Há alguns filmes que assistimos em que o sentir se sobrepõe a qualquer elaboração sofisticada inserida em uma estrutura narrativa. Esse é o caso do interessantíssimo curta-metragem pernambucano Os Ursos e Nós, exibido na segunda noite da edição de 30 anos do CinePE.
Dirigido pela cineasta e antropóloga Maria Acselrad, este projeto nos convida a conhecer uma tradição
carnavalesca da região metropolitana de Recife, com um forte olhar para a
dança. Com uma ótima edição e uma pesquisa profunda, que traduz todo o
dinamismo que acompanhamos, vamos sendo convidados a um recorte sensorial que
logo se expande para uma experiência inventiva, capaz de traduzir em imagens e
movimentos a força cultural desse lugar.
Atravessando comunidades e trazendo para a tela mais uma
arte cultural de nosso país que ainda pode ser desconhecida para muitas pessoas,
neste curta documental o elemento central é a figura do urso – de vários tipos,
cores e tamanhos –, que logo virou figura frequente e nunca esquecido da
cultura popular pernambucana. Essa tradição, adaptada dos imigrantes europeus, aqui
ganha um olhar profundo, que também esbarra em reflexões sociais constantes.
Guiado pelas envolventes batidas que ditam o tom, mesmo com
um único chão se revelando através de publicações antigas exibidas no seu
início, através do que sentimos ao ver essa obra entendemos a força dessa
história. Esse é um filme onde o paradoxo da existência também se mostra
presente, até mesmo questionamentos sobre inquietações que se manifestam,
deixando um ar filosófico ser transmitido ao som do frevo.
Os Ursos e Nós é
daqueles filmes difíceis de se traduzir, mas com certeza causam impacto. Um filme para se sentir e refletir
através da folia.
