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Crítica do filme: 'Sagrado' [Festival É Tudo Verdade 2026]


Tudo começa pela educação. Um dos vencedores do Festival É Tudo Verdade 2026, o longa-metragem Sagrado abre seu importante leque de reflexões sobre a educação em nosso país. Aqui, ela é representada por uma escola fruto da luta popular, preenchendo a tela com temas sociais relevantes, a partir de um olhar de dentro pra fora - de dedicados profissionais da educação pública brasileira.

Com mais de 500 alunos, o colégio municipal Sagrado Coração de Jesus, é o reflexo de uma história ampla de luta e conquista do povo. Em 1989, nesse núcleo habitacional onde está localizada a escola, centenas de famílias ocuparam a região, dando início a uma das mais marcantes lutas populares pelo direito à moradia.

Ao longo do tempo, uma transformação social foi vista nesse local, na região de Diadema, incluindo a criação de um importante ponto de ensino. Antes conhecido como Buraco do Gazuza, após a municipalização da região, ganhou um novo nome que permanece até hoje, trazendo uma ressignificação a esse lugar. Os protagonistas dessa história são pessoas que vivem o cotidiano desse espaço, numa luta incessante pela alfabetização.

A narrativa intimista coloca seu alicerce em um olhar próximo sobre professoras e professores, cozinheiras, inspetores desse centro de ensino. Questões comportamentais e como os esses profissionais lidam com o cotidiano repletos de desafios educacionais - que envolvem o ensino propriamente dito e questões fora dali -, vão ganhando movimentos em tela, somadas a um olhar da criançada, sem rostos em tela, mas com uma marcante participação por meio de desenhos, situações, expressões de identidade e alguns áudios.  

Essa região da cidade de Diadema também se torna um personagem, com contextos construídos a partir de memórias e histórias sobre o lugar. Nesse panorama amplo - que não avança em profundas camadas, mas acena à situação de um passado de apenas décadas atrás -, questões sobre a terra, assim como um panorama político e social da região, aos poucos, vão se juntando ao campo das reflexões. Através de diversos relatos espontâneos, que retratam situações sociais de nosso país, vamos montando paralelos importantes, que logo chegam até pensamentos importantes sobre a educação no Brasil.

Sagrado, escrito e dirigido por Alice Riff, consegue, em cerca de 90 minutos, um panorama social impactante, no qual histórias do passado da região se intercalam com o presente da educação. Essa trajetória de luta e conquista do povo, contada através da vivência de profissionais da educação em sua missão pelo ensinar, é um dos documentários que vão marcar o audiovisual brasileiro em 2026.

 

 

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