É difícil tentar apresentar algum tipo de novidade quando o assunto é pós-apocalipse no audiovisual. Com tantos filmes e séries explorando esse tema, a repetição pode se tornar algo recorrente. Mas esse não é o caso de 40 Acres. Ao buscar a tensão a todo instante, dentro de um recorte familiar inserido em um mundo onde a luta pela sobrevivência se torna uma constante, o projeto consegue reunir a ação, o drama e suspense em uma fórmula que funciona, prendendo a atenção do público.
Com uma competente construção narrativa, que explora com
eficiência muitos pontos do roteiro - dividido em alguns atos bem definidos – e
apresenta um bom desenvolvimento dos personagens dentro de um contexto bem
amarrado, com explicações razoáveis, o projeto dirigido pelo cineasta canadense
R.T. Thorne, em sua estreia em
longas-metragens, nos leva por dilemas envolvendo recursos escassos, ao mesmo
tempo em que foca nas relações pessoais ligadas à moral em contexto apocalíptico.
Hailey (Danielle
Deadwyler) é uma ex-militar do exército que volta para casa e, pouco tempo
depois, uma pandemia fúngica dizima a biosfera animal, instaurando no planeta
uma guerra civil por sobrevivência. Ela forma uma família ao lado de Galen (Michael Greyeyes), seu filho Manny (Kataem O'Connor) e outras três adolescentes,
criando uma pequena comunidade que vive em uma enorme fazenda e se organiza em
tarefas com alta disciplina. Quando a paz do lugar é quebrada por um grupo de
canibais impiedosos, tem início um confronto sangrento.
O filme não se aprofunda nas causas do desastre terrestre –
algo comum na maioria das obras que avançam nesse tema – e pula essa camada ao
situar a família em cenário onde a fome se espalhou e as terras agrícolas se
tornaram um bem precioso. Isso é o suficiente para desenvolver, de forma fluida,
em uma narrativa imersiva no campo emocional, em que o certo e o errado ganham
outras possibilidades.
A familiar é o grande foco. Vivendo em alerta 24 horas por
dia, a estrutura do discurso se modela a partir da dinâmica dos personagens, que
tentam sobreviver em um mundo com novas variáveis, ameaças rondando e com a
palavra confiar completamente fora do baralho. Um leve flashback ajeita algumas
pontas soltas e convida o espectador a refletir sobre o que faria em muitas
situações, aproximando e envolvendo o público.
40 Acres, que
logo na sua semana de estreia na Netflix
alcançou o top 10 da plataforma, não chega para reinventar a roda quando o
assunto é o cenário de uma civilização em ruínas. Há momentos de tensão, mas os
dilemas existenciais se sobrepõem, buscando um caminho seguro dentro de uma
narrativa que preenche a maioria de suas lacunas.
