Apresentando uma imersão em uma distopia que, basicamente, nos apresenta um apartamento apertado e personagens em conflito por conta, entre outras questões, de um reality show mortal, o longa-metragem Resta Um desfila uma série de críticas sociais afiadas que, de forma dinâmica, conseguem romper camadas, transformando a tensão em conscientização.
Dirigido por Fernando
Ceylão, em seu primeiro longa-metragem como diretor, e protagonizado pelo
ótimo ator Caco Ciocler, ficamos de
frente com o que provoca e aquilo que deteriora, uma expressão que se associa lentamente
ao desenvolvimento de um protagonista à beira dos deslizes morais.
Álvaro (Caco Ciocler)
é um professor desempregado que vive sua rotina afetada pela doença da esposa (Maria Ribeiro), infectada por um vírus
e à espera de uma cirurgia emergencial. Nessa realidade onde vivem, um programa
chamado ‘O Debate’ convoca aleatoriamente pessoas para um duelo de narrativas, no
qual o público que assiste, sedento pelo caos, precisa escolher entre um dos
participantes. Quem perde, morre.
Por meio de inteligentes diálogos carregados de sarcasmo e
ironias inteligentes contornando questões cotidianas ligadas à sociedade e, principalmente,
da política, vamos nos conectando a uma narrativa artesanal que transita com
eficiência por seus questionamentos, gerando reflexões que se mostram mais
amplas do que aparentam em um primeiro momento.
Para tal, e sem muito dinamismo quando pensamos nas
infinidades que a linguagem cinematográfica pode oferecer, e até com uma certa
série de conveniências que facilitam elos narrativos, percebemos rapidamente
que opta-se pela simplicidade para se destacar alguns pontos em uma trama que
tem sua base nas mensagens que chegam pelas entrelinhas dos diálogos.
A ambivalência moral, chegando por meio de comportamentos
contraditórios, nos leva a pensar sobre questões existenciais profundas e que
chegam de maneira desconfortante, levando a todo mundo que assiste a obra a se
projetar na situação apresentada, naquela linha do: ‘o que você faria?’.
