08/01/2026

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Pausa para uma série: 'Custe o que Custar'


O autor norte-americano Harlan Coben, de 63 anos, segue criando histórias marcadas por mistérios complexos em tramas que abraçam as reviravoltas - um conteúdo que se torna um prato cheio para virar um produto audiovisual. Custe o que Custar, primeira minissérie lançada pela Netflix em 2026, é baseada em sua obra Run Away, publicada seis anos atrás. Com suas 364 páginas, aborda os impactos em uma família que luta contra o vício em drogas da filha mais velha.

Mas nada neste projeto é somente o que aparenta ser. Reunindo alguns núcleos, com ótimos personagens que adicionam demais à trama e que, aos poucos, se entrelaçam com à história principal, os dramas familiares se desenvolvem como pequenas peças embutidas em um cenário que se amplia conforme vamos descobrindo as verdades. Traumas na infância, adoção, possíveis traições, paranoia, árvores genealógicas, manipulação, seitas e psicopatas, vão se reunindo ao longo de oito intensos episódios, provocando um verdadeiro desfile de questões sociais.

Simon (James Nesbitt) é um consultor financeiro bem-sucedido, pai de três filhos, que vive feliz ao lado da esposa, a pediatra Ingrid (Minnie Driver). Só que toda a aparente calmaria na família esconde um grave problema: a filha mais velha, Paige (Ellie de Lange), se tornou uma viciada em drogas e sumiu de casa faz alguns meses. Na busca por seu paradeiro, Simon é envolvido em uma estrada onde situações o levam ao limite do desgaste emocional.

A grande missão desta obra seriada era como reunir toda a complexidade da trama, sem perder o interesse do público, em apenas oito episódios. Mesmo com algumas pontas soltas, as histórias se entrelaçam de forma coerente, se completando. Há o núcleo principal da família despedaçando, a investigação policial de uma dupla próxima na profissão e na paixão, as descobertas de uma detetive particular - muito bem interpretada por Ruth Jones - e a história de um casal de jovens assassinos, que formam a base dos segredos que são revelados no tempo certo, prendendo a atenção. Chegamos ao último episódio sem saber direito que desfecho nos aguardava – e isso é positivo.

A maneira como se amarra toda a trama central dentro do discurso também é interessante, focando nos argumentos que se cercam – talvez o grande acerto da produção. A partir do cancelamento – algo que está cada vez mais em moda nesse modo instantâneo das redes sociais –, o primeiro episódio abre-alas para ganhar nossa atenção nos conduzindo aquela bomba de emoções que recai sobre uma família, que possui personagens longe de serem carismáticos, mas cumprem seu papel de juntos chegarem nas dores de um presente caótico.

Custe o que Custar é uma minissérie que tem um pouco de tudo: drama, mistério e revelações bombásticas. O projeto se arrisca ao tentar transmitir o máximo de tensão em uma trama ousada, que usa das surpresas de verdades escondidas como uma ponte até importantes reflexões sociais. A Netflix começa bem suas adições de minisséries ao catálogo em 2026.

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29/12/2025

Crítica do filme: 'Uma Vida de Esperança'


Os milagres acontecem, mas é sempre bom termos pessoas que nos conduzem até eles. Preenchendo a tela com superações morais e com a fé atravessando seu roteiro, o longa-metragem Uma Vida de Esperança nos coloca de frente com o luto e, ao mesmo tempo, a necessidade de sermos uma fortaleza, a partir de um protagonista que enfrenta tempestades em forma de tragédias.

Com filmagens no Canadá (Winnipeg) e nos Estados Unidos (Albany), o projeto, ambientado em meados da década de 1990, tem uma fácil compreensão quando pensamos em sua estrutura narrativa – que não se arrisca, seguindo a cartilha da maioria dos filmes sobre superação –, com atalhos usuais e uma base linear que provoca essa assimilação rápida. Inspirado em uma história real, a obra se constrói em torno de uma ideia solidária, batendo nessa tecla com frequência para gerar mensagens positivas, algo que se mostra como o grande objetivo do projeto.

