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Crítica do filme: 'Sonhos' [Festival do Rio 2025]


Trazendo à reflexão as muitas faces extremas do sentimento mais poderoso que existe – o amor - Sonhos, escrito e dirigido pelo cineasta mexicano Michel Franco é um filme sensível e atual, ao mesmo tempo carnal e desconfortante. Fruto de atuações impressionantes e um jogo de cena que nos conduz da euforia à destruição - chegando até o rompimento com o psicológico e o bom senso -, a obra se destaca por seu silêncio revelador, algo que chama a atenção nessa narrativa. Uma fórmula que convence - desde o início - onde se potencializa a tensão e um silêncio incisivo que entra como um elemento complementar.

Uma mulher da alta sociedade norte-americana (Jessica Chastain), diretora de uma fundação de renome, se apaixona perdidamente por um bailarino mexicano (Isaac Hernández) que está ilegalmente nos Estados Unidos. Ao longo desse relacionamento que se mostra conflituoso, situações vão colocando os personagens em dilemas, até o último suspiro dessa relação.

O roteiro se projeta através de um contraponto dentro desse recorte sobre os relacionamentos – um discurso afiado e, ao mesmo tempo, desafiador. O real valor de quando se perde encontra as barreiras dos dilemas; o sonho de uma carreira vira um duelo com o sonho de um grande amor. Nessa gangorra existencial, percorremos as faces dessa intensidade, sempre no extremo, onde a tensão e o constrangimento maximiza esse choque entre os ‘sonhos’ – título mais que certeiro do projeto. 

O sugestivo encontra espaço, deixando a trama cada vez mais interessante. Partimos do ponto onde os personagens já se conhecem, onde o passado também é contado pelas entrelinhas. Impressiona como o roteiro instiga o público a querer descobrir como essa história vai terminar. Uma aula de como contar uma história usando elementos em cena e buscando na força das atuações construir grandes momentos. O projeto não perde fôlego; os minutos vão se passando e a tensão só aumenta, culminando em um final emblemático e surpreendente.

Há tempo também para uma crítica social contundente em relação ao tratamento aos imigrantes ilegais na maior potência do mundo - assunto que se tornou cada vez mais atual com a chegada do governo em vigor.   

Selecionado para o Festival do Rio 2025, a obra conta com atuações brilhantes de seus protagonistas, principalmente Jessica Chastain. Esse é um filme que busca no visceral de suas intensas cenas, um olhar profundo para retratos sociais e as incongruências que podem evoluir dentro de um relacionamento.

 

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