A euforia diante de uma possibilidade até o silêncio das incertezas e imprevisibilidades são traços marcantes de um longa-metragem perturbador que nos leva até a mente de uma mãe de primeira viagem. Em Mother’s Baby caminhamos na linha tênue entre o drama e o suspense, presenciando de forma intensa e profunda a maternidade sob uma perspectiva imersiva da depressão pós-parto.
Dirigido pela cineasta austríaca Johanna Moder, a obra encontra caminhos para se expandir por meio
de uma narrativa com recheios de ambiguidades, que usa o silêncio como aliado
para impulsionar sensações da intimidade emocional de uma protagonista em
conflito. Um trabalho de direção impressionante, com ritmo dosado, causando
reflexões a todo instante.
Julia (Marie
Leuenberger) é uma maestrina bem-sucedida, que vive em uma linda cobertura
e está em um relacionamento saudável ao lado do companheiro, Georg (Hans Löw). Eles resolvem tentar ter um
filho e começam um tratamento em uma clínica de fertilidade e, algum tempo
depois, ela engravida. Após o nascimento - que passou por um parto com algumas
questões -, Julia se vê perdida entregue às incertezas que a cercam.
Na maneira de contar essa história, percebemos também um
ganho narrativo importante com elementos de luzes contrastando-se em alguns
ambientes, reforçando emoções e elevando a tensão. São adições a um jogo de
contrastes que propõe dualidades de maneira equilibrada, culminando num
desfecho com seus simbolismos e interpretações.
O medo e a culpa aproximam o público, a todo instante, da
personagem, completamente fragilizada e indefesa sobre os próprios pensamentos.
Sufocando dentro da própria mente, causa reflexos no seu relacionamento com
amigos e o marido. O inesperado é um elemento que se acopla, tendendo aqui ao
suspense muito mais do que ao drama e, de alguma forma, também humanizando uma
experiência que pode-se chegar em muitos paralelos com realidades do lado de cá
da tela.
Nesse impactante projeto, não há espaço para o sobrenatural:
é um filme sobre a realidade, sobre as peças que a mente nos prega. Entre o
planejamento e o que se espera, entre a expectativa e o que se apresenta, há
uma longa estrada - e isso é um dos combustíveis dessa trama, que parte com
intensidade rumo aos abalos psicológicos que transitam entre a necessidade do
concreto e a iminência do descontrole.