Ed (Alan Ritchson) é um pai e marido amado. Quando a esposa parte precocemente, o tempo passa e uma de suas filhas é diagnosticada com uma doença que exige um transplante urgente. Com as conta hospitalares e custos diários aumentando, entra em sua vida Sharon (Hilary Swank), uma cabelereira com marcas no passado e por seus problemas com o alcoolismo. Sensibilizada pela situação da família de Ed, Sharon vai atrás de soluções, se tornado peça-chave de alguns milagres.

Mãos dadas são mais firmes do que qualquer caminhada solitária. Da superação moral à fé – esta colocada à prova de muitas formas – nossos olhos estacionam, na maioria parte do tempo, na personagem Sharon (interpretada pela duas vezes vencedora do Oscar, Hilary Shank), grande força motriz da história. Achando um propósito ao ler no jornal uma notícia, parte ao encontro de algo que dá significado para sua trajetória – marcada pelo vício, que a afastou de muitas pessoas, incluindo seu único filho. Essa história de superação, a partir do fazer o bem, é um exemplo das já mencionadas mensagens positivas que o filme se propõe a transmitir.

Uma Vida de Esperança, mesmo em um sua forma simplista e direta na definição dos conflitos, encontra algumas camadas pelo caminho, chegando inclusive na transmissão da emoção de forma intensa em seu clímax. Esse é um filme para ser sentido, entrega lindas mensagens, mas recorre ao habitual quando pensamos em sua estrutura dramática. 

 

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23/12/2025

Crítica do filme: 'A Grande Inundação'


É impressionante como alguns filmes conseguem nos surpreender. Chegou há poucos dias à Netflix um longa-metragem sul-coreano que, a princípio, parecia ser mais um ‘filme-catástrofe’, daqueles onde acompanhamos uma personagem protagonista lutando por sobrevivência em meio à devastação da vida na Terra. Só que em A Grande Inundação, um plot twist muda nossas percepções sobre o que estamos vendo, nos levando para uma jornada que explora de forma profunda questões ligadas à existência.

Nada neste projeto dirigido pelo cineasta Kim Byung-woo é simples. É preciso uma total atenção, já que, quando começamos a decifrar seus mistérios, percebemos uma narrativa que induz o público a decifrar pistas, mesmo preso a um complexo roteiro que confunde em alguns momentos mas deixa rastros importantes de reflexão em cada linha. Como as surpresas dessa história precisam ser sentidas pelo público para seu impacto, tentarei ao máximo fugir dos spoilers.

A trama, ambientada em uma Seul (Coreia do Sul) dos tempos atuais, gira em torno de An-Na (Kim Da-mi Koo), uma cientista e pesquisadora que acorda em um dia com um tsunami atingindo o prédio de 30 andares onde mora com o filho, Ja In (Kwon Eun-sung). Correndo contra o tempo para encontrar uma saída em meio ao caos, seu destino se cruza com o agente de segurança Hee-jo (Park Hae-soo), que está no local para resgatá-la. Aos poucos, vamos entendemos que essa história não se resume só a isso, com algo misterioso sendo revelado aos poucos.

Dentro de sua poesia filosófica com ar existencialista, o engenhoso roteiro provoca o espectador indo na contramão de qualquer ritmo contemplativo ou mesmo silêncios profundos. Sempre com o pé no acelerador, se camufla de ‘filme-catástrofe’ para explorar as emoções através de uma experiência, um surpreendente experimento complexo ligado à inteligência artificial. Nesse universo criado, a relação maternal ganha forte destaque, tornando-se um elemento importante nas interpretações que surgem na conclusão da obra.

Do drama à ficção científica, impressiona a forma como o roteiro nos leva às suas surpresas – mesmo que tudo fique bem confuso em certos momentos. Não era um trabalho fácil deixar tudo mastigado em forma de narrativa, há deslizes. Ainda assim, o projeto cresce quando percebemos sobre o que é essa história. Os conflitos humanos, principalmente os dilemas morais, ganham a frente sobre qualquer outras questões, fugindo de explicações objetivas e deixando a emoção ser sentida antes da razão.

A Grande Inundação se joga sem medo em sua ideia de atribuir significados às relações humanas e à nossa razão de ser, além de evocar importantes debates sobre a inteligência artificial e sua influência em um mundo onde o amor é algo difícil de ser explicado, mas ainda é uma grande força genuína que move e dá sentido à nossa existência.

