28/11/2025

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Crítica do filme: 'Meu Superman' [Comunicurtas 2025]


No segundo dia de exibições das mostras competitivas do Comunicurtas 2025, acompanhamos uma história que envolve família e escolhas. Diretamente de São José do Rio Preto (SP), o curta-metragem Meu Superman, dirigido por Alexandre Estevanato, nos mostra um retrato que se estende pelo tempo, explorando a relação familiar entre pai e filho e as escolhas tomadas quando a necessidade do cuidar se mostra presente.

Um homem na casa dos seu 40 anos, que sempre teve no pai um ponte de apoio em determinada fase da vida, se vê precisando cuidar dele, já que o mesmo se encontra com os primeiros indícios de uma doença neurodegenerativa progressiva. Conforme o tempo passa, trazendo situações às quais precisa se habituar, lembranças de outros tempos passam a compor sua trajetória até aquele presente – e alcançando também o futuro.

Trazendo uma doçura às emoções conflitantes, o projeto aposta na busca dos olhares para as dificuldades do outro. No entanto, a frágil narrativa se atropela em um sentimentalismo gritante – buscando reter a atenção pela intensidade – recorrendo a inserções que funcionam como uma espécie de pausas dramáticas, preparando o expectador para alguma conclusão que acaba se perdendo dentro do discurso do roteiro.

Meu Superman, que conta a presença do experiente ator e cantor mineiro Moacyr Franco, transmite mensagens que giram em torno da perda da autonomia. Contudo, ao tentar suavizar a dor por meio da adição do lúdico – ligado à imaginação – o filme despenca para uma introspecção do espírito se tornando previsível e estagnado, perdendo frescor.

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27/11/2025

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Crítica do filme: 'Serenata do Adeus' [Comunicurtas 2025]


No segundo dia de exibições das mostras competitivas do Comunicurtas 2025, nos foi apresentado um curta-metragem bem eficiente na sua proposta. Com uma linguagem pop de fácil identificação, imerso em uma narrativa ágil e comunicativa, Serenata do Adeus, dirigido e roteirizado por Marcio Mehiel, transita pelo caos dos momentos difíceis formando um retrato importante sobre o amadurecimento.

Ambientado na década de 1980, o filme abre espaço para um ar ‘coming of age’ ao abordar temas importantes a partir do olhar de uma turma de amigos que vivencia – juntos e separadamente - uma série de situações dolorosas durante um certo período de tempo com o foco no final do ano. Em poucos minutos, o roteiro transborda fatos marcantes que dialogam com diferentes formas de violência, conflitos internos, questões de sexualidade, gravidez, dores e as marcas que permancem para sempre.

É impressionante como a forma de contar essa história gera uma rápida identificação com públicos de muitas idades. Explorando camadas profundas do conflito interno – culpa, insegurança, medo - a vontade de fugir e a dor desse ir embora marca uma construção poética densamente representativa, nos levando pelas gangorras emocionais.

Os ótimos personagens - em uma harmonia evidente – constroem múltiplos olhares para os desenrolares da trama, fruto também de uma direção competente que se apoia em um ritmo intenso, encontrando a angústia e a aflição, mas nunca perdendo o tom crítico de instiga o refletir sobre todos os seus temas.  

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Crítica do filme: 'Cinema sem Teto' [Comunicurtas 2025]


Por que os lugares que tanto amamos já não existem mais? Puxando essa pergunta para o sempre conturbado circuito exibidor brasileiro, o curta-metragem paulista Cinema sem Teto, dirigido por Denise Szabo, busca colocar para debate a vida e a morte das salas de cinema – com o foco nos cinemas de rua da cidade de São Caetano. Exibido no primeiro dia da mostra competitiva do Comunicurtas 2025, com uma narração intimista, revelando sensações e pensamentos ligados a outros períodos de maior entusiasmo por esses lugares, o projeto aponta uma direção para reflexão, mas sua narrativa não atinge nem a superfície do tema, deixando de enriquecer debates sobre a questão.

