A vida é a soma das suas escolhas. Dirigido pela dupla Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, uma das produções mais aguardadas do cinema brasileiro este ano é o tipo de filme que se você assistir antes de ler a sinopse, fica com sérias dificuldades de entender sobre o que é a história. Aquele famoso lema cinéfilo que você precisa se convencer da história nos primeiros 15 minutos, nesse filme ocorre diferente. Beira-Mar é uma história sobre amizade, revelações e escolhas. Muito bem dirigido, possui diálogos abertos, diretos, honestos, mas que acabam não sendo tão objetivos por conta dos dois primeiros atos, mesmo que nesse caminho chegue a um brilhante terceiro ato.

Na trama, acompanhamos o jovem Martin (Mateus Almada) que faz uma viagem ao litoral do Rio Grande do Sul para visitar parentes que não conhecia e leva com ele o seu melhor amigo Tomaz (Maurício José Barcellos). Após resolverem questões relacionadas a família do primeiro, os dois personagens isolam-se em uma linda e bela casa na beira da praia.

Beira-Mar é um pequeno retrato da juventude, seus prazeres, suas escolhas. Nada além do que já não foi dito, ou explorado em outras produções. O filme possui boas atuações com grande dedicação e descoberta dos personagens, principalmente por sua dupla de protagonistas. Mas a história parece que congela na mesmice e sem conseguir encontrar o ritmo de interação certeiro com o espectador.


Quando nossa ótica se prende às questões das descobertas e finalmente entendemos melhor os personagens, o longa-metragem selecionado para o prestigiado Festival de Berlim cresce muito na tela. No ato final, como já mencionado na introdução, o filme parece que se encontra, seus últimos minutos são dedicados delicadamente a um grande conflito de emoções que transbordam na telona. Pena que esse belo clímax chegue muito tarde no sempre velho mas valioso objetivo em segurar a atenção do público.

Crítica do filme: 'Beira-Mar'

Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira. Dirigido pelo cineasta britânico Richard Loncraine chega ao Brasil em novembro o novo trabalho dos veteranos Morgan Freeman e Diane Keaton, Ruth & Alex. O roteiro, assinado por Charlie Peters (Três Solteirões e uma Pequena Dama), baseado em uma obra de Jill Ciment, é uma delícia, se desenvolve em sua essência a partir dos diálogos maravilhosos que levam a uma rápida empatia do público. Com ligeira lembrança com o clássico argentino Elsa e Fred, alem de alguns outros bons filmes que falam sobre os encontros e desencontros da maneira madura do pensar, Ruth & Alex tem tudo para conquistar milhares de fãs.

Na trama, conhecemos o artista Alex (Morgan Freeman), casado há cerca de 40 anos com Ruth (Diane Keaton) e que moram no mesmo edifício, sem elevadores, durante todo esse tempo.  Assim, de uma hora para outra, resolvem vender o apartamento e descobrir novos horizontes para viveram a parte final de suas vidas. Ao longo do filme, vamos conhecendo melhor o passado desses simpáticos velhinhos, como se conheceram, importantes decisões que tiveram que tomar e assim vamos entendemos melhor toda a personalidade que rege esse casamento vitorioso e recheado de amor.

O clímax da trama tinha tudo para ser tedioso: mercado imobiliário, sem muitas saídas para tramas paralelas... é mais um menos parecido com um time de futebol que mudara totalmente seu esquema tático mas que confia na qualidade dos seus jogadores. É exatamente aí onde o filme ganha força, a qualidade em cena é absurdamente poderosa além de uma direção muito correta de Loncraine.  


O maior cuidado que qualquer pessoa que vá escrever sobre esse filme precisa tomar é evitar muitas comparações com filmes que a princípio parecem ser semelhantes em sua essência. Por mais que algumas semelhanças surjam, como fora lembrando no parágrafo introdutório deste humilde texto,  5 Flights Up, no original, possui personalidade própria, além de possuir uma bela e conjunta atuação de dois gigantes do cinema mundial. Há um exalar de simpatia, típico dos filmes que chegam mais rápido em nossos corações, em cada parte deste belo trabalho. 

