Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Nossos Tempos'


Um projeto super secreto, uma história de amor que percorre o tempo. Já vimos algo parecido por aí, não é mesmo? O filme mexicano Nossos Tempos, recém-lançado na líder dos streamings (Netflix), tenta dar um frescor ao tema ao misturar conceitos de física com um drama que transita entre reflexões sobre relacionamentos, choque cultural e questões de sexismo. O machismo estrutural e as inquietações sobre o futuro posicionam o filme diante de temas relevantes, mas, apesar do potencial para ir mais fundo, a narrativa recua e acaba se acomodando na zona de conforto de um romance piegas.

Nora (Lucero) e Héctor (Benny Ibarra) são dois brilhantes cientistas que no ano de 1966, em seus estudos secretos no porão da universidade onde lecionam, descobrem como viajar no tempo. Embarcando na incrível máquina que criaram, acabam indo parar 59 anos no futuro onde enfrentarão situações que nunca imaginaram, além das surpresas com os avanços tecnológicos de um mundo em intensas modificações. Logo, o relacionamento entre os dois enfrenta uma crise provocada pela não adaptação de Héctor ao mundo que se apresenta.

Dirigido por Salvador Cartas, entre expectativas criadas e estereótipos desenvolvidos, Nossos Tempos tem um início promissor seguindo pelo fascinante universo da física, viagem no tempo, buraco de minhoca (espaço-tempo que conecta duas regiões distantes do universo). Quando a física abre espaço para os problemas conjugais, guiados pelos dilemas de entendimento das mudanças importantes e necessárias na sociedade ao longo do tempo o projeto vai desabando aos poucos.  

Em seu clímax, é notório um ‘tilt’ entre o foco na ciência e a história de amor, nos levando para a comodidade da superfície quando se mostram na cara do gol assuntos relevantes para reflexões. As boas intenções no roteiro, ao trazer para debates mudanças necessárias de nossa sociedade, vão por água abaixo. O importante tema que gira em torno do feminismo e do sexismo são jogados para escanteio, definidos de forma decepcionante por um desfecho insosso e contraditório.

Nossos Tempos tinha tudo para ser um importante trabalho audiovisual onde o universo do tempo e espaço encontram suas fronteiras entre as formas de entendimento com manifestações em diversos aspectos da sociedade e cultura. Mas ao preferir seguir uma fórmula de bolo, se torna um produto mais do mesmo.   

 

 

 

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...