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Crítica do filme: 'Seu Cavalcanti'


O cinema como um complemento da realidade. Diante de uma certa necessidade de eternizar momentos através do cinema, o documentário Seu Cavalcanti, exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes em 2024, é um projeto leve, descontraído, que flerta com a necessidade de eterna liberdade personificada na figura de um senhor de mais de 90 anos. Dirigido por Leonardo Lacca, produzido por Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho, o filme se consolida como uma carta de amor através de imagens e movimentos tendo a força da saudade misturada a uma inventiva imaginação.

Logo conhecemos Seu Cavalcanti, um ex-policial, já há mais de 20 anos aposentado, morador de recife, Pernambuco. Um figuraça, capaz de momentos marcantes. Assim, ao longo de um grande recorte de sua trajetória ao lado da família, vamos acompanhando suas aventuras ao melhor estilo crônicas de um cotidiano, através de imagens que seu neto sempre fazia. Com um roteiro intimista, que conta com a casualidade em confronto com o provocado, esse vovô gente boa, visto sob um olhar afetuoso de sua família pode vir a ser um dos personagens mais marcantes desse ano no cinema brasileiro.

Intimista, buscando identidade sob as pegadas do campo emocional em seus 78 minutos de projeção, possui na montagem um de seus destaques. Um dos trunfos é sempre circular sob o discurso, nunca perdendo sua referência. Uma declaração de amor, uma necessidade constante de eternizar momentos pelo cinema, o que gira ao seu redor do protagonista. Nesse liquidificador criativo, Lacca transforma a dor de uma eterna saudade em uma caixinha de surpresas para o espectador.

Sem nunca deixar de esbarrar na lembrança, um dos fortes elementos ligados ao processo criativo, o documentário experimenta os olhares através das situações que envolvem seu protagonista. Seja na formatura da neta, na tristeza de ter o fiat uno antigo roubado, ou participando de um filme, Seu Cavalcanti aos poucos se torna novamente, assim como na vida real, o protagonista de sua própria história. Criar situações e mesclar com a surpreendente captura de um momento real é um experimento que pode confundir mas nunca deixa de refletir.



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