morte num prato de bife com batata frita - episódio que chama a atenção de um dos personagens, esse também narrador, que quebra a quarta parede nos envolvendo em pensamentos antes distantes, mas que ganham vida quando o marasmo da existência desperta a necessidade de contemplações.

Um cenário, uma fotografia deslumbrante – que provoca uma experiência expressiva, sem distrações - e palavras que envolvem. Com muito pouco, mas com uma criatividade cinematográfica que amplia todo o contexto, chegamos rapidamente às indagações provocadas pelas ações da natureza, pela sobrevivência e como tudo isso influencia o nosso redor. Escrito e dirigido por Rodolpho de Barros, A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero é uma pequena obra-prima que vai causar impacto onde quer que seja exibido.

É impressionante como esse projeto fica na gente, muito além dos seus curtos 14 minutos de projeção. Com várias portas que se abrem para pensarmos sobre o que vemos, o que salta aos olhos são aqueles momentos de reflexões quando estamos sozinhos - pensamentos distantes que só aparecem quando acessamos o inconsciente, nos levando a prender nosso foco para questões que afligem e nos fazem considerar sobre o real peso do mundo. Filmaço!

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Crítica do filme: 'Vulkan' [Fest Aruanda 2025]


Fugindo de qualquer zona de conforto e se arriscando no sensorial, a co-produção Brasil e França, Vulkan, é um filme quase sem falas, que repousa suas contemplações na sensualidade e da erupção do prazer questionando sem pressa as relações convidando o público a sentir e interpretar, longe de qualquer estrutura careta de um roteiro previsível. Dirigido por Julia Zakia, esse interessante curta-metragem foi selecionado para a mostra competitiva nacional do Fest Aruanda 2025.

Três personagens e a filosofia relacional do poliamor são as peças centrais desse projeto que celebra o sentimento mais poderoso que existe. Da leveza da felicidade às intensidades da intimidade e aos momentos de reflexão, somos conduzidos para refletir sobre essa dinâmica afetiva. Em cena, as atrizes brasileiras Bruna Linzmeyer e Georgette Fadel se juntam à francesa Mata Gabin, compondo um retrato poético sobre o que transborda na imprevisibilidade e no desejo ardente.

Há uma certa poesia que paira sobre a atmosfera desse projeto, que apresenta uma estética apurada, fruto de uma fotografia que busca um olhar observador bem próximo das interações dos personagens, criando um forte vínculo emocional - também em relação ao lugar. Essa proximidade é a força de uma narrativa que se reflete através de imagens e movimentos, ganhando sentido conforme o filme avança para as intimidades, transformando-se em um registro experimental, com seus méritos, que envolve.

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09/12/2025

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'Boi no Mato' e 'Teatro em Jampa Vive' [Fest Aruanda 2025]


Boi no Mato

Apresentando uma breve e, em certos pontos, eficiente ‘Sinfonia do Vaqueiro’, o curta-metragem Boi no Mato, de Ana Calline, busca uma atmosfera que transita entre sensações e cotidiano, dentro de um sentido cultural que vai da coragem à vida selvagem enraizada na cultura sertaneja. Logo, solta na tela a identidade e resistência se juntando ao pertencimento, ligados ao vínculo afetivo e às tradições de toda uma região.

A narrativa tenta estabelecer elos para prender a atenção do espectador; as imagens geram impacto, embora muitas vezes faltem algumas explicações - certos porquês - especialmente para quem não conhece sobre o tema abordado. Mesmo com esse detalhe que fragiliza a narrativa, o alcance do entorno progride, deixando margem para reflexões sobre a força da dimensão cultural, da memória e da resistência.

 


Teatro em Jampa Vive

Com mensagens diretas e uma comunicação objetiva, de finalidade essencialmente promocional, o curta-metragem Teatro em Jampa Vive, de Kelly Freire Moreira, se limita ao formato de vídeo institucional ao colocar em evidência artistas e suas trajetórias pelos palcos de João Pessoa, na Paraíba. Embora cumpra o papel de comunicar e registrar a memória artística de toda região – algo válido e importante -, o filme deixa de explorar as experimentações cinematográficas que poderiam enriquecer o projeto.