A ideia é boa. Com duas cadeiras sendo colocadas próximas de onde funcionaram salas de cinema que marcaram gerações, vamos acompanhando um tour por experiências pessoais que tentam circular entre as incertezas e o ato de resistir. Esse assunto é muito amplo, e os porquês acabam se diluindo em forma de desabafo, mas sem o recheio necessário para alcançar questões mais profundas – colocar o dedo na ferida mesmo.

Nessa mistura entre registro e entretenimento – aqui mais próxima da camada de envolvimento emocional – alcançamos nossas primeiras memórias numa sala de cinema, talvez um paralelo que a obra queria atingir. Contudo, a problemática em torno desses fechamentos e da modernização da tecnologia audiovisual – especialmente a chegada dos streamings –,  assim como os modelos de negócios, acabam ficando escanteados, deixando complementos para interpretações individuais de cada um de nós.  

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26/11/2025

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Crítica do filme: 'A Menina que Amava Gatos' [Comunicurtas 2025]


Voltando a assuntos ligados ao período logo pós-pandêmico para trazer um tema associado a animais abandonados, no primeiro set de curtas-metragens que assistimos no Comunicurtas 2025 ficamos de frente com um filme de lindas mensagens, mas de uma ingenuidade gigante ao tratá-los em uma narrativa cinematográfica. Dirigido por Maria Tereza Azevedo, o projeto busca alcançar – sem muitas pretensões - uma mistura de possibilidades da linguagem cinematográfica com prosa poética, mas sem a habilidade de fazer isso acontecer na tela.

Utilizando a técnica de animação para mostrar o drama e as indignações de uma jovem que ama os animais e se depara com a morte de alguns deles – envenenados por uma pessoa inicialmente misteriosa -  A Menina que Amava Gatos, filme oriundo de Aparecida – uma das mais jovens cidades brasileiras (31 anos), localizada no sertão da Paraíba, apresenta uma estrutura dramática que não chega na tensão desejada, buscando refúgio em um fluxo sensorial maçante.

Pouco fluido, com transições entre cenas de forma abruptas e um estilo de montagem que atrapalha qualquer ritmo narrativo, o filme não alcança qualquer possibilidade eficiente na questão da linguagem – ainda carecendo de precisão nos infinitos recursos que o cinema pode oferecer. Sei que é meio chato ficar apontando questões e questões em um filme com mensagens importantes, mas a experiência de assistir a um filme nos leva a muitos caminhos para interpretá-los. Você pode assistir e gostar - e essa é justamente a graça do cinema.

A Menina que Amava Gatos não chega a ser um desperdício de um tema que reforça os números alarmantes de abandonos de animais no pós-pandemia, mas o resultado é uma história desequilibrada, sustentada por um esqueleto narrativo insuficiente.  

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Crítica do filme: 'O Colecionador de Cheiros de Nucas Femininas' [Comunicurtas 2025]


Percorrendo um tema peculiar que envolve obsessão e psicologia, abrimos os trabalhos no Comunicurtas 2025 assistindo a um filme bem interessante, que utiliza a criatividade a seu favor para evidenciar sua singularidade. Ao descortinar a linguagem cinematográfica em uma narrativa dinâmica, explorando os pontos de vistas que se entrelaçam em torno de um ‘serial nucas’, esse projeto paraibano, dirigido por Natalia Damião e Ana Clara Vidal de Negreiros é um convite ao despertar de inquietações que rapidamente se tornam reflexões.

Um viciado em nucas femininas – isso mesmo que você leu – vem colecionando odores (quase 800) ao longo de anos, isolando-se em uma bolha de dedicação total à sua coleção - pra lá de estranha. A partir de alguns pontos de vistas que se encontram em uma espécie de investigação sobre a questão - da fantasia à psicologia, passando pela sociologia, sexologia e a visão popular - chegamos a um recorte inusitado sobre o ser humano e o distanciamento social.