Crítica do filme: 'Ruth & Alex' (5 Flights Up)

A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem. Dirigido pela dupla Tal Granit, Sharon Maymon, o longa-metragem israelense A Festa de Despedida vem conquistando um grande sucesso por todos os festivais em que passa. Talvez pela forma mais suave que apresenta um assunto discutível. O filme fala com delicadeza sobre um assunto bem polêmico, a eutanásia. Ao longo dos curtos 95 minutos de projeção vamos acompanhando situações, algumas um tanto quanto engraçadas, sobre um grupo de amigos que inventam um dispositivo para morte fácil.

Em um asilo de Jerusalém, existe um grupo de amigos que está cansado de ver o sofrimento alheio e resolve criar uma máquina de morte instantânea. Essa ideia, criticada por muitos, acaba se tornando um sucesso quando outras pessoas em situações delicadas procuram o grupo de amigos para usarem a máquina. Ao mesmo tempo, todos os personagens se encontram em um grande vendaval emocional, seja por questões ligadas ao coração, seja por escolhas difíceis que precisarão ser tomadas.

Mesmo falando sobre um dos temas mais polêmicos do planeta, o desenvolvimento da trama é bem objetivo, se torna leve por conta dos ótimos diálogos que navegam o roteiro (assinado também pela dupla de diretores) mas sem deixar de apresentar uma análise peculiar, porém, bastante profunda sobre o tema principal. Há uma certa harmonia entre todos os atos e os personagens são muito bem definidos, cada um com um objetivo dentro da trama.


O público vai rir, se emocionar e conectar-se rapidamente com a história. Tudo é muito trivial e bastante honesto quando diz respeito a apresentar argumentos pós e contra a eutanásia. A Festa de Despedida nada mais é do que mais uma maneira de discutirmos sobre as escolhas que podemos ter quando não temos mais escolha. Belo filme. 

Crítica do filme: 'A Festa de Despedida'

Um único minuto de reconciliação vale mais do que toda uma vida de amizade. Baseado na obra homônima criado por Eduardo Sacheri, o longa-metragem argentino Papeles en el Viento, dirigido pelo cineasta Juan Taratuto, é um drama com pitadas milimetricamente cômicas tendo o futebol como fundo de fundo para os conflitos, conseqüências e ações dos personagens, esses últimos, cada um de sua forma, esbanjam categoria na sempre decisiva interação com o público. Há muita simpatia e empatia em cena, isso transborda no espectador que aos poucos vão se deliciando com essa curiosa história.

Na trama, conhecemos um grupo de amigos muito unidos que passam por um momento de tristeza quando um deles falece precocemente por conta de uma doença. A única herança que ele deixara para sua única filha foi o dinheiro investido em um passe de um jogador de futebol perna de pau. Para tentar recuperar o dinheiro em questão, os amigos farão de tudo para tornar o perna de pau em pelo menos um jogador negociável/rentável e assim conseguirem recuperar o dinheiro investido e dar uma boa vida para a filha do amigo.

O roteiro é muito interessante, possui seus atos muito bem definidos e consegue fisgar o espectador na maneira como é montado a história dos personagens, por meio de flashbacks da união dos amigos antes do falecimento de um deles. É como se o grupo que mantém a amizade há anos, fosse um ator só, tão bem definido é a importância da amizade nessa história. Todos os atores em cena possuem um belo entrosamento e os ótimos diálogos do roteiro, assinado também pelo diretor, dão uma leveza e simpatia ao drama que volta e meia chega a ser bem profundo.

A questão de fundo, o futebol, é bem encaixada durante o contexto de cada ato. Fora o óbvio amor pelos argentinos por esse esporte, também muito apreciado em nosso país, chegamos até a ver uma crítica sobre uma parte da indústria do futebol, exatamente nos bastidores, onde o dinheiro rola solto e os empresários mandam e desmandam o destino dos protagonistas (os jogadores) e como um comentário positivo sobre um jogador aquece as negociações instantaneamente.


