Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Monsieur Aznavour'


A incessante busca pelos aplausos. Com o enorme desafio de contar em cerca de duas horas momentos marcantes de um dos mais populares e longevos cantores franceses da história, a dupla Mehdi Idir e Grand Corps Malade opta pelas pinceladas em atos bem divididos trazendo ao público fragmentos da vida de Shahnour Vaghinagh Aznavourian, também conhecido como Charles Aznavour. E para dar vida a esse ícone musical, o escolhido foi o ator Tahar Rahim que brilha com uma atuação maravilhosa e uma intensidade nítida do início ao fim. Não há dúvidas que esse era o nome certo para o papel.

Em Monsieur Aznavour somos testemunhas da reunião de um apanhado de histórias reais que moldaram a vida pessoal e carreira do conhecido artista das multidões. Passando por inúmeros anos, desde a infância com a instabilidade financeira do pais refugiados, percorrendo os horrores da guerra e também seu lado mulherengo, no longa-metragem selecionado para a 1ª edição do Festival de Cinema Europeu Imovision vemos uma história com altos e baixos de uma trajetória guiada pela força de canções românticas imortalizadas.

O roteiro busca um retrato amplo mas com poucos contextos, fato que deixa lacunas com a falta de profundidade. Mesmo com uma narrativa impulsionada por um dinamismo que funciona, derrapa no bumerangue de informações que envolvem ambições conflitantes e dilemas. Ao apresentar uma personalidade melancólica, um eterno insatisfeito e até certo ponto distante dos laços familiares, vemos de maneira simplória um homem atrás dos seus sonhos, vivendo intensamente a boemia e aproveitando cada lição dos encontros que o destino lhe reservou.

Para os amantes da música europeia, momentos marcantes são reservados. O convívio e aprendizagem com Edith Piaf (Marie-Julie Baup) ganham ótimas cenas dentro do projeto. Ela foi um elemento impulsionador de sua carreira ao levá-lo para abrir seus shows na França e em outros lugares do mundo. Junto a esse ponto, seu convívio e conflitos com o pianista Pierre Roche (Bastien Bouillon) se tornam os momentos de maior destaque. Sobre esse último citado, formou um duo com o protagonista que foi praticamente o início de tudo para Aznavour.

O processo criativo, fator importante dessa caminhada do cantor e compositor que escreveu mais de 800 canções e vendeu cerca de 200 milhões de álbum em todo o mundo, é aqui aliado a sua eterna luta para provar seu talento. Não passando a mão na cabeça do elemento central dessa cinebiografia, é apresentado visões de fatos que culminam numa personalidade workholic e muitas vezes insensível. Será isso algo que possa chocar os fãs?   

Monsieur Aznavour teve quatro indicações ao Prêmio César (o Oscar Francês) e deve chegar ao cinemas brasileiros ainda em 2025.


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Criaturas do Farol'

As dúvidas sobre o canto da sereia. Se perdendo em alguns momentos entre os achismos que surgem naturalmente numa relação desconfiada entre duas pessoas que nunca se viram, o longa-metragem Criaturas do Farol é um peculiar suspense psicológico com poucas perguntas e também poucas respostas. O roteiro se fortalece em diálogos que nos guiam para uma jornada emocional e paranoias que prendem a atenção na maior parte do tempo mas não chegam a empolgar. Pensando em realizar um objetivo náutico, que remete lembranças ao pai e apoiada pelo avô, a jovem Emily ( Julia Goldani Telles ) parte com seu veleiro rumo às infinidades dos oceanos. Chegando no sul do pacífico, a embarcação é atingida por uma tempestade e acaba indo parar numa ilha onde é resgatada pelo faroleiro Ismael ( Demián Bichir ). Logo essa relação de gratidão passará por enormes desconfianças. Como contar uma história que está em uma bolha no campo das suposições? A tensão por meio do chocalhar psicológico se torna um corpul...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...