Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Cicatrizes'


Nunca desconfiem de um sentimento maternal. Contra tudo e contra todos, perdida em uma solitária e dura não compreensão de seus sentimentos em uma busca improvável a um filho que fora lhe roubado a 18 anos, assim podemos definir a saga da forte protagonista desse surpreendente e impactante filme sérvio chamado Cicatrizes (Savovi, no original). Exibido no Festival de Berlim no ano de 2019, dirigido por Miroslav Terzic, com roteiro assinado por Elma Tataragic, o longa-metragem é inspirado em fatos reais e conta com uma atuação magistral da atriz Snezana Bogdanovic. O filme está disponível até o dia 19/03/2021 gratuitamente na excelente plataforma de streaming do Sesc Digital (https://sesc.digital/home).


Na trama, conhecemos a costureira, amargurada, Ana (Snezana Bogdanovic) que vive dias pacatos e distantes em pensamentos ao lado do marido Jovan (Marko Bacovic), um segurança do turno da madrugada em empresa, e da filha universitária Ivana (Jovana Stojiljkovic). Ana persegue faz quase duas décadas alguma informação sobre o filho que lhe fora tirado 18 anos atrás na maternidade. Sozinha nessa busca, precisa enfrentar o olhar desconfiado de todos ao seu redor até que uma luz surge em meio a esse caos emocional.


O roteiro possui um clima tenso modelado por uma amargura constante. Ana é de poucas falas, diz muito pelo olhar, percebemos uma agonia constante nos inúmeros minutos que bate perna pela cidade sempre na esperança de alguma informação que a possa colocar em um certo rumo. Sofre represálias da polícia, distanciamento de funcionários que poderiam ajudá-la dentro do hospital onde acontecera o ocorrido, e também da própria família, inclusive, nesse último caso colocando o casamento em risco.


Quando a esperança surge, o filme cresce, toma um novo ritmo e os contrapontos são colocados como paralelos, uma espécie de antes e depois, quando cai a ficha para muitos, mas sem esquecer que a mãe sempre esteve à frente da esperança. Há muito dito nas entrelinhas, principalmente pelo fato de ser baseado em fatos reais em uma região que passou por diversas transformações ao longo das últimas décadas. Um filme impactante. Merece ser visto.

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...