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Crítica do filme: 'A Grande Inundação'


É impressionante como alguns filmes conseguem nos surpreender. Chegou há poucos dias à Netflix um longa-metragem sul-coreano que, a princípio, parecia ser mais um ‘filme-catástrofe’, daqueles onde acompanhamos uma personagem protagonista lutando por sobrevivência em meio à devastação da vida na Terra. Só que em A Grande Inundação, um plot twist muda nossas percepções sobre o que estamos vendo, nos levando para uma jornada que explora de forma profunda questões ligadas à existência.

Nada neste projeto dirigido pelo cineasta Kim Byung-woo é simples. É preciso uma total atenção, já que, quando começamos a decifrar seus mistérios, percebemos uma narrativa que induz o público a decifrar pistas, mesmo preso a um complexo roteiro que confunde em alguns momentos mas deixa rastros importantes de reflexão em cada linha. Como as surpresas dessa história precisam ser sentidas pelo público para seu impacto, tentarei ao máximo fugir dos spoilers.

A trama, ambientada em uma Seul (Coreia do Sul) dos tempos atuais, gira em torno de An-Na (Kim Da-mi Koo), uma cientista e pesquisadora que acorda em um dia com um tsunami atingindo o prédio de 30 andares onde mora com o filho, Ja In (Kwon Eun-sung). Correndo contra o tempo para encontrar uma saída em meio ao caos, seu destino se cruza com o agente de segurança Hee-jo (Park Hae-soo), que está no local para resgatá-la. Aos poucos, vamos entendemos que essa história não se resume só a isso, com algo misterioso sendo revelado aos poucos.

Dentro de sua poesia filosófica com ar existencialista, o engenhoso roteiro provoca o espectador indo na contramão de qualquer ritmo contemplativo ou mesmo silêncios profundos. Sempre com o pé no acelerador, se camufla de ‘filme-catástrofe’ para explorar as emoções através de uma experiência, um surpreendente experimento complexo ligado à inteligência artificial. Nesse universo criado, a relação maternal ganha forte destaque, tornando-se um elemento importante nas interpretações que surgem na conclusão da obra.

Do drama à ficção científica, impressiona a forma como o roteiro nos leva às suas surpresas – mesmo que tudo fique bem confuso em certos momentos. Não era um trabalho fácil deixar tudo mastigado em forma de narrativa, há deslizes. Ainda assim, o projeto cresce quando percebemos sobre o que é essa história. Os conflitos humanos, principalmente os dilemas morais, ganham a frente sobre qualquer outras questões, fugindo de explicações objetivas e deixando a emoção ser sentida antes da razão.

A Grande Inundação se joga sem medo em sua ideia de atribuir significados às relações humanas e à nossa razão de ser, além de evocar importantes debates sobre a inteligência artificial e sua influência em um mundo onde o amor é algo difícil de ser explicado, mas ainda é uma grande força genuína que move e dá sentido à nossa existência.

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