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Crítica do filme: 'O Auto da Compadecida'


A malandragem de uma boa história. Divertido, empolgante, com personagens inesquecíveis que aborda a cultura popular, a tradição religiosa, o amor no mais puro sentido desse sentimento, O Auto da Compadecida foi lançado nos cinemas brasileiros em setembro do ano 2000 dirigido por Guel Arraes. Baseado em um clássico homônimo da cultura nordestina brasileira escrito por Ariano Suassuna, além de outros dois contos do famoso escritor, O Santo e a Porca e Torturas de um Coração, todos de meados da década de 50, o filme foi um grande sucesso de público e crítica levando mais de 2 milhões de pessoas às salas de cinema de todo o Brasil.


Na trama, ambientado na década de 30 no nordeste brasileiro, conhecemos dois amigos inseparáveis que se metem em diversas confusões próximo à região de Taperoá, na Paraíba. Chicó (Selton Mello) e João Grilo (Matheus Nachtergaele) são dois jovens, pobres, que fazem vários bicos em busca de suas próprias sobrevivências. Conhecendo bem a região e seus moradores, envolvem a maioria desses em diversas situações que mexem com a fé, com as tradições, com a ambição, com o desejo. O Auto da Compadecida é, sem dúvidas, um clássico do cinema brasileiro. Uma parte do texto, antes virara peça de teatro, tendo sua primeira exibição sendo feita em 1956 em Recife, em forma de auto, em três atos. Grandes artistas já encenaram os saudosos personagens, Agildo Ribeiro por exemplo foi um dos grandes intérpretes de João Grilo nos palcos.


O elenco é fantástico. Temos Selton Mello e Matheus Nachtergaele, nos papeis principais, temos Luis Mello de Diabo, Fernanda Montenegro de Compadecida (a própria Nossa Senhora), Marco Nanini como Severino (o perturbado Cangaceiro), Lima Duarte e Rogério Cardoso nos papéis religiosos, Paulo Goulart como Major Antônio Morais, pai de Rosinha, interpretada por Virginia Cavendish. Tem também os ótimos Denise Fraga e Diogo Vilela que fazem um casal, ela uma assanhada dona de casa ele o padeiro da região.


Da cultura à boa história. Assistindo a esse belo filme nós rimos, nos emocionamos, conhecemos melhor toda uma cultura de um nordeste criativo, das origens do cordel, dos traços do barroco, da importância religiosa e as devoções. Um dos méritos do roteiro, que teve surpervisão de Suassuna, é encontrar uma forma alegre e descontraída de mostrar o retrato de uma vida dura de muitos dentro de uma sugestiva magia e criatividade da cultura brasileira. Mas não fica apenas em referências daqui, já que até há traços de Decamerão, de Boccaccio, no filme. 


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