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Crítica do filme: 'Nocaute'

O drama é uma vida da qual se eliminaram os momentos aborrecidos. Depois de diversos trabalhos na telona, sempre (ou quase sempre) buscando reproduzir histórias dramáticas profundas que focam exatamente na escolha dos protagonistas em seus destinos, o cineasta norte-americano Antoine Fuqua volta ao tema, desta vez para reproduzir uma história que muito se parece com o drama de Clint Eastwood, Menina de Ouro, mas que ao longo dos 124 minutos não consegue ter luz própria. Nocaute é um filme interessante se formos analisar a mais uma ótima atuação de Jake Gyllenhaal mas se torna logo desinteressante por ter momentos de clímax pouco satisfatórios e acabar entrando no terreno perigoso dos clichês. 

Na trama, conhecemos o famoso boxeador Billy Hope (Jake Gyllenhaal) um homem que vive intensamente sua fama mas sem nunca esquecer de ser um devoto por sua linda família. Explosivo e sem muito instrução, certo dia se envolve em uma briga tola com um provável futuro adversário e nas consequências desse ato acaba perdendo sua empresária, amiga, batalhadora e esposa Maurren (Rachel McAdams) tragicamente. A partir disso, começa a ver sua carreira ir por ralo abaixo até que vai parar em uma modesta academia em um subúrbio norte-americano e começa a tentar reconquistar sua carreira, a guarda da filha e acender uma luz no fim do túnel que ele mesmo cavou. 

Nocaute é uma história sobre superação, muito parecida com outros filmes, um já até citado acima. O roteiro é bem honesto e a construção do personagem principal muito bem feita por Gyllenhaal. O andamento da história que vai se tornando sonolenta por sempre criar expectativas e acabar não superando as mesmas. É um avião que não pista de pouso não consegue decolar. O foco principal é mal distribuído, as subtramas foram pouco exploradas. Quando entra na história o personagem de Forest Whitaker, Tick Wills, o longa-metragem volta a ter uma direção mas logo nos minutos seguintes se perde. Pode ter havido interferência, a sensação é que houve uma mexida em algumas partes para tornar a história mais com cara de filme comercial, um erro que nós cinéfilos não perdoamos e que muitos produtores adoram executar.   

Outro fator que chama a atenção negativamente são as cenas de luta de boxe. Longe de sermos especialista nessa arte que Éder Jofre e Popó dominam mas ao longo dessas sequências de ação percebemos uma falta de sintonia. Não passa verdade essas cenas. Um Rocky Balboa teria feito muito mais em menos minutos. Se Stallone assistir a esse filme, acho que terá essa impressão também. Mais o campeão em incômodo desse filme é a velha, chata, e quem sabe algum dia obsoleta arte dos clichês. Não é preciso nem enumerar, são claros e evidentes durante toda a projeção. Poxa, porque não podemos tentar inovar, ser mais criativos? A história, Jake e sua atuação, o espectador, mereciam bem mais. 


Mesmo com uma atuação de gala do excelente ator que faz o protagonista (ele vai ganhar o Oscar e muitos outros prêmios ao longo da carreira), nesse Menina de Ouro com um protagonista masculino, faltou talvez um pouco da força cênica de ‘Warriors’ (um filme que absurdamente nunca foi lançado nos cinemas brasileiros) e um pouco do tom dramático bem executado que encontramos perfeitamente em Hurricane.  

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