Sanzia Pessoa, Buda Lira, Sôia Lira, Vittor Blam, Fabíola Ataíde, Raymon Farias são alguns nomes que entregam depoimentos ligados à memória da cultura pessoense. Essa riqueza cultural é sentida por meio das falas desses artistas. A questão é que, nesta obra, não se fura a bolha das fragilidades narrativas que se apresentam a todo instante, com um comprometimento excessivo com uma linguagem meramente funcional. Liga-se a câmera, preenche com depoimentos – com pouca ilustração do que é dito – junta-se tudo e faz-se um filme. Muito pouco, não é?

 

 

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Crítica do filme: 'Jacu' [Fest Aruanda 2025]


Em um exercício satisfatório – não diria inventivo – que alcança ritmo e prende a atenção, o curta-metragem Jacu, dirigido por Ramon Batista, nos convida a conhecer mais sobre a história de um fenômeno social e cultural por meio de um representante marcante de um nordeste profundo. Selecionado para a mostra competitiva ‘Sob o Céu Nordestino’ do Fest Aruanda 2025, esse é um trabalho que foge da narrativa tradicional priorizando uma experiência imersiva, construída a partir de imagens evocativas.

Com a câmera ligada em lugares que mostram marcas do passado - muitas vezes de forma estática, mas ainda assim encontrando movimento - e criando simbolismos e tensões através do sensorial, o projeto costura a maneira de contar sua história através de uma cirúrgica narração que acompanha toda a projeção. Assim, percebemos uma criatividade evidente na forma como o filme se comunica com o espectador, com elementos técnicos e estéticos em destaque.   

Partindo de uma casa histórica envelhecida pelo tempo como cenário, construindo um paralelo entre o antes e depois, chegamos à figura controversa do cangaceiro paraibano Chico Pereira, que colaborou com o grupo liderado por Lampião e viveu na fazenda Jacu – que dá nome ao filme.

Não se prendendo a essa figura emblemática para toda uma região, a obra abre seus leques de contextualização, permitindo reflexões sobre questões sociais e políticas, que ganham espaço nas entrelinhas, se tornando, ao longo dos seus 12 minutos, um importante registro sobre o sertão nordestino.

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08/12/2025

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Crítica do filme: 'Colmeia' [Fest Aruanda 2025]


Um dos mais interessantes curtas-metragens exibidos no Festa Aruanda 2025, selecionado para a mostra competitiva ‘Sob o Céu Nordestino’, o projeto Colmeia nos leva para um show de imagens e seus paralelos que alcançam um mar de reflexões sobre a relação entre a natureza e os seres humanos. Tudo funciona em perfeita harmonia, deixando o público de portas abertas para suas próprias interpretações.

Nessa obra, impressiona a qualidade criativa para juntar elementos em cena que conseguem virar um turbo de pensamentos por meio dos contrapontos que estabelece. O trabalho, o cotidiano, as adaptações de sobrevivência – e até mesmo respingos da vida e da morte - são apresentados com diversos paralelos, numa jornada sensorial em que o som desempenha papel importante, conduzindo o espectador para o pensar a vida e o pulsar da existência.  

Além disso, o filme consegue encontrar elementos criativos dentro da própria linguagem – como um travelling acelerado cujos movimentos se acoplam - criando sensações de exaustão do cotidiano, como a pressa; ou de organização, como nas cenas com as abelhas; e até mesmo para comprimir percepções temporais, culminando em um efeito visual deslumbrante.  

Colmeia, dirigido por Tatiane de Oliveira, é uma grande análise existencialista – da liberdade à angústia e à condição humana - que abre seus leques para revelar igualdades e diferenças nas múltiplas relações. Filosófico e sociológico, esse filme faz nossa mente pensar bastante nos curtos 10 minutinhos de projeção. Maravilhoso!

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07/12/2025

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Crítica do filme: 'No Compasso do Coração' [Fest Aruanda 2025]


Carregado muito mais pela tentativa de provocar emoções do que por um roteiro estruturado de forma equilibrada, o curta-metragem No Compasso do Coração nos leva até um recorte imersivo - e muitas vezes subjetivo - a partir de um personagem autista que encontra, nos movimentos corporais através da dança, aquilo que o liberta. Pena que a narrativa não encontra elos para uma construção coesa e articulação consistente dos acontecimentos, deixando o público refém de breves respiros traduzidos em mensagens importantes.

