Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Cidade de Asfalto'


Focado nas angústias e verdades de realidades vistas pelo cotidiano de um jovem que entra para o corpo de oficiais de emergência de uma das mais famosas cidades do planeta, Cidade de Asfalto é um compilado de situações que colocam em xeque a sanidade mental, a ética, e as incertezas sobre a moral. Nessa linha tênue entre o que é certo e o que dá pra fazer, o protagonista enfrenta uma incansável crise existencial buscando galhos de esperança através das referências que encontra pelo caminho. Tudo isso é composto por uma narrativa visceral, nua e crua, que também leva à reflexões.

Na trama conhecemos Ollie (Tye Sheridan), um esforçado novato na função de paramédico que se dedica também aos estudos para uma vida melhor. No seu ofício, no complexo turno da noite, logo de cara enfrenta o caos das emoções que chegam forte por um cotidiano repleto de dor e emoções conflitantes. Aos poucos busca na sua única referência, Rut (Sean Penn), um experiente na função, algum sentido para seu presente. Mas nada será tão simples.

Indicado à Palma de Ouro em Cannes no ano de 2023, esse projeto busca sem sutilezas nos levar para uma situação de luta pela sobrevivência através do psicológico conturbado de um alguém sem diretriz. Partindo desse ponto, logo em subcamadas, percebemos uma imersão no que gira ao redor do protagonista. Um relacionamento distante logo afetado por seu trabalho, um parceiro de turno que de referência vira um ponto de interrogação pela absorção do caos na própria vida, as dificuldades em sobreviver quando tudo desmorona. Essa visão pessimista sobre os desandares urbanos se torna o alicerce de um roteiro que recorta situações para preencher o todo, uma fórmula que pode agradar ou desagradar, sem meio termo.

Dirigido pelo cineasta francês Jean-Stéphane Sauvaire, Cidade de Asfalto joga luz para funções com forte carga emocional, aqui com os holofotes apontados para os paramédicos. Essa profissão tão explorada no mundo dos projetos seriados, ganha nesse longa-metragem algo mais ‘pés no chão’, através de verdades de noites e mais noites no combate para salvar vidas mas abrindo brechas para reflexões sobre os contextos. Guiados pelo ótimo elenco, que além de Sheridan e Penn, tem a ótima Kali Reis e uma participação especial de Mike Tyson, o filme busca as verdades da rua através de heróis que nunca deixam de estar de frente para o que der e vier.


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...