Com um previsível enquadramento de nucas inserido em sua unidade visual – algo que não é excessivo, mas tem seu momento – e que cai como uma luva à imersão proposta no caminho do personagem, percebemos também uma exploração interessante dos caminhos de ilusão do movimento a partir de imagens comunicando ideias, no caso, representações de pensamentos. Tudo isso deixa a narrativa pronta pra abraçar a delicadeza e estilo em seu modo de contar essa história.   

Exibido no Curta Cinema 2025 – onde, inclusive, levou um prêmio – e já chamado a atenção em qualquer programação pelo seu curioso título, Colecionador de Cheiros de Nucas Femininas apresenta um mergulho profundo da psique humana – da desordem emocional às formas de interpretação do desejo e do inconsciente.  

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25/11/2025

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Crítica do filme: 'Dona Onete - Meu Coração Neste Pedacinho Aqui' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]


Movido por uma figura central de personalidade marcante - que se impõe sem esforço, dona de um carisma raro e um salve à Amazônia - chegamos com grande expectativa para a última sessão da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso. Lá, acompanhamos a trajetória e a carreira de uma artista paraense que conquista todos que a conhecem. Dirigido por Mini Kerti, Dona Onete - Meu Coração Neste Pedacinho Aqui revisita fatos importantes da vida de uma estrela musical brasileira – e, se você nunca ouviu falar, deveria.

Desde os tempos de professora, passando pelos momentos como sindicalista e chegando em um casamento cheio de amarras - para depois se libertar e conquistar o mundo fazendo o que ama - Ionete da Silveira Gama, ou, como todos a conhecem, Dona Onete, nascida no interior do Estado mais populoso da região norte de nosso país, é uma joia rara da nossa cultura.

Com tanta riqueza de detalhes sobre a artista de 86 anos – que só alcançou o reconhecimento após os 60 – a narrativa opta pela própria personagem contando sua história, com a ajuda de personalidades (Emicida, Dira Paes, Gaby Amarantos) e amigos próximos que a tiveram como referência em algum momento da vida.

Composto por uma montagem eficiente que mistura depoimentos a empolgantes números musicais – com canções que também ajudam a contar essa história - o documentário consegue a proeza de nos transportar para reflexões sobre cultura e causas sociais de forma acachapante. Rimos e nos emocionamos em fração de segundos: um tempero de emoções que conquista e, ao mesmo tempo, transmite ensinamentos importantes.

Com mais de 300 composições - do magnetismo à espontaneidade, passando pelas influências indígenas e caribenhas pulsando em sua arte, um som gostoso de ouvir e cheio de recados - a eterna Rainha do Carimbó é um rico livro aberto que podemos agora acessar por meio desse poderoso e envolvente caldo cultural. Como é bom conhecer as lindas histórias ligadas à cultura do nosso país!

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Crítica do filme: 'Kaira e o Temporal' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]


Rotinas controladas, forças rebeldes, última esperança. Se pensarmos rapidamente, parece até que estamos falando de Star Wars, né? Mas garanto que não: trata-se de um curta-metragem brasileiro repleto de simbolismos e criatividade. Exibido no penúltimo dia da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso, Kaira e o Temporal, obra cearense dirigida por Wagner Nogueira Mendes, nos surpreende a todo momento - inclusive com a inserção de uma animação dentro de sua distopia, que funciona como a cereja do bolo ao criar paralelos com temas atuais e relevantes.  

Na inventiva trama, acompanhamos uma jovem menina com o poder de usar o tempo a seu favor para resgatar memórias, em um futuro onde uma metrópole opressiva controla as ações e os movimentos da população que restou. Buscando entender esse mundo cheio de portas fechadas, ela encontra no passado uma forma de enxergar o futuro. 

E, olha, esse ótimo roteiro não poderia encontrar uma melhor maneira de contar essa história. Nessa narrativa repleta de referências culturais – incluindo algumas citações em versos rimados e métricos (cordel) – a animação complementar faz muito sentido, assim como os personagens que buscam soluções carregados de significados, levando o público nessa jornada inquietante para conhecer a história de uma das cidades brasileiras de identidade cultural mais marcante.

