Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Resta Um' [CinePE 2026]


Apresentando uma imersão em uma distopia que, basicamente, nos apresenta um apartamento apertado e personagens em conflito por conta, entre outras questões, de um reality show mortal, o longa-metragem Resta Um desfila uma série de críticas sociais afiadas que, de forma dinâmica, conseguem romper camadas, transformando a tensão em conscientização.

Dirigido por Fernando Ceylão, em seu primeiro longa-metragem como diretor, e protagonizado pelo ótimo ator Caco Ciocler, ficamos de frente com o que provoca e aquilo que deteriora, uma expressão que se associa lentamente ao desenvolvimento de um protagonista à beira dos deslizes morais.

Álvaro (Caco Ciocler) é um professor desempregado que vive sua rotina afetada pela doença da esposa (Maria Ribeiro), infectada por um vírus e à espera de uma cirurgia emergencial. Nessa realidade onde vivem, um programa chamado ‘O Debate’ convoca aleatoriamente pessoas para um duelo de narrativas, no qual o público que assiste, sedento pelo caos, precisa escolher entre um dos participantes. Quem perde, morre.

Por meio de inteligentes diálogos carregados de sarcasmo e ironias inteligentes contornando questões cotidianas ligadas à sociedade e, principalmente, da política, vamos nos conectando a uma narrativa artesanal que transita com eficiência por seus questionamentos, gerando reflexões que se mostram mais amplas do que aparentam em um primeiro momento.

Para tal, e sem muito dinamismo quando pensamos nas infinidades que a linguagem cinematográfica pode oferecer, e até com uma certa série de conveniências que facilitam elos narrativos, percebemos rapidamente que opta-se pela simplicidade para se destacar alguns pontos em uma trama que tem sua base nas mensagens que chegam pelas entrelinhas dos diálogos.  

A ambivalência moral, chegando por meio de comportamentos contraditórios, nos leva a pensar sobre questões existenciais profundas e que chegam de maneira desconfortante, levando a todo mundo que assiste a obra a se projetar na situação apresentada, naquela linha do: ‘o que você faria?’.

  

 

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Pausa para uma série: Absentia – 1ª Temporada

O desespero de uma nova vida dentro de uma mesma realidade. Protagonizada por Stana Katic ( Castle ), Absentia tem um dos roteiros mais complicados das séries de mistérios com tiro porrada e bomba da atualidade, mesmo assim coloca uma pulga atrás da orelha do espectador pois os episódios da primeira temporada parecem a todo tempo nos fazer várias perguntas que obviamente surgem entre em uma revelação e outra, deixando a icógnita se teremos respostas ao fim dessa jornada. Uma agente do FBI, um sumiço de anos, uma frenética volta ao convívio aos seus conhecidos e o paradigma das escolhas, isso tudo dento de um background de um assassino misterioso. Pra quem gosta de maratonar uma série com muitas surpresas, Absentia pode ser uma boa dica.  Tem na Amazon Prime . Nessa mistura de drama pessoal com suspense e ação, acompanhamos a trajetória de uma agente do FBI chamada Emily ( Stana Katic ) que sumiu por longos seis anos sem ninguém ter muita noção de seu paradeiro até que um certo...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...