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Mostrando postagens com o rótulo Fest Aruanda 2025

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero' [Fest Aruanda 2025]

Por que estamos vivos? Existe algum momento para se entregar? Lançando a todo instante perguntas existenciais e desabafos em formas de reflexões, hipnotizando o público com palavras carregadas de múltiplos sentidos, o curta-metragem A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero, a daptado de um conto de Bruno Ribeiro , apresenta de maneira criativa suas fascinantes estranhezas e abre um convite para que os espectadores reflitam sobre a vida e a morte. Um cliente ( Luiz Carlos Vasconcelos ) divaga sobre a antítese mais famosa de todo ciclo vital. Logo, se junta a ele uma garçonete ( Ingrid Trigueiro ), e assim os dois conversam sobre questões da existência após uma mosca se entregar à morte num prato de bife com batata frita - episódio que chama a atenção de um dos personagens, esse também narrador, que quebra a quarta parede nos envolvendo em pensamentos antes distantes, mas que ganham vida quando o marasmo da existência desperta a necessidade de contemplações. Um cenário, uma fotog...

Crítica do filme: 'Vulkan' [Fest Aruanda 2025]

Fugindo de qualquer zona de conforto e se arriscando no sensorial, a co-produção Brasil e França, Vulkan , é um filme quase sem falas, que repousa suas contemplações na sensualidade e da erupção do prazer questionando sem pressa as relações convidando o público a sentir e interpretar, longe de qualquer estrutura careta de um roteiro previsível. Dirigido por Julia Zakia , esse interessante curta-metragem foi selecionado para a mostra competitiva nacional do Fest Aruanda 2025. Três personagens e a filosofia relacional do poliamor são as peças centrais desse projeto que celebra o sentimento mais poderoso que existe. Da leveza da felicidade às intensidades da intimidade e aos momentos de reflexão, somos conduzidos para refletir sobre essa dinâmica afetiva. Em cena, as atrizes brasileiras Bruna Linzmeyer e Georgette Fadel se juntam à francesa Mata Gabin, compondo um retrato poético sobre o que transborda na imprevisibilidade e no desejo ardente. Há uma certa poesia que paira sobre a ...

Crítica do filme: 'Malaika' [Fest Aruanda 2025]

O isolamento para chegar nas linhas da solidão. Um silêncio profundo no início do longa-metragem Malaika já nos transmitia a ideia de que embarcaríamos em uma jornada de deslocamento, com interpretações e sentimentos voltados ao não-pertencimento. Dirigido por André Morais , a obra aposta suas fichas em um recorte sensorial que contempla incertezas e estímulos perceptivos, mas esquece de um ponto importante: a narrativa, que se arrasta pela fabulação sem sustentar de forma satisfatória seus próprios elementos em cena. Uma jovem albina chamada Malaika chega à escola para o primeiro dia de aula em uma zona rural do interior nordestino, onde logo percebe o ambiente hostil, fruto do bullying de outros alunos. Ela vive com vive com a mãe Isabel, que trabalha para uma família da região. Aos poucos, vai inicia um processo de amadurecimento em uma jornada de autodescoberta. Sempre com a câmera próximas da protagonista, acompanhando uma movimentação de forma bem próxima, íntima, querendo p...

Crítica do filme: 'Outono em Gotham City' [Fest Aruanda 2025]

Quando olhei para o curioso título desse filme, logo pensei: o que será que me espera? Selecionado para a Mostra Competitiva Sob o Céu Nordestino, o longa-metragem paraibano Outono em Gotham City não tem nada de Batman; o título funciona como uma referência à cinefilia e – talvez – à maneira como se pode brincar com a linguagem cinematográfica, testando possibilidades e experimentando novas maneiras de enxergar os epicentros de uma história. Eu já havia me deparado com o cinema do diretor dessa obra, o Tiago A. Neves no peculiar e interessante longa-metragem Maças no Escuro , mas, em Outono em Gotham City, o cineasta campinense avança em sua coragem de desbravar o que é pouco explorado. Só por conta disso ganha-se pontos. No entanto, ao embolar o que poderia ser simples, o filme acaba não encontrando um norte para sua narrativa confusa, além de apresentar personagens com pouca presença marcante e fraco impacto emocional.       Em resumo, a história gira em torno de...