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18/12/2025

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Crítica do filme: 'O Grande Roubo do Louvre: O Crime Minuto a Minuto'


Quando pensamos em roubo mirabolantes – beirando ao inacreditável –, a primeira pergunta que vem na cabeça é: como isso foi possível? Trazendo detalhes sobre um curioso crime ocorrido no maior museu de arte do mundo, o Louvre, chegou à HBO MAX um média-metragem documental que explica, passo a passo, o que aconteceu na manhã do dia 19 de outubro deste ano, quando algumas peças da coroa francesa foram roubadas – e, até agora, não encontradas.

O Louvre, com seus mais de 200 metros quadrados, foi inaugurado em 1793 e logo se tornou um importante ponto turístico da capital francesa, foi e sempre será um lugar conhecido no mundo todo. Talvez por isso o choque diante do ocorrido. Criminosos - provavelmente não tão profissionais - subiram uma escada acoplada a um veículo e entraram por uma das janelas, localizada em um ponto cego de uma das câmeras do complexo. Após uma rápida ação criminosa na Galeria d’Apollon, fugiram em scooters. Mas como ninguém fez nada?!

Reunindo uma série de depoimentos de especialistas em artes e segurança, testemunhas, autoridades e até mesmo ex-ladrões famosos, O Grande Roubo do Louvre: O Crime Minuto a Minuto embarca em uma reconstituição detalhada, através das informações públicas disponíveis, de uma ação delituosa que durou menos de 10 minutos, mas deixou as marcas de insegurança em um lugar onde a história se mantém viva.

Com muitos questionamentos, mas sem uma incursão crítica profunda – talvez em razão da rapidez na produção de um documentário sobre um crime que ocorrido há menos de três meses -, a narrativa se joga nos processos comportamentais dos criminosos, explorando de forma geral as motivações, planejamento e execução: um combo da psicologia criminosa amplamente debatido por parte dos entrevistados.

O fato, por si só, coloca na vitrine da opinião pública o fator segurança em um lugar que é um dos mais frequentados do mundo - algo que chegamos pelas entrelinhas do que vemos. Além desse problema, no exato momento que escrevo esse texto, o Louvre amanheceu com uma greve de funcionários, que reivindicam melhores salários e melhores condições de trabalho. Parece que há muito o que se repensar sobre a administração do museu – que é feita por uma entidade pública chamada Établissement public du musée du Louvre, sob a supervisão do Ministério da Cultura da França.

 

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Crítica do filme: 'Fuga Fatal'


É sempre bom acharmos alguma obra que busca, no sombrio dos atos inconsequentes, reflexões sobre relações próximas marcadas pela falta de oportunidades. Em Fuga Fatal, novo filme disponível no Prime Video, dirigido por Nick Rowland, nos deparamos com uma história cruel em muitos sentidos: um reencontro forçado entre pai e filha, ambos marcados como alvos por uma organização movida à ideologias de intolerância e preconceito. Ao romper camadas através de um estremecido vínculo, a narrativa nos convida para um caminho de tensões e de um amadurecimento precoce.

Nesse forte drama, com altas doses de ação e violência, conhecemos Nathan (Taron Egerton), que, por conta de suas escolhas erradas, passou longos anos na prisão. Quando consegue sair, é perseguido por uma gangue da qual se tornou inimigo durante o encarceramento e logo percebe que sua família também virou alvo. Com a ex-mulher assassinada, ele corre para proteger Polly (Ana Sophia Heger), sua filha, com que teve pouco contato até então. Juntos, os dois embarcam em uma jornada para fugir dos criminosos, enquanto tentam se reaproximar.

Baseado no livro She Rides Shotgun, do autor norte-americano Jordan Harper, o filme lança uma lupa na relação pai e filha sem cair em muitos clichês, apresentando de forma visceral as consequências de escolhas. A construção narrativa é moldada por cenas de alto impacto, que detalham a frieza e remete à julgamentos desconfortáveis, nos quais a ambiguidade moral é despejada na tela através de mais de um personagem. Vamos caminhando até o desfecho com a certeza de que muitas reflexões serão acessadas mesmo após o fim.

