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Mostrando postagens com o rótulo Festival do Rio 2025

Crítica do filme: 'Ruas da Glória' [Festival do Rio 2025]

A vida como ela é. Percorrendo um relacionamento destrutivo e contrapondo o fascínio de um novo lugar e suas tragédias que logo se mostram presentes, o longa-metragem Ruas da Glória , escrito e dirigido por Felipe Sholl , apresenta um certo lirismo - uma metáfora que percorre emoções e sensações ligadas ao desespero, alcançando as dores quando o caos da existência se mostra angustiante. Sempre envolta no tema, a narrativa cumpre seu propósito ao maximizar a ebulição dos sentimentos, com cenas carnais bem dirigidas - mais explícitas que sugeridas – atingindo a essência humana e seus impulsos em meio a uma tensão sexual sufocante. O desejo se alia ao desespero, elementos emocionais fundamentais para os pilares dos complexos personagens, muito bem interpretados por Caio Macedo e Alejandro Claveaux . Gabriel ( Caio Macedo ) é um jovem professor de literatura que acaba de chegar ao Rio de Janeiro, após um falecimento e um conflito com parte da família, experiências que mexeram com suas...

Crítica do filme: 'Brasa' [Festival do Rio 2025]

Com um tema central, importante e atual, colocado para debate e desenvolvido com sensibilidade ao longo de sua breve, porém bem distribuída duração, o curta-metragem Brasa nos leva até um recorte profundo sobre uma questão alarmante que choca pelas estatísticas em nosso país: a gravidez na adolescência. Com ótimas artistas em cena - Bárbara Colen e Mel Faria em destaque - que transmitem toda a aflição e tensão dos conflitos que se seguem, o projeto dirigido por Diane Maia , em sua primeira direção, com roteiro assinado pela mesma e Ana Alkimin , teve sua primeira exibição no Festival do Rio 2025, onde integrou a potente lista da Première Brasil. Analu ( Mel Faria ) é uma jovem estudante de 16 anos, apaixonada por um rapaz que trabalha como motoboy no Hortifruti de sua mãe ( Bárbara Colen ). Moradora de uma cidadezinha no interior do país, busca a realização dos seus sonhos mesmo com as limitações do cotidiano. Quando descobre que está grávida do rapaz, Analu comunica o rapaz na e...

Crítica do filme: 'As Dores do Mundo: Hyldon' [Festival do Rio 2025]

O cineasta e antropólogo Emílio Domingos vem enriquecendo nossas reflexões com projetos interessantes, bem amarrados e com recortes profundos ligados à nossa cultura. Foi assim em Black Rio! Black Power! , documentário sobre o movimento Black Rio, e em Os Afro-Sambas, o Brasil de Baden e Vinicius , obra que destrincha detalhes de um disco de Vinicius de Moraes e Baden Powell , lançado em meados da década de 1960. A cada novo registro, uma página da nossa música e sua relação com a sociedade se revela atemporal. Seu novo trabalho, que dirige ao lado de Felipe David Rodrigues, lançado no Festival do Rio 2025, chega para colocar no centro da tela um nome que você talvez não conheça, mas já escutou alguma canção dele. As Dores do Mundo: Hyldon conta a trajetória de Hyldon de Souza Silva, conhecido apenas pelo primeiro nome: guitarrista e produtor, fã de Marvin Gaye, que logo virou artista. Além de tudo, um observador atento de muito momentos da música popular brasileira. Desde a inf...

Crítica do filme: 'Pequenas Criaturas' [Festival do Rio 2025]

Costurando a sensibilidade humana de forma poética – mastigando a imaginação e a expressividade –, chegou, em um dos últimos dias de Festival do Rio, a sessão do longa-metragem brasileiro Pequenas Criaturas: um filme que você assiste e não esquece. Escrito e dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, esse projeto encantador busca a comunicação com o público através de um roteiro envolvente, com personagens complexos e fascinantes, reunindo fragmentos de uma família dentro de recortes geracionais que se entrelaçam pelas amarguras do presente. Ambientada numa Brasília de quase quarenta anos atrás, conhecemos Helena (Carolina Dieckmann) e seus dois filhos – uma criança e um adolescente – que chegam à capital do Brasil e se mudam para um prédio numa região central. Frustrada pela partida do marido, que logo viaja a negócios, ela se vê perdida e aflita, enquanto marcas do passado e inesperadas aventuras do presente se chocam, nos levando a um recorte cheio de conflitos, não só pra ela, mas par...