Crítica do filme: 'O Nordeste sob a Caravana Farkas' [Fest Aruanda 2025]

Nos anos 1960 e 1970, o produtor húngaro-brasileiro Thomaz Farkas reuniu realizadores de várias partes do Brasil para registrar modos de vida de diferentes lugares, em especial do nordeste brasileiro. O Nordeste sob a Caravana Farkas , longa-metragem exibido na mostra Sob o Céu Nordestino do Fest Arunda 2025, joga luz para essa jornada, dividida em alguns episódios que percorrem histórias de vaqueiros, as melodias de improviso de artistas repentistas, o conturbado cangaço e a o trabalho artesanal com o barro. Dirigido pela dupla Arthur Lins e André Moura Lopes , esse projeto paraibano reúne uma importante pesquisa sobre esse tour, provocando uma valorização profunda de personagens e suas histórias. Do resgate das tradições à transmissão intergeracional e à afirmação identitária, passando pelas manifestações culturais de muitos lugares desconhecidos por grande parte dos brasileiros, vamos percorrendo o concreto da realidade com tentativas de paralelos com o tempo. Uma característi...

'Boi no Mato' e 'Teatro em Jampa Vive' [Fest Aruanda 2025]

Boi no Mato Apresentando uma breve e, em certos pontos, eficiente ‘Sinfonia do Vaqueiro’, o curta-metragem Boi no Mato , de Ana Calline , busca uma atmosfera que transita entre sensações e cotidiano, dentro de um sentido cultural que vai da coragem à vida selvagem enraizada na cultura sertaneja. Logo, solta na tela a identidade e resistência se juntando ao pertencimento, ligados ao vínculo afetivo e às tradições de toda uma região. A narrativa tenta estabelecer elos para prender a atenção do espectador; as imagens geram impacto, embora muitas vezes faltem algumas explicações - certos porquês - especialmente para quem não conhece sobre o tema abordado. Mesmo com esse detalhe que fragiliza a narrativa, o alcance do entorno progride, deixando margem para reflexões sobre a força da dimensão cultural, da memória e da resistência.   Teatro em Jampa Vive Com mensagens diretas e uma comunicação objetiva, de finalidade essencialmente promocional, o curta-metragem Teatro em Jampa V...

Crítica do filme: 'Jacu' [Fest Aruanda 2025]

Em um exercício satisfatório – não diria inventivo – que alcança ritmo e prende a atenção, o curta-metragem Jacu , dirigido por Ramon Batista, nos convida a conhecer mais sobre a história de um fenômeno social e cultural por meio de um representante marcante de um nordeste profundo. Selecionado para a mostra competitiva ‘Sob o Céu Nordestino’ do Fest Aruanda 2025, esse é um trabalho que foge da narrativa tradicional priorizando uma experiência imersiva, construída a partir de imagens evocativas. Com a câmera ligada em lugares que mostram marcas do passado - muitas vezes de forma estática, mas ainda assim encontrando movimento - e criando simbolismos e tensões através do sensorial, o projeto costura a maneira de contar sua história através de uma cirúrgica narração que acompanha toda a projeção. Assim, percebemos uma criatividade evidente na forma como o filme se comunica com o espectador, com elementos técnicos e estéticos em destaque.     Partindo de uma casa histórica e...

Crítica do filme: 'Colmeia' [Fest Aruanda 2025]

Um dos mais interessantes curtas-metragens exibidos no Festa Aruanda 2025, selecionado para a mostra competitiva ‘Sob o Céu Nordestino’, o projeto Colmeia nos leva para um show de imagens e seus paralelos que alcançam um mar de reflexões sobre a relação entre a natureza e os seres humanos. Tudo funciona em perfeita harmonia, deixando o público de portas abertas para suas próprias interpretações. Nessa obra, impressiona a qualidade criativa para juntar elementos em cena que conseguem virar um turbo de pensamentos por meio dos contrapontos que estabelece. O trabalho, o cotidiano, as adaptações de sobrevivência – e até mesmo respingos da vida e da morte - são apresentados com diversos paralelos, numa jornada sensorial em que o som desempenha papel importante, conduzindo o espectador para o pensar a vida e o pulsar da existência.   Além disso, o filme consegue encontrar elementos criativos dentro da própria linguagem – como um travelling acelerado cujos movimentos se acoplam - cri...