E há espaço para uma leitura sobre o amor? Como transmitir o forte vínculo familiar presente em meio um mar de sangue e inconsequências? É em pequenas cenas que o filme constrói seus grandes momentos, tendo a perda da inocência como alicerce. Com as verdades ficando cada vez mais inevitáveis e a necessidade de sobreviver ultrapassando a ingenuidade da idade, a jovem tímida - muito bem interpretada por Ana Sophia Heger - logo vira uma sobrevivente, adaptando-se a uma situação alarmante: aprender a lidar com as consequências das ações provocadas pelo pai.

E esse pai, interpretado pelo competente Taron Egerton, entra em sua jornada de redenção bastante consciente do que provocou àqueles que deveria proteger. O desenvolvimento desse personagem chama bastante a atenção ao colocá-lo em uma condição narrativa fácil de se captar: a de um vilão agindo como herói, em uma complexidade moral que expõe ao público constantes questionamentos sobre suas atitudes.

Fuga Fatal se apresenta mais complexo que parecia. Consegue prender a atenção ao acompanhar de perto personagens intrigantes que avançam para um mar de desconforto e amadurecimento, chegando nos limites frágeis do eticamente questionável e do que é justo ou injusto.

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Pausa para uma série: 'Homem x Bebê'


Aos 70 anos, e após uma breve participação no longa-metragem Wonka (2023), o ator e comediante britânico Rowan Atkinson, conhecido por seu inesquecível personagem Mr. Bean, volta a uma grande produção, dessa vez em parceria com a NETFLIX. Homem x Bebê, minissérie curtinha de apenas quatro episódios, apresenta eventos dissonantes na vida de um homem ingênuo mas de bom coração que se vê envolvido em uma situação pra lá de inusitada.

Trevor (Rowan Atkinson) é um cara gente boa, mas vive ressentido ao ver os laços familiares se quebrarem após um divórcio tempos atrás, principalmente pela distância que tem da filha, Maddy (Alanah Bloor). No último dia como zelador de uma escola, acaba se deparando com uma situação peculiar: esqueceram um bebê no local. Precisando ir até uma entrevista de emprego que pode mudar sua vida, ele decide levar a criança consigo. Assim, eles chegam até um luxuoso apartamento, onde Trevor tem a missão de cuidar até os donos chegarem. Confusões não faltam durante os dias que passam nesse lugar.

Criado pelo próprio Atkinson em parceria com William Davies, o projeto busca o riso por meio de situações cotidianas ligadas à paternidade – e consegue isso na maior parte do tempo. Adepto do slapstick, um estilo de humor caracterizado por situações levadas ao absurdo - uma influência do cinema mudo –, um dos mais famosos comediantes do planeta consegue desenvolver um personagem carismático e engraçado, navegando por uma narrativa objetiva e linear, que vai direto aos seus pontos.

Longe de ser brilhante, com alguns exageros que podem incomodar pela redundância, mas com um humor que acessa nossa nostalgia, Homem x Bebê nos conquista logo de cara. Impressiona como as situações ilógicas conseguem paralelos com o lado afetivo do cotidiano de muitos de nós. O roteiro é muito simples e super eficiente. Longe de entrar em perguntas como: ‘o que você faria nessa situação?’, o prazer da risada se torna algo frequente – antecipando qualquer indagação e criando um vínculo instantâneo com o público.

Com ações desastradas, expressões faciais marcantes e aquele recheio de comédia escrachada - bem executada -, parece que quatro episódios somente são muito pouco. Fica um gostinho de quero mais! O curioso final aberto abre uma margem gigante para que possamos reencontrar esse mais novo personagem marcante na carreira de um genial artista, que sempre teve o sorriso dos outros como objetivo.

   

 

 

 

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Crítica do filme: 'Diga-me Baixinho'


Um coração, dois amores. Mesclando o drama e o romance com toques de suspense, explorando fases da vida de alguns jovens entrelaçados por uma situação do passado, a nova série do PRIME VIDEO, Diga-me Baixinho, avança pelo melodramático para recortar o choque entre a culpa, a paixão e o perdão. O projeto, logo após sua estreia, alcançou o Top 1 da plataforma.

