Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Lupicínio Rodrigues: Confissões de um Sofredor'


A genialidade declamando a sofrência. Trazendo para o centro do palco histórias marcantes da história de um dos mais brilhantes músicos do Brasil, o documentário Lupicínio Rodrigues: Confissões de um Sofredor nos mostra entrevistas realizadas com o letrista de histórias de amor no final da década de 60 até o início dos anos 70, além de depoimentos de amigos, parentes e consagrados nomes da música brasileira. Um equilibrado quebra-cabeça que mistura relatos de sua vida pessoal, suas inspirações e a trajetória de sucesso.

Primeiro longa-metragem da carreira do cineasta Alfredo Manevy, o projeto bate na tecla da rica contribuição musical de Lupi (apelido carinhoso por qual era chamado pelos amigos), suas lutas, seus amores, além de toda a história de uma época, na fase final da sua vida já em período da ditadura.

Gaúcho, da região de ilhota, um bairro conhecido pelas enchentes em Porto Alegre, Lupicínio Rodrigues começou fazendo música no quartel antes da maioridade. As dores de cotovelo que viveu foram para o papel somado a uma narrativa trágica que expõe as dores de amores como protagonista. Obras marcantes marcaram sua carreira de várias décadas com uma volta por cima quando perde espaço no mercado fonográfico com as famosas vozes da era do rádio ficando para trás e a chegada da Jovem Guarda.

O cantor que influenciou gerações, tendo canções imortalizadas em grandes vozes do Brasil, com suas inesquecíveis declamações da sofrência e do samba-canção tem seu nome marcado também no esporte brasileiro, com a composição de um dos hinos de clubes de futebol mais bonitos, o do Grêmio de Porto Alegre, feito no início da década de 50.

Um grande defensor pelos direitos autorias, sofreu com a falta de crédito em diversas músicas fora do Brasil. Inclusive, um fato curioso ligado ao Oscar não é esquecido pelo documentário. Na trilha sonora do filme Dançarina Loura, indicada ao Oscar em meados da década de 40, tem uma música de Lupicínio que até hoje o crédito a ele não foi dado pela academia.

Exibido em alguns festivais brasileiros, Lupicínio Rodrigues: Confissões de um Sofredor não deixa de ser um abre alas para quem nunca ouviu falar desse grande músico, um homem que viveu e cantou as dores de cotovelo com uma genialidade notável.

 

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...