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E aí, querido cinéfilo?! - Entrevista #506 - Larissa Canavarros


O que seria de nós sonhadores sem o cinema? A sétima arte tem poderes mais potentes do que qualquer superman, nos teletransporta para emoções, situações, onde conseguimos lapidar nossa maneira de enxergar o mundo através da ótica exposta de pessoas diferentes. Por isso, para qualquer um que ama cinema, conversar sobre curiosidades, gostos e situações engraçadas/inusitadas são sempre uma delícia, conhecer amigos cinéfilos através da grande rede (principalmente) faz o mundo ter mais sentido e a constatação de que não estamos sozinhos quando pensamos nesse grande amor que temos pelo cinema.


Nossa entrevistada de hoje é cinéfila, de Cuiabá (Mato Grosso). Larissa Canavarros tem 22 anos. Aluna da primeira turma do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso, atualmente no 6º semestre. Participou do júri oficial da 17ª Mostra de Audiovisual Universitário e Independente da América Latina (MAUAL) do Cineclube Coxiponés da UFMT, em 2018, e em 2019 integrou a Comissão de Seleção de Curtas-metragens da 18ª edição da mostra. Além de ser uma das proponentes do projeto “Retrospectiva MAUAL 18 anos”, coordenou exibições cineclubistas através da REC-MT (Rede Cineclubista de Mato Grosso), também já tendo realizado experimentos audiovisuais, incluindo a produção e direção de vinhetas para a MAUAL e um curta-metragem.

 

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Por aqui, até onde eu saiba, só temos as salas multiplex para cinema comercial. De todas as redes, a que mais me agradava – quando ainda frequentava meses antes da pandemia – era a Cinemark. Era a única com a qual eu poderia contar para assistir a alguns filmes mais fora do eixo, ainda que os horários fossem problemáticos. Me lembro que houve uma época em que a maior diversidade de exibição era com eles.

 

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

Talvez Lisbela e o Prisioneiro (2003). Eu era pequena e deve ter sido um dos primeiros filmes nacionais com que tive contato. O simples fato de ser em minha língua nativa era um diferencial a mais; as atuações me encantavam (alguns dos quais eu já conhecia pelas telenovelas), a trilha sonora era viciante. Provavelmente foi o “gostinho brasileiro” que me fez pensar em como aquilo era diferente do que eu estava habituada a consumir.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

Christopher Nolan, e meu favorito provavelmente é Amnésia (2000);

 

4) Qual seu filme nacional favorito e porquê?

Difícil escolher um só, fico entre O Auto da Compadecida (1999) e Assalto ao Trem Pagador (1962). O primeiro marcou minha infância, me lembro de ver ainda em VHS, e ainda é uma espécie de rito sagrado na minha família, sempre que encontramos passando, ou bate uma saudade, assistimos. O segundo me foi apresentado no primeiro semestre da faculdade e eu nunca esqueci; apaixonei pela atuação do Grande Otelo ali também.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

Pra ser sincera, eu não me considero muito cinéfila, no que tange o acompanhar de filmes. Mas parando pra pensar, acredito que vai muito além de apenas apreciar filmes e assistir o maior número de títulos possível; é uma questão de paixão, algo que te move, te ensina. Uma espécie de força externa que te tira da inércia.

 

6) Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

Não. As programações são feitas por pessoas que entendem de mercado, do que rende mais. Elas visam o lucro, e nem todo cinema é voltado para o meio comercial. Isso explica, por exemplo, o porquê de termos diversas salas em um mesmo complexo exibindo os mesmos blockbusters, enquanto outras obras ficam de fora do ciclo de exibição.

 

7) Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Acredito que não. Ir ao cinema é mais do que simplesmente assistir ao filme: é um evento social. Sair com os amigos/companheiros, ou mesmo sozinh@, para acompanhar um enredo, em uma sala escura, cercada por estranhos, por algumas horas ainda move uma série de sentimentos e motivações que o streaming, por exemplo, não consegue proporcionar.

 

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Eu sempre indico A Onda (2009), um filme alemão do diretor Dennis Gansel, que vi em sala de aula, ainda no ensino médio. Acho importantíssimo o enredo dele e a forma como é trabalhado.

 

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

É uma resposta complicada. Eu particularmente não fui ao cinema desde o início da pandemia, e mesmo agora que já tomei a primeira dose, não me sinto segura o suficiente. Por um lado é um jeito muito fácil de espalhar o vírus: são cadeiras compartilhadas, máscaras baixadas ou completamente ignoradas com a justificativa de estar comendo, etc. Em contrapartida, existem funcionários que dependem dessa movimentação de clientes para garantir seu sustento, porque a realidade é que as leis de auxílio emergencial não chegam para todos e muitos acabam desempregados. Em Cuiabá, as salas estavam exibindo apenas uma sessão por dia para dar tempo de higienizar as poltronas, então acredito que, apesar de não ser um serviço essencial, não há tanto problema, desde que os protocolos de biossegurança sejam realmente respeitados.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

Acredito que o cinema em si entrou em uma espécie de recesso. O audiovisual se voltou para outras formas de produção (seriada, televisiva), e isso não necessariamente é algo ruim. Mas de um modo geral, falta investimento. Não apenas financeiro para a produção, mas desde a ordem acadêmica, sabe? A formação do profissional já é precária e aos trancos e barrancos se chega a algum lugar. Eu imagino como uma espécie de efeito borboleta: se existe investimento na educação, os traços, os moldes, dos profissionais se alteram e consequentemente o produto final. Claro que é preciso também a garantia de uma janela de exibição de qualidade, então os incentivos talvez ainda sejam os maiores impasses para uma produção contínua, por exemplo.

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Fernanda Montenegro.

 

12) Defina cinema com uma frase:

Arte em luz, som e movimento.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema:

Não me lembro bem o que era, mas um comentário inocente de uma criança na sessão de Rei Leão (2019) fez o público rir e amenizou o clima triste na famosa cena da morte do Rei Mufasa.

 

14) Defina 'Cinderela Baiana' em poucas palavras...

Nunca vi.

 

15) Muitos diretores de cinema não são cinéfilos. Você acha que para dirigir um filme um cineasta precisa ser cinéfilo?

Depende do que cada um acredita por ser cinefilia, se for algo como o que eu acredito, então sim.

 

16) Qual o pior filme que você viu na vida?

Hardcore Henry (2015).

 

17) Qual seu documentário preferido?

Jogo de Cena (2007), do Eduardo Coutinho.

 

18) Você já bateu palmas para um filme ao final de uma sessão?  

Sim, da última vez foi quando vi Bacurau (2019).

 

19) Qual o melhor filme com Nicolas Cage que você viu?

Cidade dos Anjos (1998).

 

20) Qual site de cinema você mais lê pela internet?

IndieWire.

 

21) Qual streaming disponível no Brasil você mais assiste filmes?

Amazon Prime e HBO Max.

 

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