Baseado em uma obra da escritora argentina Mercedes Ron – o primeiro livro que faz parte de uma trilogia - o projeto se projeta em cima de uma premissa: não há soluções fáceis para o amor, avançando em uma fórmula desgastada para fisgar o público mais jovem, naquela linha de Elite, ou mesmo das antigas One Tree Hill e The O.C. Notem que encontrei o paralelo com séries que tiveram longas temporadas para se desenvolver, mas a receita é a mesma – até porque uma trilogia provavelmente nos aguarda.

Kami (Alícia Falcó) é uma jovem popular do ensino médio em uma escola de elite. Sempre rodeada pelas amigas mais próximas, vê seu castelo de cartas da perfeição ruir quando os irmãos Di Bianco - Taylor (Diego Vidales) e Thiago (Fernando Lindez) - retornam à cidade após um acontecimento trágico ocorrido há pouco menos de uma década. Antes muito ligada a eles e agora sem saber o que acontecerá, Kami embarca em uma jornada de escolhas e paixões, buscando se desprender dos traumas do passado.

O roteiro empurra suas revelações para um ‘gran finale’, ficando à mercê de uma narrativa dosada e com clima de tensão, que por vezes escorrega em soluções convenientes. Um fato que ajuda é a utilização do flashback para ajudar a construção dramática e desenvolvimento dos personagens, revelando algumas camadas - ligando o passado ao presente. Nesse princípio narrativo de causa e efeito, uma atmosfera com sensação constante de tensão busca explorar temas como sexualidade, a traição, o luto e a tragédia.

Com filmagens realizadas em Barcelona, Santiago de Compostela e em outras localidades da Espanha, Diga-me Baixinho é mais uma história de drama adolescente que não foge do comum e que ainda possui um final aberto, dando margem a interpretações. Ainda se completará e, torcemos, explorará as consequências das ações de seus pouco carismáticos personagens com mais eficiência.

 

 

 

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14/12/2025

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Pausa para uma série: 'A Última Fronteira'


A Apple Tv vem trazendo, ao longo de sua ainda curta história, diversas obras de impacto quando o assunto é séries. Você pode perceber isso pelas diversas listas de melhores do ano espalhadas pela internet, nas quais sempre aparece uma série desse poderoso streaming – que talvez ainda não tenha o reconhecimento que merece. A Última Fronteira, criada por Jon Bokenkamp e Richard D'Ovidio, chegou para tentar ser mais um desses competentes títulos: uma trama de espionagem ambientada no frio do Alaska que distribui reflexões sobre moral, família e identidade.

Ao longo dos seus 10 episódios, acompanhamos Frank (Jason Clarke - um dos atores mais subestimados dos últimos anos) um policial federal alocado no Alaska, sua terra natal, com fortes marcas no passado. Ele precisa lidar com a inusitada queda de um avião repleto de prisioneiros perigosos e ir à caça dos sobreviventes. Nessa perigosa caminhada, acaba recebendo a ajuda da misteriosa Sidney (Haley Bennett), uma agente da inteligência norte-americana que parece saber muito mais do que revela.

A narrativa propõe alguns olhares sobre a situação central de sua premissa, oferecendo ao público dois protagonistas, duas perspectivas. Em um primeiro momento - e talvez a base mais sólida dessa história - conhecemos um homem que tenta reestruturar sua família após uma tragédia do passado, algo que estremeceu a relação com a esposa e afastou um pouco o filho. Guiado por princípios e buscando não entrar nos deslizes da hipocrisia, Frank é aquele típico policial boa praça: que todos gostam e defensor da sua comunidade. Esse personagem é muito bem lapidado através de mais uma ótima atuação de Jason Clarke.  

Quando entramos nas verdades sobre Sidney e ganhamos a oportunidade de seguir por sua perspectiva, o roteiro busca encontrar rapidamente as peças do quebra-cabeça que se apresenta, embolando explicações. Ao transformar a ambígua agente secreta em uma peça que transita entre o que pode certo ou errado - com contradições e conflitos morais – a narrativa se perde em meio a uma embolada trama de espionagem, que vai perdendo aos poucos o sentido.  

