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Crítica do filme: 'Veneza'


As fábulas dos sonhos distantes. Novo trabalho na direção do artista completo Miguel Falabella, Veneza, possui a fábula, a novela, o romance como narrativa, é leve, agradável, não há quase clima de tensão. Esse aspecto até existe mas parece ficar como background dos sentimentos, razão fruto da inconsequência, na chegada do clímax pelo sonhar. Vale mais esse sonhar do que o viver para muitos dos personagens, de tanto imaginarem o futuro viram presas desses sonhos, mas quem disse que eles não podem ser realizados? Como um maestro na direção, Fallabella, não esquece de passar com brilhantismo pelas técnicas da arte, da beleza do sensual sem ser ofensivo, não esquece de passar pelo circo, pelas cenas de teatro, pela dramaturgia e todo o universo por essas artes criados. A partir de um sonho, somos levados a uma viagem mágica, profunda, linda. O longa-metragem conta no seu elenco, além dos ótimos artistas brasileiros, com Carmen Maura, uma das grandes atrizes espanholas da história, com diversos trabalhos junto ao aclamado diretor Pedro Almodóvar.


Na trama, com roteiro do próprio diretor, baseado na peça de teatro de Venecia de Jorge Accame, conhecemos Gringa (Carmen Maura) uma senhora espanhola que tem um puteiro no interior do Brasil que hoje em dia é comandado basicamente comandado por Rita (Dira Paes). Gringa está no auge de sua velhice, já cega e doente possui um único e inusitado desejo: ir até Veneza para ver se consegue o perdão de um homem que abandonara faz muitos anos. Assim, buscando realizar o desejo da dona do bordel, Rita se une a Tonho (Eduardo Moscovis), Jerusa (Danielle Winits), Madalena (Carol Castro) e o resto da equipe para realizar de alguma forma esse desejo.


O faz de conta se une ao lúdico, há muito mais emoção do que qualquer razão. As lembranças ganham contornos emotivos através de Gringa, a mola propulsora da história. Várias portas se abrem, o contexto de realidade dentro do ‘terror’ da palavra afeto, o indecifrável universo das fantasias sexuais, a verdade objetiva de que não se pode dar um preço ao amor, quando chega a encostar na realidade vemos a tragédia, o medo, as dúvidas e decepções. Os personagens são ótimos parecem sonhar o mesmo sonho de gringa chegando próximo, bem próximo, da cidade que flutua na água.


Quantos filmes romantismo nós assistimos todos os anos? São todos da mesma forma? Não mesmo! É possível uma segunda chance para um mesmo amor? Porque não? Dentro de um universo machista a delicadeza de encontrar as razões para emoções não deixa de ser um mérito de Falabella e seu co-diretor Hsu Chien, tendo como seu principal nos fazer acreditar, também, no sonhar. E como é bom sonhar!  


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