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Crítica do filme: 'É Tempo de Amar'


As sequelas do pós-guerra não é um assunto novo e já foram epicentros de produções audiovisuais ao longo dos anos. Mas como cada história traz um componente contado de sua forma, é sempre uma jornada interessante entender mais sobre esse período marcante da humanidade, principalmente quando o discurso apresenta segundas chances que batem de frente com traumas e nas relações sociais.

Em É Tempo de Amar, filme francês que entrou em circuito nos cinemas brasileiros neste início de 2025, nos deparamos com um retrato baseado em uma história que ocorreu na família da diretora Katell Quillévéré. Envolvendo o público com as euforias de uma oportunidade no amor, misturando-se com segredos e fantasmas do passado, chegamos em dilemas e sacrifícios de duas almas destinadas a viver uma conflituosa relação.

A garçonete Madelaine (Anaïs Demoustier) vive seus dias de luta e tristeza em uma França em meados da década de 1950. Mãe solteira de um menino, fruto de um relacionamento com um soldado alemão durante a guerra, um dia conhece François (Vincent Lacoste) um estudante rico por quem logo se apaixona. Mas ao longo do tempo começa a perceber que ele também esconde alguns segredos.

Exibido no Festival de Cannes em 2023, esse longa-metragem costura sua narrativa numa linha que busca a tensão, percorrendo a amargura, onde personagens em contrapontos buscam sua identidade em meio a um ninho conturbado de variáveis que afetam a todos ao redor. A relação entre mãe e filho e as dificuldades do entendimento de culpa, o casal que descobre novas esferas para declarar seu amor, o julgamento social, são elementos que se tornam a base de um roteiro que coloca nos holofotes as segundas chances.

Podemos definir esse projeto como duas partes que buscam serem complementares, sendo que na primeira, com a ajuda de uma objetiva contextualização, uma narrativa sólida busca o antes para explicar o depois. No segundo momento, com a adição de um triângulo amoroso que abre as cortinas de segredos, o projeto ganha tons novelescos se concentrando de forma redundante nos poucos personagens e caindo nas armadilhas do melodrama.

Longe de ser empolgante, também foge do rótulo de descartável, apresentando com consistência a aceitação, o preconceito e as diferentes formas de amar em uma França movida por intensas emoções logo após um período de caos.


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