De um ponto simples de seu enredo à forma como a história se apresenta (o roteiro), essa série parece não conseguir sustentar todos os elementos de impacto que propõe. Há bons episódios e outros sonolentos, resultando em uma gangorra de emoções apenas satisfatória. A aposta em compor personagens com certo grau de anti-heroísmo, como forma de validar falhas morais evidentes, acaba sendo um tiro no pé de uma narrativa que poderia nos envolver bem mais.

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10/12/2025

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Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]


Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda, com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra.

Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.  

A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuidade identitária em meio ao urbano e capitalista, sempre pronto para aprontar alguma manobra que ferem essas comunidades. A narrativa, em seus 15 minutos, preenche a tela com passagens marcantes que atravessam esses conflitos, sem deixar de revelar também a beleza dos ensinamentos e a riqueza estética e espiritual que, mesmo com a pressão e insensibilidade capitalista, nunca perderá seu valor.

 

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Crítica do filme: 'A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero' [Fest Aruanda 2025]


Por que estamos vivos? Existe algum momento para se entregar? Lançando a todo instante perguntas existenciais e desabafos em formas de reflexões, hipnotizando o público com palavras carregadas de múltiplos sentidos, o curta-metragem A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero, adaptado de um conto de Bruno Ribeiro, apresenta de maneira criativa suas fascinantes estranhezas e abre um convite para que os espectadores reflitam sobre a vida e a morte.

Um cliente (Luiz Carlos Vasconcelos) divaga sobre a antítese mais famosa de todo ciclo vital. Logo, se junta a ele uma garçonete (Ingrid Trigueiro), e assim os dois conversam sobre questões da existência após uma mosca se entregar à morte num prato de bife com batata frita - episódio que chama a atenção de um dos personagens, esse também narrador, que quebra a quarta parede nos envolvendo em pensamentos antes distantes, mas que ganham vida quando o marasmo da existência desperta a necessidade de contemplações.

Um cenário, uma fotografia deslumbrante – que provoca uma experiência expressiva, sem distrações - e palavras que envolvem. Com muito pouco, mas com uma criatividade cinematográfica que amplia todo o contexto, chegamos rapidamente às indagações provocadas pelas ações da natureza, pela sobrevivência e como tudo isso influencia o nosso redor. Escrito e dirigido por Rodolpho de Barros, A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero é uma pequena obra-prima que vai causar impacto onde quer que seja exibido.

É impressionante como esse projeto fica na gente, muito além dos seus curtos 14 minutos de projeção. Com várias portas que se abrem para pensarmos sobre o que vemos, o que salta aos olhos são aqueles momentos de reflexões quando estamos sozinhos - pensamentos distantes que só aparecem quando acessamos o inconsciente, nos levando a prender nosso foco para questões que afligem e nos fazem considerar sobre o real peso do mundo. Filmaço!

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Crítica do filme: 'Vulkan' [Fest Aruanda 2025]


Fugindo de qualquer zona de conforto e se arriscando no sensorial, a co-produção Brasil e França, Vulkan, é um filme quase sem falas, que repousa suas contemplações na sensualidade e da erupção do prazer questionando sem pressa as relações convidando o público a sentir e interpretar, longe de qualquer estrutura careta de um roteiro previsível. Dirigido por Julia Zakia, esse interessante curta-metragem foi selecionado para a mostra competitiva nacional do Fest Aruanda 2025.

Três personagens e a filosofia relacional do poliamor são as peças centrais desse projeto que celebra o sentimento mais poderoso que existe. Da leveza da felicidade às intensidades da intimidade e aos momentos de reflexão, somos conduzidos para refletir sobre essa dinâmica afetiva. Em cena, as atrizes brasileiras Bruna Linzmeyer e Georgette Fadel se juntam à francesa Mata Gabin, compondo um retrato poético sobre o que transborda na imprevisibilidade e no desejo ardente.

Há uma certa poesia que paira sobre a atmosfera desse projeto, que apresenta uma estética apurada, fruto de uma fotografia que busca um olhar observador bem próximo das interações dos personagens, criando um forte vínculo emocional - também em relação ao lugar. Essa proximidade é a força de uma narrativa que se reflete através de imagens e movimentos, ganhando sentido conforme o filme avança para as intimidades, transformando-se em um registro experimental, com seus méritos, que envolve.

