Uma história pode ter começo, um meio e um quase fim. Quem viveu intensamente os anos que se seguiram ao processo de redemocratização do Brasil, principalmente os anos 1990, percebeu uma mudança marcante em nossa cultura, com cada vez mais novas formas de se expressar estando ao alcance de uma juventude carente por um desabafo coletivo.
Nesse cenário, no final da década de 1980, surgiu,
diretamente do coração do Brasil uma banda que misturava o punk e o rock
alternativo com uma generosa pitada de ritmos nordestinos, o que virou o
conhecido forró-core. Composta por quatro integrantes - três amigos
inseparáveis e um que se juntou tempos mais tarde -, o grupo logo começou a
chamar a atenção. Óbvio que estamos falando de Rodolfo, Digão, Canisso e Fred,
os Raimundos.
Apresentando os mais curiosos detalhes da ascensão meteórica
de uma das bandas mais impactantes da história da nossa música, chegou ao
Globoplay um documentário espetacular, Andar
na Pedra - A História do Raimundos, que podemos até chamar de definitivo! Tendo
como pano de fundo a origem de canções conhecidas até hoje, o projeto fortalece
seu discurso ao mesmo tempo que surpreende ao destrinchar, sem papas na língua
e ao passar por assuntos controversos e polêmicos, a trajetória – do começo,
passando pelo meio (sucesso) e chegando ao ‘quase o fim’.
Ao longo de cinco episódios viciantes – eu mesmo ia assistir
a apenas um, mas acabei maratonando madrugada adentro -, percorremos, de forma
linear, um impactante desfile pelos conflitos do abstrato das emoções, que
ganham interpretações variadas em assuntos de conhecimento público (ou não) que
marcaram a história da banda a partir dos quatro integrantes da formação
inicial. Os laços de amizade, as tragédias, o auge do sucesso, as escolhas
polêmicas, a busca pela identidade, o colapso emocional e as rupturas ao longo
do tempo contornam uma narrativa pulsante.
A obra ainda conta com uma competente pesquisa, além de
imagens e vídeos de arquivo, e uma série de entrevistas com nomes do cenário
musical independente, a familiares dos músicos, apresentadores de programas
culturais, empresários e membros da equipe, reunindo uma série de depoimentos
importantes e bem distribuídos ao longo das cerca de cinco horas de projeção
total.
Além de tudo isso, em mais de um capítulo, entramos em um
assunto sempre cheio de questões: a indústria fonográfica brasileira. A
importância dos selos independentes, os embates na relação músicos e
gravadoras, o papel primordial das rádios e da televisão durante aquele período
de ascensão da banda, entre outros pontos que circulam o assunto. Há muita
críticas pelas entrelinhas (outras descaradas), as pessoas mais observadoras
perceberão.
Sem esconder nada e falando sem reservas sobre drogas, sexo
e muito rock and roll, Andar na Pedra -
A História do Raimundos se consolida com um dos documentários mais
viscerais sobre artistas brasileiros dos últimos tempos. Impressionante!