Sempre muito bom se deparar com novos cineastas trazendo um frescor criativo para a linguagem, sem medo de arriscar e conduzindo o público para um registro importante, social, efetivo, que pulsa em nossos corações. Adorei! Um dos melhores filmes de Gostoso neste ano.

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24/11/2025

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Crítica do filme: 'Quem se Move' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]


O silêncio e as percepções do vazio quando a luz no fim do túnel parece distante. No penúltimo dia da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso, fui até a Sala Petrobrás - um lugar maravilhoso para assistir a um filme - e lá me deparei com um interessante curta-metragem paulista que me fez refletir sobre seus temas durante todo o dia.

Abordando algumas horas na noite cheia de possibilidades de uma jovem imigrante brasileira em Lisboa - completamente perdida sobre o futuro e buscando atalhos para suas soluções nos encontros e desencontros que a vida coloca em sua frente - Quem se Move busca encontrar significados no campo das percepções, sem deixar de destacar o conflito existencial, se aventurando nas possibilidades infinitas da linguagem e prendendo nossa atenção.

Criando significados por meio de uma montagem dinâmica, a diretora Stephanie Ricci busca o confronto emocional e o despertar de um estado de alerta, em uma bela condução narrativa que preenche a tela com possibilidades. Muitas vezes estático – sustentado também pela atuação competente da ótima atriz Olívia Torres – o filme mantém seu clímax constante através de uma tensão interna profunda.

Esse é um assunto que sempre está presente na atualidade: a imigração. No entanto, a obra não se limita nessa questão, abrindo camadas para questionamentos sobre propósito e identidade, significados das relações e uma angustiante percepção do vazio. Um belo projeto.

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23/11/2025

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Crítica do filme: 'Buenosaires' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]


Buenos Aires fica no Brasil, e eu posso provar. No segundo dia de exibições da 12a Mostra de Cinema de Gostoso, um curioso documentário chamou a atenção. Trazendo as peculiaridades de uma cidade do interior de Pernambuco, homônimo da capital Argentina, Buenosaires, dirigido por Tuca Siqueira, nos conduz a um tour por esse lugar através de personagens reais.

Das festas populares à maior paixão dos brasileiros – e também dos nossos hermanos - vamos acompanhando a rotina de alguns moradores e sua relação com a cultura local e com as homenagens à outra Buenos Aires, algo que parece mexer com as emoções, movido, em alguns casos, por um ponto de vista diferente sobre a rivalidade Brasil x Argentina.

Tem ex-jogador de futebol que virou presidente de um clube chamado Boca Júnior (em homenagem ao famoso time do país vizinho), tem coveiro que deseja ser enterrado no lugar onde trabalha, tem comerciante de camisas não oficiais que agita as vendas, e até aula de espanhol gratuita. Um mix de situações e ações inusitadas que evidenciam o lado cultural e suas interpretações.

A questão que mais pesa nesse documentário - que levou alguns anos desde a ideia inicial até sua finalização - é a maneira como tudo isso é apresentado, em uma montagem que não seduz tanto nossa atenção ao longo de seus 70 minutos. Nesse encontro de histórias espaçadas, que rapidamente perdem fôlego, somos envolvidos apenas pelas peculiaridades – o que é muito pouco para conquistar nossa atenção por completo.

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Crítica do filme: 'Presépio' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]


Quando chegamos ao final de um curta-metragem e ele deixa aquele gostinho de quero mais, é porque um bom trabalho foi feito. Exatamente isso que acontece em um projeto carioca que chamou a atenção nos primeiros dias da 12a Mostra de Cinema de Gostoso. Um projeto simples em sua forma que encontra camadas, uma espécie de parábola repleta de simbolismos – do moral ao existencial - que se encaixa como uma luva em muitas histórias familiares por aí.

