Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Maças no Escuro'


A oportunidade de ser quem você quiser. Buscando uma nova forma de olhar para a trajetória de um dramaturgo que flerta muitas vezes com o insucesso, o longa-metragem paulista Maçãs no Escuro, selecionado para a Mostra Aurora na Mostra de Cinema de Tiradentes 2024, utiliza curiosos pedaços imaginativos dentro de um recorte contemplativo, muitas vezes cômico, de um homem na fase final da vida ainda completamente absorvido pela sua arte. Dirigido, roteirizado e montado por Tiago A. Reis, acompanhamos muitos significados sem significados dentro de uma brincadeira com a linguagem e o que é real.


Assim, acompanhamos a história de Edson Aquino, uma figuraça, criador da trupe paulista de teatro Arruaça, com mais de três décadas de palcos, que acaba tendo sua vida contada por um grupo de jornalistas estrangeiros, que querem saber mais sobre sua carreira e feitos. Ao longo das quase duas horas de filme, vamos percorrendo o campo emocional através de diálogos distantes, cortes secos, que fazem parte de um roteiro que as vezes parece sem direção mas com um discurso que caminha com dinamismo dosado por uma narrativa que contempla experiências.


Imaginativo, Maças no Escuro se distancia dos conflitos deixando na superfície os desabafos, desilusões, tristezas, falta de esperança de personagens que parecem viver dos sonhos de uma vida onde no dia seguinte tudo vai se resolver. O protagonista e seus amigos de trupe se misturam em longos debates sobre os rumos do que fazem e as memórias de anos dedicados à arte. Isso tudo junto e misturado, em cena parece documentário, veste a camisa do experimental e todas as suas infinitas possibilidades trazendo novos olhares para essa história.


Mais estranho que a ficção. Muitas vezes não sabemos se o que estamos vendo é real ou mentirinha. E isso é muito legal! O filme assume seu lado experimental com eficácia, logo deixando o espectador à mercê de possibilidades na próxima cena, dentro de desfocadas e a tal da ampliação do campo de reflexão do espectador. Instigante, busca com seu carismático protagonista, um bem resolvido e humorado forrest gump da cena teatral, o equilíbrio de uma total declaração ao mundo das artes e suas possibilidades.


Postagens mais visitadas deste blog

Pausa para uma série: Absentia – 1ª Temporada

O desespero de uma nova vida dentro de uma mesma realidade. Protagonizada por Stana Katic ( Castle ), Absentia tem um dos roteiros mais complicados das séries de mistérios com tiro porrada e bomba da atualidade, mesmo assim coloca uma pulga atrás da orelha do espectador pois os episódios da primeira temporada parecem a todo tempo nos fazer várias perguntas que obviamente surgem entre em uma revelação e outra, deixando a icógnita se teremos respostas ao fim dessa jornada. Uma agente do FBI, um sumiço de anos, uma frenética volta ao convívio aos seus conhecidos e o paradigma das escolhas, isso tudo dento de um background de um assassino misterioso. Pra quem gosta de maratonar uma série com muitas surpresas, Absentia pode ser uma boa dica.  Tem na Amazon Prime . Nessa mistura de drama pessoal com suspense e ação, acompanhamos a trajetória de uma agente do FBI chamada Emily ( Stana Katic ) que sumiu por longos seis anos sem ninguém ter muita noção de seu paradeiro até que um certo...

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Criaturas do Farol'

As dúvidas sobre o canto da sereia. Se perdendo em alguns momentos entre os achismos que surgem naturalmente numa relação desconfiada entre duas pessoas que nunca se viram, o longa-metragem Criaturas do Farol é um peculiar suspense psicológico com poucas perguntas e também poucas respostas. O roteiro se fortalece em diálogos que nos guiam para uma jornada emocional e paranoias que prendem a atenção na maior parte do tempo mas não chegam a empolgar. Pensando em realizar um objetivo náutico, que remete lembranças ao pai e apoiada pelo avô, a jovem Emily ( Julia Goldani Telles ) parte com seu veleiro rumo às infinidades dos oceanos. Chegando no sul do pacífico, a embarcação é atingida por uma tempestade e acaba indo parar numa ilha onde é resgatada pelo faroleiro Ismael ( Demián Bichir ). Logo essa relação de gratidão passará por enormes desconfianças. Como contar uma história que está em uma bolha no campo das suposições? A tensão por meio do chocalhar psicológico se torna um corpul...