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Crítica do filme: 'Malaika' [Fest Aruanda 2025]


O isolamento para chegar nas linhas da solidão. Um silêncio profundo no início do longa-metragem Malaika já nos transmitia a ideia de que embarcaríamos em uma jornada de deslocamento, com interpretações e sentimentos voltados ao não-pertencimento. Dirigido por André Morais, a obra aposta suas fichas em um recorte sensorial que contempla incertezas e estímulos perceptivos, mas esquece de um ponto importante: a narrativa, que se arrasta pela fabulação sem sustentar de forma satisfatória seus próprios elementos em cena.

Uma jovem albina chamada Malaika chega à escola para o primeiro dia de aula em uma zona rural do interior nordestino, onde logo percebe o ambiente hostil, fruto do bullying de outros alunos. Ela vive com vive com a mãe Isabel, que trabalha para uma família da região. Aos poucos, vai inicia um processo de amadurecimento em uma jornada de autodescoberta.

Sempre com a câmera próximas da protagonista, acompanhando uma movimentação de forma bem próxima, íntima, querendo provocar uma imersão sensorial – até mesmo transmitir subjetividade, o filme conduz suas reflexões por um ritmo contemplativo, sensorial em muitos momentos, indo ao encontro da intensidade dos conflitos que logo se revelam para os personagens.

Contar essa história de uma maneira envolvente era um grande desafio. A narrativa se torna pouco eficaz para o público por conta de conflitos mal conduzidos, misturando suas progressões dramáticas às fragilidades de um roteiro que tem seus méritos, mas não prende a atenção como poderia.

O filme, que teve sua primeira exibição no Nordeste durante o Fest Aruanda 2025, onde concorreu na Mostra Competitiva Sob o Céu Nordestino, parte de um recorte íntimo, de ‘dentro para dentro’ deixando margens para o espectador refletir sobre questões sociais e familiares.

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09/12/2025

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Crítica do filme: 'Outono em Gotham City' [Fest Aruanda 2025]


Quando olhei para o curioso título desse filme, logo pensei: o que será que me espera? Selecionado para a Mostra Competitiva Sob o Céu Nordestino, o longa-metragem paraibano Outono em Gotham City não tem nada de Batman; o título funciona como uma referência à cinefilia e – talvez – à maneira como se pode brincar com a linguagem cinematográfica, testando possibilidades e experimentando novas maneiras de enxergar os epicentros de uma história.

Eu já havia me deparado com o cinema do diretor dessa obra, o Tiago A. Neves no peculiar e interessante longa-metragem Maças no Escuro, mas, em Outono em Gotham City, o cineasta campinense avança em sua coragem de desbravar o que é pouco explorado. Só por conta disso ganha-se pontos. No entanto, ao embolar o que poderia ser simples, o filme acaba não encontrando um norte para sua narrativa confusa, além de apresentar personagens com pouca presença marcante e fraco impacto emocional.    

Em resumo, a história gira em torno de um jovem sonhador que ama cinema e busca aprender sobre o mundo da atuação com um ator veterano, frustrado por questões familiares em seu presente. Desse encontro, aprendizagens para os dois lados se tornam inevitáveis, em uma série de situações que mesclam o humor e o drama.

Explorando o processo criativo – na frente e atrás das câmeras – o pot-pourri proposto apresenta: um ‘oi’ às épocas das videolocadoras; um narrador-personagem buscando alcançar ritmo narrativo – incluindo inversões de narradores e perspectivas – além de optar por uma espécie de esquetes explorando situações tragicômicas, conectadas a um abismo emocional familiar que parece distante a todo momento.

Outono em Gotham City, pode ser enxergado de várias formas; pode ser que alguma dessas, ao menos, entretenha parte do público. O projeto não estaciona na premissa - ainda com a dificuldade de enxergar sobre o que é essa história -, mas circula de forma pouco atraente suas ideias, em uma narrativa confusa e arrastada, que se transforma em um mar de situações isoladas em busca de algum questionamento.