Imagina a situação: uma família se reúne para o amigo oculto natalino, e os conflitos logo afloram quando um pai presenteia o filho com uma arma de brinquedo. Dentro desse cenário, se desenvolve uma história que expõe embates e questões guardadas - mas nunca esquecidas - até a necessidade de reencontrar o amor em meio à decepção.

Indo direto ao ponto, com uma contextualização importante construída pelas entrelinhas e buscando, através das dinâmicas familiares, um olhar bastante profundo sobre nossa sociedade, Presépio utiliza a relação conturbada de pai e filho para gerar reflexões importantes - inclusive sobre o choque entre gerações.

Impressionante a qualidade desse roteiro, que se une a uma narrativa ágil e cheia de tensão que não perde nossos olhos em nenhum instante. Nos detalhes, também encontramos complementos às ações dos personagens - aspecto que enriquece a obra, que, mesmo com seu contexto de relações desgastadas pelo tempo e os diferentes caminhos no modo de pensar, consegue acender uma luz de esperança.

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Crítica do filme: 'Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]


Um dos filmes mais desafiadores do cinema brasileiro lançados ainda em festivais no ano de 2025, o longa-metragem Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba é, basicamente, uma alusão ao carnaval inserida dentro de um contexto das angustias de um protagonista que vê seu sonho não se realizar. A partir do contraponto peculiar de associar uma grande festa se abraçando a momentos tristes, acompanhamos uma história que convoca a paciência – embora até ela pode acabar.

Dividido em curtos capítulos que fazem referências diretas à maior festa popular de nosso país, por meio de uma autoapresentação de personagens, nos leva até uma história que apresenta um presidente de uma escola de samba que percebe chegar ao fim os dias de folia. Entre as memórias de um começo promissor até um presente de agonias, com a falência batendo à porta, somos guiados por personagens que circulam em torno da amargura do adeus.

Na tentativa de ser um experimento poético, o projeto dirigido por Marina Meliande e Felipe M. Bragança, esbarra em uma narrativa lenta, que insiste em construir uma atmosfera indecifrável pelo subúrbio carioca. Esse incômodo no ritmo parece ser uma proposta - um desafio ao espectador – talvez na esperança de suscitar reflexões variadas. A poesia contemplativa chega por meio de imagens e movimentos que dizem pouco sobre o que é essa história, além do óbvio, se arrastando por intermináveis 70 minutos de projeção.

Do musical aos dramas de um encerramento de ciclo, o roteiro apresenta seus confrontos ao sensibilizar e sugerir, se escondendo do dinamismo – algo que a narrativa clama em alguns momentos, mesmo com uma composição visual que estimula o olhar e chama a atenção. Nessa visão pessimista de almas solitárias perdidas no caos de uma cidade (aqui representado também pela violência), Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba se desponta como um verdadeiro teste de paciência, disponibilizando reflexões isoladas dentro de um mar de tristeza – do abre-alas até cruzar seus créditos finais.  

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22/11/2025

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Crítica do filme: 'Pupá' [Mostra de Cinema de Gostoso 2025]


Do curioso ao familiar. Abrindo a noite de competições do segundo dia da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso, um curta-metragem do Rio Grande do Norte busca, através do olhar familiar, um recorte íntimo sobre uma mulher que não passa desapercebida por onde anda. Seu apelido é Pupá, famosa anotadora do Jogo do Bicho na região onde mora (Acari), que criou os filhos na raça – quase sempre sem apoio - e se tornou uma figura bastante conhecida e querida.

Com uma série de registros caseiros que buscam compor uma atmosfera cheia de respingos de emoções - algo que dialoga com nossa percepção a todo instante -, vamos nos encaminhando para o valor do depoimento pela ótica da família. Assim, chegamos numa composição narrativa que usa o íntimo e a proximidade para abrir os horizontes de reflexões – um convite para que o público busque semelhanças, ou mesmo lembranças, em sua própria história.

