Pular para o conteúdo principal

Pausa para uma série: 'Black Doves'


Com seu ar debochado e narrativa eletrizante, chegou ao catálogo da Netflix nesse final de ano uma série de seis episódios que mistura dramas pessoais e espionagem. Black Doves rompe a barreira da mesmice trazendo camadas profundas de personagens no limite do caótico das emoções. Criada pelo roteirista britânico Joe Barton, essa primeira temporada nos apresenta as fraquezas do papel dos sentimentos profundos em uma teia macabra de egocentrismo onde brilha a construção dos personagens. Todos os seis episódios são curiosos e ótimos.

Recrutada após voltar à cidade natal depois de tempos nebulosos ligados à família, Helen (Keira Knightley) se posiciona como esposa de Wallace (Andrew Buchan) um político em ascensão na carreira. Os anos se passam, e ela vira até mãe. Tudo ia bem até se envolver romanticamente com um misterioso homem que logo é assassinado. A partir desse ponto, Helen sai de trás das cortinas e ao lado do antigo amigo e matador de aluguel Sam (Ben Whishaw) vai em busca das verdades por trás do crime.

Com um capítulo melhor que o outro – daqueles bons de dar uma boa maratonada – o projeto apresenta as ações e consequências num emaranhado que envolve política, amor, traição maternidade e espionagem. Isso tudo com um humor ácido notório e cenas intensas de violência, esse último elemento associado à frieza que logo se projeta numa camada de contrapontos pelos deslizes da moral escancarada nas ações dos personagens.

Com direção dividida entre os cineastas Alex Gabassi e Lisa Gunning – cada um com três episódios sob responsabilidade - do mais excêntrico ao mais misterioso, há um forte brilho para os personagens (não só os ótimos protagonistas) que fazem parte de um peculiar recorte com altas pitadas de críticas ao meio político. É deboche atrás de deboche, o que deixa nosso entretenimento bem mais divertido. Esse refletir por meio do caos se mostra uma fórmula certeira e que aproxima o público. Mas é preciso embarcar nessa viagem, nada é convencional por aqui.  

Com sobras, Black Doves deixa margem para a continuação da história, fato que já está consolidado com a renovação anunciada de uma segunda temporada. Inclusive o projeto já garantiu uma indicação a um prêmio importante, na categoria Melhor Performance de Atriz em Série de Televisão, Drama, para Keira Knightley.


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...