Crítica do filme: 'Ato Noturno' [Fest Aruanda 2025]

Reunindo um envolvente ping-pong entre o caráter e a moral – entre o certo pra si e o que é considerado aceitável pela sociedade –, o longa-metragem Ato Noturno adentra o desejo e o fetiche, para apresentar uma espécie de tragédia grega, marcada por quedas inevitáveis provocadas pelos deslizes humanos. Dito isso, o enredo convencional, de desenvolvimento linear e caminhos fáceis de acompanhar, com um conflito central bem definido, não alcança muitas camadas e vai diretamente ao encontro sensorial, conectando-se mais ao que é sentido do que ao que é elaborado. Matias ( Gabriel Faryas ) é um jovem ator que consegue uma oportunidade num grupo famoso da cena teatral. Prestes a estrear a peça, acaba conhecendo um outro homem, Rafael ( Cirillo Luna ), por meio de um aplicativo de encontros. Com a intensidade amorosa ficando cada vez mais constante, Matias descobre que Rafael é um político em ascensão que vai concorrer ao cargo de prefeito. Dessa relação, que acompanhamos sob a perspectati...

Crítica do filme: 'No Compasso do Coração' [Fest Aruanda 2025]

Carregado muito mais pela tentativa de provocar emoções do que por um roteiro estruturado de forma equilibrada, o curta-metragem No Compasso do Coração nos leva até um recorte imersivo - e muitas vezes subjetivo - a partir de um personagem autista que encontra, nos movimentos corporais através da dança, aquilo que o liberta. Pena que a narrativa não encontra elos para uma construção coesa e articulação consistente dos acontecimentos, deixando o público refém de breves respiros traduzidos em mensagens importantes. Com uma relação próxima com a mãe, Olivio tem um verdadeiro fascínio pela expressão artística do corpo em movimento: a dança, onde encontra um oásis para expressar, através de gestos, sentimentos conflitantes. Em meio à pandemia, uma importante apresentação é cancelada, e o protagonista precisa lidar com a ansiedade. Juntando as peças desse momento delicado, ele não desiste de retomar o contato com o pulsar da vida. Dentro dessa perspectiva sensorial, cheia de percepções ...

Crítica do filme: 'Index' [Fest Aruanda 2025]

O cinema pode ser um caminho para expressar a arte e remeter questões cravadas pelo tempo, onde a beleza precisa dar as mãos ao conteúdo. No curta-metragem Index , do artista visual João Lobo , a dinâmica proposta é refletir sobre o tempo por meio de inscrições rupestres de um sítio arqueológico localizado na cidade de Ingá, município paraibano, limitando o público a um papel de observador. Mas será que isso basta para entendermos a obra por completo? Em um tiro curto de 9 minutos – com um ar psicodélico -, a imersão excessiva sobre o que não é explicado salta aos olhos: pelos céus, pela terra, colocando também a natureza em destaque. Vamos sendo conduzidos para uma viagem repleta de beleza, onde se fixam ideias isoladas em uma narrativa intraduzível, na qual o desassossego se torna constante pelas lacunas não preenchidas. Uma pena. Parece ser um filme feito para si mesmo, sem pretensões de ampliar reflexões ou mesmo debates sobre o tour pelas belezas que se apresentam. Forma e o ...

Crítica do filme: 'Ary' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo um pouquinho do Brasil por meio das peculiaridades que circulam entre as ironias e o bom humor de um dos mais conhecidos compositores das história da música brasileira, o longa-metragem Ary , dirigido por André Weller , acerta em cheio ao construir uma narrativa com camadas simbólicas, emocionais e também sociais. Misturando documentário com pitadas de ficção, somos convidados a participar como observadores de um deslumbrante tour pela capacidade inventiva de um artista idolatrado, que abraçou em suas criações a cultura brasileira. Filme de abertura da 20ª edição do Fest Aruanda 2025, o projeto acerta ao contar essa história de forma cronológica e, em uma boa sacada, traz a voz marcante de Lima Duarte como narrador em primeira pessoa. Dentro dessa estrutura narrativa fluida - ora divertida, ora empolgante -, de Minas para o Rio (e depois conquistando o exterior), vamos conhecendo os momentos-chave de sua trajetória, nos quais a vida pessoal se mistura com a profissional. ...