Indo mais a fundo nesse ponto fundamental da obra, o diálogo franco e aberto que é proposto a partir do cotidiano da personagem-título pode gerar muitas identificações. Apresentando logo no inicio a mais peculiar de suas atividades - anotadora do Jogo do Bicho, prática de jogo ilegal no Brasil mas amplamente difundida – e, logo depois, chegamos na liberdade de escolhas, na necessidade de ser feliz que acaba gerando um impacto positivo em todos que a rodeiam.

Pupá é um documentário simples e objetivo, uma carta de amor, que não entrega nada além do que se propõe – e, ainda assim, se revela um retrato interessante de uma mulher e sua força em acreditar no viver.

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Crítica do filme: 'Operação Beijo de Natal'


Oh oh oh! Pertinho de dezembro, mais um filme natalino alcança ao top 10 da Netflix. Desta vez, é a produção Operação Beijo de Natal, dirigido por Bradley Walsh, que, com seus pouquíssimos personagens regados a sorrisos e situações pouco conflitantes, preenche uma trama que se joga em uma narrativa acelerada cheia de fofurismos, mostrando passado e presente se reencontrando.

Nessa tentativa de ‘conto de fadas moderno’, muito guiada pela ingenuidade de um encantamento de um grande amor num lugar onde todo mundo se conhece, os dilemas ressoam apenas na superfície. Tudo é prático, possível, preparando o terreno para um clímax desencontrado, meloso, com protagonistas correndo de qualquer carisma.

Na cidade gelada de Ivy Glen, Grace (Jen Lilley) está radiante com a chegada do Natal, já que sua empresa de decoração e design – onde trabalha com o irmão e a melhor amiga - foi escolhida para ser a responsável por uma atração badalada da cidade. Com os preparativos acontecendo, Grace é surpreendida pelo retorno do seu ex-namorado, Ryan (Nick Bateman), que se tronou um homem bem-sucedido em Nova Iorque. Se aproximando cada dia mais, essas duas almas vão precisar tomar decisões importantes sobre o futuro.

Chegamos, em algum momento da vida, à conclusão de que nosso trabalho consumiu boa parte de nossa história, deixando de lado outras questões importantes. Você vai enfrentar isso alguma vez na sua trajetória. Esse sentimento, que pode surgir assistindo a esse filme, é um dos poucos elementos que criam elos eficazes dentro dessa história - mesmo que correndo para o previsível.

Ah, Rapha, mas vale pelas doçuras do espírito natalino? Alguém pode até achar interessante se o filme tocar dessa forma, afinal, nessa época de dezembro estamos sempre com o coração mais sensível, e qualquer ar de nostalgia acaba chamando nossa atenção. Mas, como uma obra cinematográfica, que se propõe a ser uma parábola encantada – mesmo sem magia - Operação Beijo de Natal apenas embala um soninho gostoso.

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18/11/2025

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Pausa para uma série: 'O Monstro em Mim'


Colocando em evidência a psicopatia e os dramas pessoais ligados por tragédias, chegou à Netflix uma minissérie cheia de caminhos para sua compreensão que nos leva até um jogo psicológico sombrio e inquietante. Escrita pelo nova-iorquino Gabe Rotter e tendo como showrunner Howard Gordon – da equipe do excelente Homeland -, O Monstro em Mim, ao longo dos seus intensos oito episódios, conta com atuações marcantes de Claire Danes e Matthew Rhys.

Aggie (Claire Danes) é uma escritora de sucesso que, após a morte do único filho, vê sua vida desmoronar. Sentindo-se culpada e não se desprendendo de procurar culpados para a tragédia, destrói seu casamento e passa a viver reclusa. Um dia, muda-se para sua vizinhança o polêmico e ambíguo empresário Nile (Matthew Rhys), acusado anos atrás de assassinar a própria esposa. Ao se aproximar dele, começa a desconfiar de algumas ações e resolve escrever um livro sobre ele, ao mesmo tempo que busca informações sobre se ele matou ou não a ex-esposa.

