Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Visão de uma Borboleta'


Exibido na edição desse ano da Mostra Um Certo Olhar em Cannes, um dos filmes mais impactantes da edição 2022 do Festival do Rio de cinema, o longa-metragem ucraniano dirigido por Maksym Nakonechnyi, Visão de uma Borboleta, nos mostra a história de uma mulher que sofreu como prisioneira de guerra durante meses e luta para se readaptar ao convívio do noivo e da família. Um recorte impressionante sobre os horrores de uma guerra, assunto mais do que atual, já que o longa aborda as tensas relações em uma região no extremo leste da Ucrânia e sudoeste da Rússia.


Na trama, conhecemos Lilya (Rita Burkovska) uma oficial do batalhão voluntário de Bakhmut, especialista em reconhecimento aéreo, que acaba sendo presa por forças militares à favor da Rússia e passa alguns meses em cativeiro. Após uma negociação, ela é libertada. Aos poucos busca o recomeço da sua vida perto das pessoas que ama, só que ela descobre estar grávida após ser vítima de estupro no período em que estava presa. A partir daí, uma série de situações à levarão de frente para escolhas que vão influenciar todos ao seu redor.


No retorno para casa, é rotulada por alguns como heroína, por outros como vítima. As antíteses encontradas aqui acabam sendo o que aparecem na trajetória da protagonista em busca da redescoberta das relações com quem ama. As marcas da violência expostas no corpo deixam implícitos torturas físicas e emocionais, algo difícil de lidar, principalmente em uma região consumida pela guerra. Os dilemas e principalmente a questão da maternidade se misturam em um entrelaçado com a tristeza onde fica notório que uma série de tragédias vão se suceder. Não há como ter final feliz, não importa o caminho que seguir. A dor da personagem nessas escolhas acaba sendo também sua fortaleza, seu necessário ponto de uma solitude que se torna incontrolável.


O longa-metragem, primeiro da carreira de Maksym Nakonechnyi, também abre espaço para  os multirecortes sobre os pensamentos da população ucraniana em conflito em uma região explosiva, repleta de tensão, na muito falada Donbass. Com a guerra entre Ucrânia e Rússia ainda em andamento, um filme como Visão de uma Borboleta traz uma importante reflexão sobre os tempos atuais e muitos traumas que nunca serão deixados pelo caminho.



Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...