Crítica do filme: 'Final 99' [Festival do Rio 2025]

O estado de ser num mundo de reinvenções do próprio pertencimento. Em uma trama bem bolada, que aborda a palavra 'identidade' em muitas facetas, o curta-metragem gaúcho Final 99 , escrito e dirigido por Frederico Ruas , nos leva até um drama existencial - com flerte no suspense – em que, a partir da perda de um objeto, um possível encontro desperta reflexões sobre questões contemporâneas e existenciais. O filme foi selecionado para a Première Brasil de Curtas do Festival do Rio 2025. Um segurança noturno ( Bruno Fernandes ) de um lugar cercado de tecnologia, mas também de um silêncio ensurdecedor, perde sua identidade - possivelmente vítima de algum furto. O documento é encontrado por uma imigrante estrangeira ( Mbyá Guarani Luicina Duarte ), que propõe um encontro. Rodado logo após o caótico estado de emergência que atingiu o Rio Grande do Sul recentemente, o projeto apresenta rapidamente sua trama conseguindo alcançar camadas dentro do discurso proposto - um mérito de uma...

Crítica do filme: 'Viva um Pouco' [Festival do Rio 2025]

Uma suposição indigesta que leva a um caminho de descobertas. Durante o Festival do Rio 2025, em meio a tantos filmes badalados, fomos conferir uma obra que se revelou intrigante partindo de uma situação alarmante e abrindo-se em camadas de revelações. Tendo como vetor principal um psicológico abalado - uma protagonista mergulhada em conflitos -, esse filme sueco aposta num destrinchar de uma suposição fazendo uma ponte com um despertar para a vida.   Laura ( Embla Ingelman-Sundberg ) viaja com sua amiga Alex ( Aviva Wrede ) pela Europa, uma ideia que vem sendo planejada há anos. Em um dos países que desembarcam, Laura acorda certa manhã numa cama, com indícios de que passou a noite com alguém. Em conflito com a situação e sem saber ao certo o que aconteceu – tendo apenas leves lembranças -, a protagonista passa por uma jornada de descobertas, na qual o medo do que pode ter acontecido se torna cada vez mais sufocante. Esse é um filme que aborda o despertar, mas também a linha t...

Crítica do filme: 'Honestino' [Festival do Rio 2025]

Qualquer filme que aborde os horrores do período de ditadura no Brasil já é, por si só, chocante. Tendo isso em mente, iniciamos as reflexões sobre mais uma obra que volta ao tema e, de maneira inquietante, nos leva até a história de um pai e líder estudantil que desapareceu nas mãos dos militares. Honestino , novo trabalho do cineasta amazonense Aurélio Michiles , mistura documentário e ficção em uma obra visceral que escancara verdades de quem sempre esteve do lado certo da história. Com uma prévia contextualização de um dos momentos mais tristes da história brasileira – a ditadura militar – por meio de poemas, depoimentos, imagens de arquivos, chegamos até o início da década de 1970, quando o líder estudantil Honestino Guimarães desapareceu. Valente na sua luta em busca da restauração da democracia, o estudante de geologia goiano viveu anos complicados, sendo alvo frequente de perseguição militar e chegando a ser preso diversas vezes na década anterior ao seu desaparecimento. P...