Desde o início, em uma bela construção narrativa, percebemos que a tragédia é uma variável importante e que ligaria pontos entre dois personagens completamente distintos. Com uma ótima direção dividida entre Antonio Campos e Tyne Rafaeli - onde a câmera caminha pelos detalhes sugerindo de forma indireta todo o complexo contexto ligado a incoerências e comportamentos - vai sendo modelado um thriller inquietante, que provoca o público e fisga a atenção.

Para quem gosta de tudo mastigado, esta é uma obra para se ter paciência: nada é diretamente proposto, há um caminho profundo para se chegar nas revelações. A série esquenta a partir do terceiro episódio, com os dramas familiares já desenvolvidos – leia-se a culpa e o luto -, além de uma trama política que faz todo sentido no alicerce do discurso que o roteiro propõe. Com o inconsciente se manifestando – um prato cheio para fãs de Freud – estabelece-se um tabuleiro de xadrez, com acertos e erros.

O roteiro se arrisca o tempo todo nas nuances de apresentar o fator psicológico – um caminho cheio de espinhos que respinga na narrativa. Esse acaba sendo um dos grandes méritos da obra: com seu bom desenvolvimento dentro dessa psicologia dos personagens, onde valores, motivações e medos se manifestam, moldando modos de agir, logo chegando aos desvios morais, sem esquecer de apresentar as vulnerabilidades.

O Monstro em Mim foge de qualquer ingenuidade ou dos desencontros que uma fluidez narrativa poderia provocar. Seu objetivo é apresentar o ‘monstro dentro das pessoas’, como se expressa externamente e no subconsciente. Ao se jogar nas complexidades - com dois excelentes protagonistas ditando o ritmo das ações - avançamos nos graves descompassos da personalidade humana, em uma incursão profunda no oculto da mente, onde a moralidade hipócrita se manifesta.

 

 

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Crítica do filme: 'Um Dia Fora do Controle'


Tem filmes tão ruins que, às vezes, é difícil até saber como começar um texto sobre eles. Com um roteiro sem pé nem cabeça, buscando desenvolver - de forma atabalhoada e sem coerência - conflitos entre gerações de pais e filhos, esse novo longa-metragem que chegou ao Prime Video é um festival de cenas surreais que flertam com o machismo e reforçam estereótipos em ações e atitudes. Um show de horrores ao longo de 93 minutos de projeção.

Brian (Kevin James) é um homem de meia idade que tenta construir um bom relacionamento com seu enteado, Lucas (Benjamin Pajak). Quando é demitido do emprego, passa mais tempo com o jovem, e um dia encontram por acaso com Jeff (Alan Ritchson) e seu suposto filho, CJ (Banks Pierce). Mal eles sabiam que esse encontro proporcionaria 24 horas de total loucura, quando passam a ser perseguidos junto aos novos conhecidos.

Avançando numa fórmula que mistura comédia que busca o riso rápido com pitadas nada generosas de uma ação descontrolada - quebrando a expectativa do público ao abraçar o non-sense - o projeto dirigido por Luke Greenfield, com roteiro escrito por Neil Goldman,  Um Dia Fora do Controle é também um mergulho sem fôlego na paternidade socioafetiva, mas se perde rapidamente nas próprias ideias.

Com personagens mal construídos, um roteiro tenebroso e distante de qualquer lapso de realidade – o que afasta qualquer tentativa de reflexão –, além de diálogos piegas aos montes, incluindo um entre os dois adultos refletindo sobre o passado e vivências é de tirar completamente a paciência. Beira ao inacreditável um roteirista de mão cheia como Neil Goldman – responsável por ótimos trabalhos no mundo das séries como Falando a Real, Community e Scrubs, assine um roteiro tão ruim e completamente sem noção.  

Mas você pode dizer: ‘Ah tá! Mas é um filme pra divertir!’. Então espere até ser surpreendido, do nada, pelos análogos genéticos que começam a surgir na trama - ou pelos clichês que tornam tudo tão excessivamente artificial. Sem dúvidas, Um Dia Fora do Controle é um dos filmes mais desinteressantes que chegou aos streamings neste ano.

 

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