Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Blitz'


Com chances de beliscar alguma indicação ao próximo Oscar, Blitz parte de um laço que se rompe abruptamente e nos leva até o olhar de uma criança ao terror de um cotidiano de conflitos em plena segunda guerra mundial. Através de uma sensibilidade louvável, o projeto atravessa críticas sociais importantes. A compaixão e respeito tendo que ser defendidos, as barreiras do forte preconceito, não são esquecidos. Flashbacks apoiam a narrativa dando complemento para lacunas de um sonhar, de um pensar, de um adaptar-se a um viver.

Ambientado durante o primeiro ano da segunda guerra mundial, acompanhamos Rita (Saoirse Ronan em mais uma bela atuação), uma operária de munições, e sua escolha difícil de enviar seu filho George (Elliott Heffernan) para ficar em segurança num lugar longe dos conflitos mais intensos. Só que o garoto durante o caminho resolve voltar pra casa e embarca em uma jornada dolorosa onde acaba entendendo melhor todo o contexto que vive.

Blitz, o título, é uma referência à ‘Blitzkrieg’, que consistiu nos intensos bombardeios feitos pela força aérea alemã em ataques surpresas de armas combinadas, durante a segunda guerra mundial, em uma Londres onde mais de um milhão de pessoas precisaram serem evacuadas do lugar. Dentro desse contexto doloroso – bem explicado logo nos créditos iniciais - a construção dos personagens é feita de forma dinâmica, em um gancho após o outro, culminando em uma emocionante jornada de coragem e sorte.

Como seguir em frente em meio ao desespero de um presente sem soluções? O olhar da criança a uma zona de conflitos, a visão da mãe e a dor do desencontro são os elementos que sustentam as duas horas de projeção. Guiados também por uma maravilhosa trilha sonora assinada por Hans Zimmer, o discurso encontra a narrativa rapidamente tendo os rastros de tragédias que não se desgrudam, e os de esperança ficando por vezes perdido.

O ser humano e todas suas facetas também dão as caras por aqui, ampliado por um olhar profundo para os que viveram atingidos pela Guerra. As mulheres e suas contribuições ao momento do país, as indecisões do governo sobre os abrigos possíveis, os que preferem viver à margem roubado de quem perdeu tudo, há camadas que exploram várias dessas situações.

Em sua jornada de descobertas, o protagonista encontra a referência no respeito de um gentil soldado, mas também o desamor de bandidos agindo em meio ao caos. Além disso, o preconceito antes e durante o conflito armado são marcas na vida de um jovem que entra em uma maturidade precoce, dentro de uma necessidade apenas de sobreviver. Esse projeto é uma análise ampla de uma virada de chave na vida de um jovem, do lúdico ao real.   

Dirigido pelo excelente cineasta britânico Steve McQueen, Blitz, disponível no catálogo da Apple Tv Plus, tem a cara do Oscar! É provável alguma indicação.


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Criaturas do Farol'

As dúvidas sobre o canto da sereia. Se perdendo em alguns momentos entre os achismos que surgem naturalmente numa relação desconfiada entre duas pessoas que nunca se viram, o longa-metragem Criaturas do Farol é um peculiar suspense psicológico com poucas perguntas e também poucas respostas. O roteiro se fortalece em diálogos que nos guiam para uma jornada emocional e paranoias que prendem a atenção na maior parte do tempo mas não chegam a empolgar. Pensando em realizar um objetivo náutico, que remete lembranças ao pai e apoiada pelo avô, a jovem Emily ( Julia Goldani Telles ) parte com seu veleiro rumo às infinidades dos oceanos. Chegando no sul do pacífico, a embarcação é atingida por uma tempestade e acaba indo parar numa ilha onde é resgatada pelo faroleiro Ismael ( Demián Bichir ). Logo essa relação de gratidão passará por enormes desconfianças. Como contar uma história que está em uma bolha no campo das suposições? A tensão por meio do chocalhar psicológico se torna um corpul...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...