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Crítica do filme: 'Zafari'


Criando uma atmosfera de confinamento a partir de uma distopia que mostra classes sociais em conflito, indo da sensação de ameaça a o silêncio desconcertante, em Zafari somos jogados até uma distopia sarcástica que apresenta um retrato impactante do comportamento humano quando o instinto de autopreservação está por um fio - ultrapassando qualquer linha de moral.

Dirigido pela cineasta venezuelana Mariana Rondón, que já havia nos brindado com o ótimo Pelo Malo (2013), o filme aposta na provocação de um roteiro que vai da ironia à acidez, expondo falhas morais aos montes e lançando críticas diretas a uma hipocrisia que se molda por meio de intrigantes personagens - e ainda evitando soluções previsíveis.

Ana (Daniela Ramírez) e Edgar (Francisco Denis) vivem dias de apreensão em um condomínio de alto padrão, ao lado do filho. Tentando sobreviver a um presente conturbado - com Gangues de motoqueiros dominando as ruas, blackouts constantes e a escassez de recursos básicos - o casal mais se afasta do que se une para encontrar soluções.

Ela usa sua posição na associação de moradores para entrar em apartamentos em busca de comida e itens básicos; ele é um acomodado que nunca pensa no coletivo. A chegada de um hipopótamo ao zoológico da cidade – próximo ao prédio onde moram – faz o casal embarcar em uma estrada de conflitos.  

Nesse liquidificador de elementos conflitantes que ruma a passos largos para um drama sufocante, vemos a situação se desenrolar por meio da perspectiva de Ana. Com o ambiente distópico impondo desafios, percebemos indivíduos presos a uma consciência egoísta, não sabendo entender como sobreviver - ou mesmo se adaptar.

A cada cena, com sensações variada de sufocamento em um ambiente fechado e com movimentos sutis de câmeras para ampliar o caos vindo de fora daquele lugar, a obra se mostra valiosa ao espremer o suco de uma tensão paranoica, ao mesmo tempo que apresenta diálogos afiados, repletos de críticas sociais.  

Totalmente fora da caixa, com abordagens inesperadas Zafari se arrisca ao propor o encontro com o constrangimento oriundo de alegorias do caos social, refletindo desigualdades e conduzindo o público a pensar a cada instante.

 

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