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Crítica do filme - 'W.E – O Romance do Século'

O Concerto desgovernado de Madonna

A cantora e atriz Madonna, ícone do pop mundial, volta às telonas de todo o mundo com o seu segundo trabalho como diretora, “W.E – O Romance do Século”. Apostando no rosto angelical e o talento da atriz australiana Abbie Cornish (do excelente “Candy”, filme que contracena com Heath Ledger), o filme faz alguns paralelos em conturbadas relações ao longo do tempo. O foco recai sobre dois ‘W’ e dois ‘E’ que possuem algumas características semelhantes. Pena que o roteiro confuso, a trilha desgovernada e a direção não muito competente, comprometem muito a história.

Na trama, somos apresentados ao relacionamento entre o Edward VIII (interpretado por James D'Arcy) e a americana casada Wallis Simpson (Andrea Riseborough) e como a parte feminina desse casal influenciou um romance de nossa época, entre uma mulher casada (Wally Winthrop, papel de Abbie Cornish) e um segurança russo (Oscar Isaac interpreta esse personagem) de uma galeria de artes prestigiada.

O filme apresenta um começo muito difícil para o público se conectar, é muita informação em vários períodos de tempo, poderia e deveria ser mais gradativa o desenrolar da trama. O longa começa a ficar mais simpático ao espectador quando começa a focar na relação entre o segurança e a esposa rejeitada, W.E nos tempos atuais.

O casal W.E dos tempos passados contribuem com muitas cenas semelhantes ao casal W.E dos nossos tempos para que ocorra o paralelismo necessário para lermos toda a história através dos olhos de Wally, só que isso ocorre de maneira muito desorganizada.

Wally Winthrop, a ‘W’ de nosso tempo, é onde o filme tenta se sustentar. Sonhadora e completamente fanática pela história de Wallis Simpson, Wally começa a reproduzir muito do que aconteceu com essa mulher. Dificuldade no relacionamento, uma certa depressão, um novo amor, vemos tudo isso em duas perspectivas. Aos poucos a loucura vai tomando conta da personagem principal, uma personificação interna acontece com direito a tapas na cara de fantasmas (endereçada à protagonista), compras de mais de 11 mil dólares em um leilão, com objetos de sua referência obsessiva, também deixam a certeza do fanatismo da personagem. O segurança russo fica viciado nessa bela mulher, tem algumas cenas desse personagem que parecem muito com aquelas de Sharon Stone e William Baldwin em “Invasão de Privacidade”, olhando a tentação via câmeras de segurança.
A trilha não dá um descanso nos primeiros minutos do filme, além de maçante (você se sente em um concerto todo desgovernado) acaba induzindo à um clímax que simplesmente ainda não está formado. Quem assina a trilha do longa é o polonês Abel Korzeniowski (que havia feito um ótimo trabalho no filme de Tom Ford, “Direito de Amar”).

Algumas cenas esquisitas marcam esse novo trabalho de Madonna. Durante a fita, temos um leilão mostrado, nunca vi tanta felicidade num evento desses, muito exagero nessa cena. Em outra, o par de Wallis pede para a mesma dançar: ela liga o som, faz pose de dançarina profissional e solta o corpo ao som de uma música agitada (juro que nessa hora pensei: Vão tocar “Like a Virgin”!)  

Após levantar esses aspectos, resumimos que Madonna acaba fazendo um trabalho irregular e com muita influência da trilha na história, aí perguntamos: Era para ser um filme ou um concerto?

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