Crítica do filme: 'Dolores' [Festival do Rio 2025]

Em mais um dia de Festival do Rio 2025, encontramos com um filme brasileiro bem peculiar e a mesmo tempo interessante, que revela suas camadas através do desenrolar dos conflitos de três gerações de mulheres de uma mesma família. Dolores, dirigido por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, investe numa narrativa contemplativa que mergulha nos pensamentos e os sonhos dos personagens, nos levando a sentir os dramas de personagens à beira de mais um importante passo na vida. Dolores ( Carla Ribas ) é uma mulher solteira, já sexagenária, com marcas no passado. Perto de completar mais um aniversário, tem um sonho revelador. Mantém uma relação conflituosa com a filha Deborah ( Naruna Costa ), que aguarda a libertação do grande amor de sua vida para, enfim, ser feliz. Em contrapartida, Dolores possui uma ótima relação com a neta Duda ( Ariane Aparecida ), que trabalha numa espécie de clube de tiro e recebe uma oferta de emprego fora do país. Essas três mulheres vão se jogar em uma jornada em ...

Crítica do filme: 'Cheiro de Diesel' [Festival do Rio 2025]

Selecionado para a mostra Première Brasil de Documentários do Festival do Rio 2025, o impactante projeto Cheiro de Diesel é um profundo e inquietante recorte sociológico da cidade conhecida como ‘maravilhosa’. Buscando em seus intensos 80 minutos de projeção ampliar o debate sobre as intervenções militares nas favelas cariocas - mais precisamente quando o exército brasileiro ocupou o complexo da Maré durante a Copa do Mundo de 2014 -, chegamos num retrato comovente e avassalador pela visão da própria comunidade, de seus trabalhadores e moradores da região. Muito bem montado, o longa-metragem costura com precisão seus pontos a partir de um discurso irrepreensível, onde caminhamos pela luta da jornalista, comunicadora comunitária e ativista social Gizele Martins em sua busca para dar voz ao que de fato aconteceu em uma região tomada por perigos de todos os lados – uma realidade que afetou em cheio o direito de ir e vir de 140.000 moradores. A contextualização é bem feita e se insere ...

Crítica do filme: 'Sonhos' [Festival do Rio 2025]

Trazendo à reflexão as muitas faces extremas do sentimento mais poderoso que existe – o amor - Sonhos , escrito e dirigido pelo cineasta mexicano Michel Franco é um filme sensível e atual, ao mesmo tempo carnal e desconfortante. Fruto de atuações impressionantes e um jogo de cena que nos conduz da euforia à destruição - chegando até o rompimento com o psicológico e o bom senso -, a obra se destaca por seu silêncio revelador, algo que chama a atenção nessa narrativa. Uma fórmula que convence - desde o início - onde se potencializa a tensão e um silêncio incisivo que entra como um elemento complementar. Uma mulher da alta sociedade norte-americana ( Jessica Chastain ), diretora de uma fundação de renome, se apaixona perdidamente por um bailarino mexicano ( Isaac Hernández ) que está ilegalmente nos Estados Unidos. Ao longo desse relacionamento que se mostra conflituoso, situações vão colocando os personagens em dilemas, até o último suspiro dessa relação. O roteiro se projeta atravé...

Crítica do filme: 'Massa Funkeira' [Festival do Rio 2025]

Abrindo espaço para vários olhares sobre o movimento funkeiro - um dos grandes expoentes da cultura brasileira quando pensamos em representações artísticas, sobretudo no Rio de Janeiro -, o documentário Massa Funkeira , novo trabalho da cineasta Ana Rieper , reúne um interessante retrato social a partir de uma série de registros e depoimentos de Mc’s, dançarinos e produtores, revelando novos olhares para essa arte musical que conquista atenção e aborda, sem papas na línguas, temas considerados tabus na sociedade. A montagem desse filme é a chave do sucesso. Ao criar um ritmo intenso e envolvente, esse retrato social coloca em evidência - sem moralismos e julgamentos - as letras ligadas as relações íntimas, especialmente o sexo. Assim, percorremos o por trás da fama de artistas desse segmento que alcançaram sucesso em vários períodos dos últimos anos, chegando também às mudanças e reflexões por trás das canções que embalaram bailes funks pelo Brasil – e pelo mundo. Com uma mescla de...