Com uma relação próxima com a mãe, Olivio tem um verdadeiro fascínio pela expressão artística do corpo em movimento: a dança, onde encontra um oásis para expressar, através de gestos, sentimentos conflitantes. Em meio à pandemia, uma importante apresentação é cancelada, e o protagonista precisa lidar com a ansiedade. Juntando as peças desse momento delicado, ele não desiste de retomar o contato com o pulsar da vida.

Dentro dessa perspectiva sensorial, cheia de percepções individuais, a relação familiar e a arteterapia ganham espaço – e encontram, aí, caminhos para que mensagens sejam transmitidas -, mas sempre com uma necessidade de inserir o público por meio de um leque limitado de perspectivas, fato que tira o olhar observador mais amplo sobre um contexto que não se apresenta de forma envolvente.  

Do isolamento às reconexões, No Compasso do Coração, selecionado para a mostra Sob o Céu Nordetino do Fest Aruanda 2025, é um caso clássico de ‘corrida ao clímax’, um calcanhar de aquiles evidente que compromete o impacto emocional, mesmo diante da boa intenção das reflexões que conseguimos alcançar.  

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04/12/2025

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Crítica do filme: 'Index' [Fest Aruanda 2025]


O cinema pode ser um caminho para expressar a arte e remeter questões cravadas pelo tempo, onde a beleza precisa dar as mãos ao conteúdo. No curta-metragem Index, do artista visual João Lobo, a dinâmica proposta é refletir sobre o tempo por meio de inscrições rupestres de um sítio arqueológico localizado na cidade de Ingá, município paraibano, limitando o público a um papel de observador. Mas será que isso basta para entendermos a obra por completo?

Em um tiro curto de 9 minutos – com um ar psicodélico -, a imersão excessiva sobre o que não é explicado salta aos olhos: pelos céus, pela terra, colocando também a natureza em destaque. Vamos sendo conduzidos para uma viagem repleta de beleza, onde se fixam ideias isoladas em uma narrativa intraduzível, na qual o desassossego se torna constante pelas lacunas não preenchidas. Uma pena.

Parece ser um filme feito para si mesmo, sem pretensões de ampliar reflexões ou mesmo debates sobre o tour pelas belezas que se apresentam. Forma e o conteúdo não conversam; distanciam-se. Essa abordagem sensorial vira um experimento excessivamente entediante, conseguindo a proeza de, em 9 minutos, dispersar os espectadores.

Cinema é imagem e movimento, mas também é conteúdo que precisa ser apresentado sem a necessidade de explicações – ou, pelo menos, contendo dicas - sobre o que é sua obra. Um dos filmes de abertura do Fest Aruanda 2025, Index necessita de complementos de pesquisa para ser minimamente compreendido e, assim, perde toda a graça. É frustrante não aprendermos mais pela própria tela do cinema.  

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30/11/2025

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'Vento Sussurrante' e 'O Mistério dos Olhos de Luzia' [Comunicurtas 2025]


Vento Sussurrante

De um convite inesperado ao sobrenatural avançando na realidade, o curta-metragem Vento Sussurrante se arrisca em uma narrativa na qual declamações se transformam em diálogos, e o romance ganha tons de terror e suspense. A história apresenta um sedutor vampiro highlander que busca apresentar a eternidade a um novo amor. Excessivamente sentimental, se enrola no próprio discurso mas tem o mérito de se arriscar.

Há uma questão que precisamos comentar: existe uma fragilidade evidente na narrativa – a maneira como é contada essa história. É difícil entender para além da ingenuidade da sedução proposta, mesmo com uma moldura reconhecível e elementos narrativos específicos, como o sobrenatural. Vale o exercício – e coragem – de se jogar na proposta, mas é uma pena que a obra não se arriscque nas infinitas possibilidades que o cinema pode oferecer.   

