Você sabia que o Brasil já foi o cenário de um dos mais graves acidentes radiológicos da história? Sobre esse episódio, chegou à Netflix uma minissérie que, de maneira profunda e dilacerante, busca montar o quebra-cabeça dos acontecimentos, revelando fatos concretos sobre o que aconteceu na cidade de Goiânia quase 40 anos atrás.
Emergência Radioativa,
ao longo de cinco partes, e sob a direção geral do competente Fernando Coimbra (Os Enforcados e O Lobo atrás
da Porta), revela a dor de famílias atingidas por um material altamente
radioativo, os embates políticos em torno do caso, a luta de físicos, químicos
e médicos na luta pela vida. O projeto coloca em evidência também o preconceito
enfrentado pelas vítimas e as lições que essa tragédia deixou - com marcas até
hoje.
Dois humildes catadores encontram, em uma clínica desativada
na capital de Goiás, um objeto estranho abandonado. Eles retiram uma peça e
vendem a um ferro-velho da região. Quando se abre a peça, um fino pó azul é
encontrado e causa curiosidade. As pessoas não sabiam, mas aquilo era um isótopo
radioativo artificial - conhecido como césio-137 - que logo começaria a se
propagar pela cidade.
Misturando a ficção com o ‘baseado em eventos reais’ -
talvez um dos grandes desafios do projeto - a narrativa busca mastigar um
contexto complexo e emaranhado, reunindo uma série de personagens e nos
conduzindo para suas perspectivas, o que ajuda a compreender todo o caos que se
instaurou na cidade do centro-oeste brasileiro em setembro de 1987. Decisão
acertada, pois a narrativa ganha ritmo, construindo uma trama envolvente.
Assim, conhecemos um jovem físico nuclear, Márcio (Johnny Massaro), que se torna um dos
rostos heroicos por parte da ciência, ao lado dos companheiros de profissão Dr.
Orenstein (brilhantemente interpretado por Paulo
Gorgulho) e da Dra.Paula (Clarissa
Kiste), entre outros personagens dessa corrente. Já o arco das famílias
atingida em cheio pela substância radioativa - o mais tenso de toda a produção
-, reúne um elenco fabuloso, que transmite a dor, o medo e a inquietação, com
destaque para os ótimos Bukassa
Kabengele, Ana Costa e Alan Rocha.
Toda a obra é atravessada por um estado de nervosismo e
tensão, que também se reflete no lado político, se mostrando presente entre
estado e Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O governador na época,
interpretado por Tuca Andrada, surge
como a personificação do poder político e as cordas bambas dos dilemas. Embates
detalhados e reflexões sobre consequências futuras são sugeridos a todo
instante, colocando em evidência de forma inteligente o confuso jogo político
por trás de qualquer decisão.
Entre heróis anônimos, lições e vítimas, Emergência Radioativa alcança um
brilhantismo narrativo, do primeiro ao último episódio, ao destrinchar o ‘fisiquês’
e o ‘politiquês’ e construir uma trama magnética. Com forte protagonismo de
profissionais representando a ciência, a série não deixa de revelar, de forma
angustiante, as dores de uma tragédia que atingiu nosso país.