Crítica do filme: '#SalveRosa' [Festival do Rio 2025]

Uma mãe cruel, controladora e egoísta que expõe sua filha na internet. É a partir dessa premissa - que atravessa os muitos olhares sobre uma trágica relação familiar – que o novo trabalho da ótima cineasta Susanna Lira apresenta, de forma reta e contundente, um assunto que vem ganhando cada vez mais atenção na sociedade contemporânea: a exposição infantil nas redes sociais. #salverosa é um grito de socorro que pode abrir os olhos de muitas pessoas. Aos 13 anos, Rosa ( Klara Castanho ) é uma jovem introspectiva que virou uma celebridade na internet com um canal que reúne milhões de assinantes. Ela vive sob o olhar atento da mãe ( Karine Teles ), uma mulher controladora, enigmática e que esconde segredos. Nessa relação que vai se mostrando cada vez mais conflituosa, acompanhamos os desenrolares desse chocante retrato quando Rosa começa a descobrir verdades da sua própria história.   O tom colorido do projeto – com cores pulsantes, fruto de uma direção de arte que dialoga com o ca...

Crítica do filme: 'Alice' [Festival do Rio 2025]

Já dizia alguém: é nos pequenos frascos que estão os melhores perfumes! Com uma composição visual deslumbrante, criando significados a partir do desbravar da linguagem, quase um chamado para a imersão de sentimentos que pulsam na tela, o curta-metragem Alice , dirigido por Gabriel Novis é um retrato comovente e profundo de uma mulher trans nascida em Maceió. Embarcando em uma reinvenção de sua própria trajetória, Alice Barbosa apresenta ao público a sua história, que teve estreia nacional no Festival do Rio 2025. É impressionante como, em apenas 17 minutos, nossos pensamentos se veem mergulhados em reflexões constantes de um retrato muito bem construído e sensível. Tocante e contornando o terror do preconceito, a narrativa nos projeta para conhecer uma história que fala muito sobre família, despertar para suas verdades, o luto, os prazeres através do esporte e também as mudanças com as despedidas. Com uma narração da própria personagem-título, somos conquistados do primeiro ao últim...

Crítica do filme: 'Sobre Tornar-se uma Galinha d'Angola' [Festival do Rio 2025]

Uma das maiores alegrias de qualquer amante da sétima arte é se deparar com uma obra surpreendente e avassaladora durante um evento de cinema. No terceiro dia de exibições do Festival do Rio 2025 nos deparamos com um longa-metragem impressionante que, de forma criativa e envolvente – utilizando a comédia em muitos momentos para nos guiar por assuntos espinhosos ligados a uma família - nos leva até um recorte sobre a violência, crueldade e tradições, ambientada num país africano. Escrito e dirigido pela cineasta zambiana Rungano Nyoni , esse projeto nos conduz até o ensurdecedor silêncio de verdades escondidas, ao conflito geracional, à desigualdade de gênero e ao caos do patriarcado – elos de uma corrente que insere-se na violência sem punição, na dor e sofrimento capazes de transformar olhares e redefinições de trajetórias. Shula ( Susan Chardy ) está dirigindo seu carro quando, de repente, percebe um corpo estirado no meio da estrada – e logo percebe que se trata de seu tio. Quan...

Crítica do filme: 'Depois da Caçada' [Festival do Rio 2025]

O italiano Luca Guadagnino é um dos mais interessantes cineastas da atualidade - e isso não vai mudar. Seu cinema busca reflexões sociais atuais, dialogando com o público a cada ponto de suas narrativas, como já se viu na maioria dos seus filmes. Em seu novo trabalho, Depois da Caçada , exibido pela primeira vez no prestigiado Festival de Veneza – e filme de Abertura do Festival do Rio 2025 -, ele volta a recortes sociais importantes e, dessa vez, convida o público a embarcar em um elevador para camadas de assuntos que vão se amontoando, sem respiro para reflexões. Pra embarcar nesse longa-metragem, é preciso atenção. Pelas entrelinhas de diálogos bem construídos, a filosofia surge como base – o principal ingrediente desse molho que busca, no conflito, as pausas necessárias pra expor a ética e a moral em uma sociedade cada vez mais egoísta. Foucault, Locke são citados e servem de gancho para camadas que exploram desde a necessidade de controle e o cancelamento até as relações interp...