 


O Mistério dos Olhos de Luzia

Com gravações em Matinhas (PB), chegamos em um dos primeiros dias de Mostra Competitivas do Comunicurtas 2025 até um curta-metragem que busca trazer reflexões existenciais e morais a partir de uma lenda – e também de histórias reais - que nasceram através de tragédias contra mulheres.

Com uma cronologia um pouco espaçada – da sensibilidade ao confronto do encanto – percorremos uma perspectiva que expõe uma relação opressiva, fruto de um casamento forçado que não termina bem. A violência contra a mulher atravessa os temas propostos, conduzindo a reflexões importantes sobre os diversos tipos de violência que, infelizmente, acontecem tanto na realidade. O roteiro tem uma virada que explora o sombrio associado ao sobrenatural (algo meio gótico) levando a um final emblemático, mesmo deixando pelo caminho deslizes narrativos.  

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29/11/2025

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Crítica do filme: 'Samba Infinito' [Comunicurtas 2025]


Uma vez por ano, milhares de pessoas vão às ruas para festejar uma das festas populares mais famosas do mundo: o carnaval. Esse prazer estonteante dos foliões, que mistura ritmos e culturas, dá margem para boas histórias - exatamente como é o caso de Samba Infinito, filme de Leornardo Martinelli exibido pela primeira no Festival de Cannes e selecionado para a mostra competitiva do Comunicurtas 2025.

Da folia ao inusitado, acompanhamos um gari que, durante seu trabalho já no fim das festas de carnaval, encontra um jovem garoto, logo o ajudando a procurar alguém próximo. Percorrendo as ruas de uma enorme cidade - que poderia ser qualquer uma de nosso país -, no final desse encontro algo que remete ao passado se coloca diretamente diante dele.

Transições belíssimas nos presenteiam com a fantasia e o musical numa atmosfera contagiante, traçando paralelos com a folia e um sentimentalismo profundo que desembarca em relações passadas, mas nunca perdidas pelo tempo. E essa palavrinha – tempo - aqui ganha fortes alicerces e se torna parte dos caminhos interpretativos que podem ser alcançados.

Com uma composição visual deslumbrante, que influencia sensações e significados - das lembranças do último abraço à certeza do fim atravessando o desmonte do carnaval -, esse curta-metragem ainda consegue associar formas culturais ao modo fascinante que interpreta a importância da leitura e os contornos do olhar individual para lugares repletos de representações.

Com Camila Pitanga e Gilberto Gil em participações especiais – algo que só engrandece a obra – , Samba Infinito é um daqueles projetos cheios de caminhos imaginativos, até mesmo para alcançarmos as reflexões que propõe.

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Crítica do filme: 'Ninguém (mais) Verá' [Comunicurtas 2025]


Um grito ácido e bem-humorado. Selecionado para a Mostra Brasil do Comunicurtas 2025, o documentário Ninguém (mais) Verá , de Fabiano Raposo, é um assertivo e poderoso projeto que não hesita em colocar o dedo em feridas morais, políticas e sociais, mesclando imagens do ontem e da atual Campina Grande. Direto e provocativo, exaltando leveza e o bom humor, logo percebemos se tratar de um registro necessário e acachapante, que utiliza o cinema como um poderoso megafone.

Impressiona como tudo que é visto na tela funciona com certo impacto, impulsionado por uma montagem que direciona de forma elegante a progressão narrativa, chegando rapidamente na percepção dos espectadores. Os recursos e infinidades que o cinema oferece ganham criatividade e ironia, com mensagens - e mais mensagens - sendo vistas por meio de uma locomotiva de relatos críticos sociais e da exposição de polêmicas estruturas de poder.

Entre esses olhares próximos e constantes, nos deparamos com imagens atuais da cidade e com registros de arquivo de obras do repórter fotográfico e cineasta paraibano Machado Bittencourt - algo que enriquece ainda mais a obra.

O projeto passeia por muitos assuntos sem perder o ritmo envolvente; busca provocar o pensar, instigar o pensamento crítico em olhares próximos e distantes sobre questões que atravessam a cidade. Com uma narração costurando a narrativa e imagens direcionando denúncias e chacoalham as reflexões, esse filme-denuncia se transforma em um dos grandes acontecimentos do festival Comunicurtas.

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