Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Sharper - Uma Vida de Trapaças'

 


Nada é o que parece ser. Depois de dirigir alguns episódios de badalados seriados da atualidade, como 11 capítulos da aclamada série da Netflix The Crown, além de três do seriado Andor da Disney Plus, o cineasta britânico Benjamin Caron debuta na direção de um longa-metragem no engenhoso filme disponível na Apple TV Plus Sharper - Uma Vida de Trapaças. Escrito pela dupla Brian Gatewood e Alessandro Tanaka o projeto nos apresenta o confronto desleal entre a oportunidade e a fraqueza (também visto aqui como ingenuidade) além de uma visão pessimista sobre as relações humanas. Hipnotizante em muito momentos, os arcos são definidos pelas histórias individuais dos personagens, os profundos pontos de vistas em relação ao conflito principal que comanda as ações. Pena que na hora do 10, o desfecho fica bem óbvio, como se as surpresas que tanto nos surpreendem percam força pois vamos conhecemos os personagens e sabemos do que podem ser capaz.


Na trama, conhecemos o jovem Tom (Justice Smith), um amante de livros, que possui uma simpática livraria no centro de uma grande cidade norte-americana. Certo dia, entra pela porta do local uma jovem doutoranda chamada Sandra (Briana Middleton) e logo os dois se apaixonam perdidamente. Certo dia, Sandra, desesperada, avisa Tom que precisa de 350 mil dólares e ele, um herdeiro do milionário Richard (John Lithgow), logo consegue a quantia. Só que Sandra some, e Tom percebe que caiu em um golpe. Paralelo a isso, vamos conhecendo Max (Sebastian Stan) e Madeline (Julianne Moore), um dupla de trambiqueiros que vão nos mostrar os lados desse golpe aplicado por Sandra.  


Ao lado da trilha sonora afiada, a brilhante narrativa (a maneira como a história é contada) tem grandes momentos. A escolha pelos arcos na visão de cada personagem é certeira, dá uma cronologia aos fatos de forma interessante mantendo um ritmo de tensão como nos bons filmes de suspense que se mistruram nas profundezas de dramas existenciais. Mas aqui acontece algo que foge da criatividade vista, com tantos detalhes apresentados o espectador começa a desconfiar de tudo, entrando na parte de conclusão da história enxergando o desfecho bem óbvio, como se as surpresas a partir de determinado ponto percam força pois já conhecemos os personagens e sabemos do que podem ser capazes. O elemento surpreso, tão bem trabalhado pelo roteiro durante toda a trama, acaba se evaporando na linha de chegada. 


O conhecimento. A mentira. Sharper é um filme sobre golpes, manipulações sem pena, sobre vigaristas e os respectivos egocentrismos numa sociedade que enxerga a fraqueza do ser humano na sensibilidade que alguns podem ter sobre relacionamentos. A crueldade é a ferramenta mais usada por aqui dentro desse recorte bastante pessimista sobre a humanidade. Qualquer ação egoísta, de má-fé, tem várias interpretações ligadas as escolhas vingativas ou não dos ótimos personagens. 


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...