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Crítica do filme: 'O Nordeste sob a Caravana Farkas' [Fest Aruanda 2025]


Nos anos 1960 e 1970, o produtor húngaro-brasileiro Thomaz Farkas reuniu realizadores de várias partes do Brasil para registrar modos de vida de diferentes lugares, em especial do nordeste brasileiro. O Nordeste sob a Caravana Farkas, longa-metragem exibido na mostra Sob o Céu Nordestino do Fest Arunda 2025, joga luz para essa jornada, dividida em alguns episódios que percorrem histórias de vaqueiros, as melodias de improviso de artistas repentistas, o conturbado cangaço e a o trabalho artesanal com o barro.

Dirigido pela dupla Arthur Lins e André Moura Lopes, esse projeto paraibano reúne uma importante pesquisa sobre esse tour, provocando uma valorização profunda de personagens e suas histórias. Do resgate das tradições à transmissão intergeracional e à afirmação identitária, passando pelas manifestações culturais de muitos lugares desconhecidos por grande parte dos brasileiros, vamos percorrendo o concreto da realidade com tentativas de paralelos com o tempo.

Uma característica que chama a atenção na narrativa é a maneira espaçada com que os subtópicos do tema são apresentados. Não há deslizes estéticos nem criações mirabolantes em relação a linguagem; porém, ao contar a história da forma proposta – mesmo com o fio condutor estabelecido desde a legenda inicial -, as pontes necessárias para maior fluidez se desmancham. O filme acaba não provocando, apenas encantando. O que é contado é super válido como registro, mas a maneira como se desenvolve a narrativa pode ser tornar maçante ao espectador.

Mesmo com esses poréns, o projeto consegue um certo equilíbrio para atingir um dos seus principais objetivos: mostrar o antes e depois, as amarras do que é histórico e o reflexo do contemporâneo nordestino. É preciso paciência aos longo dos extensos 107 minutos de projeção ao embarcar nessa viagem, tendo como ponto de partida a importância do registro - que logo se amplia para resistências, preservação de identidade atingindo, novos olhares e considerações.

 

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'Boi no Mato' e 'Teatro em Jampa Vive' [Fest Aruanda 2025]


Boi no Mato

Apresentando uma breve e, em certos pontos, eficiente ‘Sinfonia do Vaqueiro’, o curta-metragem Boi no Mato, de Ana Calline, busca uma atmosfera que transita entre sensações e cotidiano, dentro de um sentido cultural que vai da coragem à vida selvagem enraizada na cultura sertaneja. Logo, solta na tela a identidade e resistência se juntando ao pertencimento, ligados ao vínculo afetivo e às tradições de toda uma região.

A narrativa tenta estabelecer elos para prender a atenção do espectador; as imagens geram impacto, embora muitas vezes faltem algumas explicações - certos porquês - especialmente para quem não conhece sobre o tema abordado. Mesmo com esse detalhe que fragiliza a narrativa, o alcance do entorno progride, deixando margem para reflexões sobre a força da dimensão cultural, da memória e da resistência.

 


Teatro em Jampa Vive

Com mensagens diretas e uma comunicação objetiva, de finalidade essencialmente promocional, o curta-metragem Teatro em Jampa Vive, de Kelly Freire Moreira, se limita ao formato de vídeo institucional ao colocar em evidência artistas e suas trajetórias pelos palcos de João Pessoa, na Paraíba. Embora cumpra o papel de comunicar e registrar a memória artística de toda região – algo válido e importante -, o filme deixa de explorar as experimentações cinematográficas que poderiam enriquecer o projeto.

Sanzia Pessoa, Buda Lira, Sôia Lira, Vittor Blam, Fabíola Ataíde, Raymon Farias são alguns nomes que entregam depoimentos ligados à memória da cultura pessoense. Essa riqueza cultural é sentida por meio das falas desses artistas. A questão é que, nesta obra, não se fura a bolha das fragilidades narrativas que se apresentam a todo instante, com um comprometimento excessivo com uma linguagem meramente funcional. Liga-se a câmera, preenche com depoimentos – com pouca ilustração do que é dito – junta-se tudo e faz-se um filme. Muito pouco, não é?

 

 

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