Perto de mais uma Copa do Mundo de Futebol Masculino, um evento que costuma – embora bem menos do que tempos atrás – parar o Brasil para acompanhar a seleção jogar, era bem previsível que algumas produções circulassem esse tema, aproveitando toda a forte divulgação que o evento teria. E isso não é uma crítica, apenas uma constatação bem lógica.
Seguindo por essa estrada e buscando um recorte de uma das
copas mais disputadas de toda a história, chegou à Netflix, nesse final de
maio, a minissérie Brasil 70: A Saga do
Tri. Em cinco episódios de cerca de uma hora de duração, a produção busca
apresentar um retrato, com alguns pontos de vista, sobre a eterna seleção de Pelé, Gérson, Tostão, Clodoaldo, Jairzinho,
Carlos Alberto Torres, Félix, Rivellino, Zagallo e companhia, que
conquistou o tricampeonato mundial em terras mexicanas.
Desde que foi anunciado o projeto, nos pegamos pensando em
como seria desenvolvida essa narrativa e que pontos o roteiro iria explorar
entre as possibilidades criativas da ficção e os fatos que realmente ocorreram.
O caminho definido foi abrir o leque entre o campo e fora dele, reunindo
questões morais e políticas que estiveram presentes na caminhada rumo ao título.
Isso tudo com o acréscimo da paixão dos brasileiros por esse esporte, um ponto retratado,
algumas vezes, de forma exagerada e que contribuem pouco para o recorte
proposto.
Alguns elos se ligam entre os episódios, tendo como pano de
fundo a ansiedade e a pressão que os jogadores passaram. Alguns momentos da
série escancaram isso como mais profundidade, como no penúltimo capítulo,
talvez o melhor da produção. Nele, os ‘fantasmas’ da derrota brasileira para o
Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil, chegam com
força, às vésperas de novamente enfrentar o time uruguaio.
Outro ponto que chama bastante atenção, mesmo que não avance
muito além da superfície, é o olhar sobre a relação entre política e o futebol
em uma época no qual o Brasil vivia sob uma ditadura cruel. No epicentro dessa
questão está a figura do famoso jornalista João Saldanha (Rodrigo Santoro), um profissional conhecido nacionalmente por seu
ofício que virou treinador da seleção brasileira antes da copa, e depois foi
demitido perto do início do mundial. Além de seus embates futebolísticos e
opiniões fortes, acompanhamos o drama de sua família, perseguida no Brasil pelo
regime ditatorial enquanto ele realizava a cobertura da Copa.
Ainda sobre Saldanha, ele personifica a crônica esportiva
brasileira em uma época de protagonismo também dos jornalistas. Tempos
diferentes dos de hoje, onde parece que ex-jogadores parecem ser as grandes
estrelas dos microfones, algo que deixa bem menos profunda uma cobertura
jornalística. Esse personagem nos lembra desses tempos passados onde o noticiar
e opinar era de fato uma função de destaque, em um ofício cada vez mais
escanteado. Claro que tem espaço para todo mundo, mas a profissão de jornalista
deveria ter mais reconhecimento - em todas as áreas, não só no futebol.
Dentro de campo, a magia acontece. Para quem curte futebol,
vai logo notar como são bem feitas as cenas dos jogos – que são muitas –
recriando momentos de euforia dos estádios e principalmente jogadas que ficaram
na história. Entre elas, a defesa inacreditável do goleiro britânico Gordon Banks e os dois gols perdidos
por Pelé que nunca esqueceremos: um chute do meio-campo que quase entrou e um
drible de corpo inesperado seguido de um chute com a bola passando rente à
trave. Muitos desses momentos são narrados por um locutor fictício entusiasmado,
interpretado pelo ótimo – e um conhecido apaixonado por futebol - Marcelo Adnet.
Com algumas imagens da época se intercalando com as
filmagens da ficção, principalmente no jogo final disputado no estádio azteca, partida
que marcou na história esse grupo de jogadores e eternizou de uma vez por todas
o Rei Pelé, Brasil 70: A Saga do Tri entrega
o que propõe: a emoção na ponta da chuteira - mesmo que derrape em algumas
questões fora de campo.
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