Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Magritte' [CinePE 2026]


Em apenas 15 minutos de simbolismos artísticos e metáforas existenciais, um curioso filme exibido na segunda noite de mostra competitiva do CinePE 2026 me deixou intrigado em decifrar suas questões. Dormi pensando na obra, separei alguns temas que a obra sugere em meu modesto caderninho que sempre levo comigo, e acordei pronto pra me deliciar com as respostas que começava a encontrar.  

Em um primeiro momento, o universo surrealista que se apresenta no curta-metragem pernambucano Magritte circula a obra do pintor belga René Magritte, intrigando quem não tem proximidade com seu trabalho, mas não nos afastando quem pouco ouviu falar. Na verdade, é um convite. Um chamado para refletir sobre o quão caótico pode ser a monotonia no lado profissional, principalmente quando fica evidente uma exploração, algo que reflete nos laços sociais.

A trama acompanha um homem enfaixado com uma rotina entediante, passando praticamente todo seu tempo dedicado ao trabalho. Um dia, ele se vê em conflito com um gatilho que se apresenta na figura de uma outra funcionária. A cada pincelada em tela, como se cada cena compusesse uma exposição, vai se destrinchando um filme com poucas, mas bem encaixadas, camadas. Sem nunca ficar na superfície, abre espaço para falar sobre sentimentos indecifráveis e, principalmente, a importância das relações.

Com uma direção de arte que se impõe e chama a atenção, principalmente pelos objetos em cena, logo percebemos uma óbvia referência – tanto pelo tema quanto pela composição visual – à aclamada série de sucesso da Apple TV, Ruptura. E, meus amigos e amigas, esse tempero é fundamental para uma narrativa que se mostra crítica e que sugere múltiplas interpretações.

Com direção e roteiro de Tom Nogueira, essa curiosa distopia fora da caixa propõe, através de uma conversa entre as artes, um exercício existencial que bate na tecla da identidade e propósito. Assim, logo provoca o público com uma questão: o marasmo da vida é algo imposto, necessário ou apenas uma oportunidade de amadurecimento quando você desperta?

 

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...