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Crítica do filme: 'Natal Amargo'


Pedro Almodóvar
é um cineasta que consegue furar a bolha do cinema graças às suas obras originais, que validam sua assinatura autoral, seu impacto com o esplendor estético e a sua habilidade de saber como contar uma história que logo chamam a atenção de quem começa a descobrir seus trabalhos. Você assiste a um filme dele e sabe que é dele.

Em 2026, ele chega aos cinemas de todo o mundo com seu vigésimo quarto longa-metragem, Natal Amargo. Após uma rápida passagem no Festival de Cannes e já com sessões regulares pela Espanha, esse novo projeto do aclamado artista espanhol de 76 anos parte de um olhar voltado para si mesmo e toda a montanha-russa do processo criativo, nos guiando para uma trama repleta de camadas, com a metalinguagem ditando o tom.

Na atualidade, Raul (Leonardo Sbaraglia) é um cineasta famoso que está em busca de realizar um novo filme - mesmo sem ideias - após um longo hiato onde parece que sua vida caiu na mesmice. Nesse período, sua secretária pessoal de longa data, Monica (Aitana Sánchez-Gijón), pede demissão. Ao ouvir o motivo, Raul começa a ter a ideia de seu próximo projeto. Ao mesmo tempo, conhecemos a história de uma diretora de filmes (Bárbara Lennie), que migra para o campo da publicidade e se distancia do luto recente pela perda da mãe. No entanto, ao começar a ter alguns ataques de pânico, decide se isolar. Vamos entendendo essas duas histórias e como elas se cruzam de forma metalinguística.

Nessas duas linhas temporais que se tornam complementares, Almodóvar sugere bons debates sobre a sensação de repetição no mundo artístico, também o narcisismo que pode ferir as linhas éticas diante do desespero e necessidade quase insana de ter que criar, além de explanar questões sobre o próprio mercado audiovisual. Além disso, insere elementos conflitantes das relações humanas para ampliar o desenvolvimento de seus personagens, principalmente o enfrentar a perda e as inúmeras maneiras de lidarmos com determinadas situações dilacerantes. Para tal, conta com um elenco harmonioso, repleto de talento.

A narrativa, em um primeiro momento, parece confusa mas, aos poucos, os elementos em cena vão ganhando suas formas e desabrochando diante da história – e a graça do cinema de Almodóvar é essa: tirar um pouco do lugar-comum o espectador. A construção da intensidade nas relações propostas, algo recorrente em sua filmografia, chega por meio de diálogos que confrontam e instigam o público para reflexões, além da já conhecida composição do quebra-cabeça marcado pelo vermelho onipresente, ampliando a força que a concepção visual tem em seus trabalhos.

Você vai logo perceber que esse filme se trata de um grande desabafo de Almodóvar – algo que inspira o discurso do roteiro. É como se o cineasta, vencedor de inúmeros prêmios e com a carreira consolida mundialmente, resolvesse criar, de forma inventiva, uma espécie de sessão de terapia onde nós, seus meros admiradores, escutamos atentamente suas zonas de desconforto sobre o criar e a necessidade do sucesso, muitas vezes sobre a ótica do ‘custe o que custar’.  

Dizer se o filme é bom ou ruim vai depender do seu olhar, caro leitor(a). É muito limitado apenas ir para um lado ou outro. No cinema, o que vale é o que podemos refletir pelo que foi apresentado. O que é impossível ignorar é que Pedro Almodóvar segue nos instigando a pensar sobre a vida a partir de suas próprias aflições, em um mundo em constante transformação, que tem o cinema como uma ferramenta social importante e capaz de nos tirar da inércia do que é validado como comum.

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