Papeles en el Viento chegará ao Brasil em breve e promete ter uma boa carreira no circuito, não por ter uma história que fala também sobre futebol mas por ser cinematograficamente um belo trabalho. Sem dúvidas, mantém o selo argentino de qualidade, quando falamos de cinema, vivo. 

Crítica do filme: 'Papéis ao Vento' (Papeles en el Viento)

Mesmo a obviedade deve ter um ar de suspense. Escrito e dirigido pelo cineasta David Robert Mitchell, Corrente do Mal, é um daqueles filmes que possuem uma premissa que chama muito a atenção, e, aliado ao delirante clima de suspense, a uma trilha sonora que não deixa de fazer uma homenagem a grandes clássicos do gênero terror, geram uma equação tecnicamente e criativamente bem construída mas que faltou uma pitadinha de ritmo para a receita ser perfeita. Mas, de qualquer forma, Corrente do Mal é um dos mais interessantes filmes de suspense/terror do ano, não tenham dúvidas.

Na trama, conhecemos a Jay (Maika Monroe), uma linda jovem que vive tranquilamente sua saída de adolescência e que adora dar um mergulho em sua piscina. Jay está saindo com um rapaz há algum tempo e se encontra em um momento de vida bem feliz. Certo dia, após uma intensa relação sexual dentro de um carro em um lugar isolado da cidade, o rapaz com quem Jay está saindo simplesmente pira e a faz desmaiar. Quando acorda, Jay está de calcinha e sutiã em uma cadeira e acaba percebendo que está sendo amaldiçoada por uma força sobrenatural que é transmissível pelo ato sexual.

Um dos grandes baratos do filme é a troca de posição da câmera em determinadas situações tensas da trama. Você se sente dentro da história a todo instante, um grande clima de tensão é conduzido brilhantemente pelo ótimo roteiro mas principalmente por como todo esse criativo filme é rodado. Com um orçamento bem baixo (comparado a outras produções do gênero), Corrente do Mal é muito mais psicológico do que tenso em sua realidade.

Outro fator que chama a atenção é o ritmo. Muito bem seguro sobre qual seria a proposta do filme, o roteiro meio que pausa o filme em determinados momentos, utilizando como ponto de gatilho uma trilha sonora instigante que parecem sair de alguns filmes de suspense/terror dos anos 80 que deixavam os espectadores arrepiados. Talvez, esse fator ligado ao ritmo, incomode um pouco, e alguns espectadores achem o filme sem dinamismo e assim se desinteressem rapidamente pela história.


Com um lançamento muito a quem do que podia, o circuito feito pela distribuidora não conseguiu que o filme chegasse em muitas salas de cinema, Corrente do Mal é uma grata surpresa quando o assunto é filme de terror/suspense. Muito interessante. 

Crítica do filme: 'Corrente do Mal'

O drama é uma vida da qual se eliminaram os momentos aborrecidos. Depois de diversos trabalhos na telona, sempre (ou quase sempre) buscando reproduzir histórias dramáticas profundas que focam exatamente na escolha dos protagonistas em seus destinos, o cineasta norte-americano Antoine Fuqua volta ao tema, desta vez para reproduzir uma história que muito se parece com o drama de Clint Eastwood, Menina de Ouro, mas que ao longo dos 124 minutos não consegue ter luz própria. Nocaute é um filme interessante se formos analisar a mais uma ótima atuação de Jake Gyllenhaal mas se torna logo desinteressante por ter momentos de clímax pouco satisfatórios e acabar entrando no terreno perigoso dos clichês. 

Na trama, conhecemos o famoso boxeador Billy Hope (Jake Gyllenhaal) um homem que vive intensamente sua fama mas sem nunca esquecer de ser um devoto por sua linda família. Explosivo e sem muito instrução, certo dia se envolve em uma briga tola com um provável futuro adversário e nas consequências desse ato acaba perdendo sua empresária, amiga, batalhadora e esposa Maurren (Rachel McAdams) tragicamente. A partir disso, começa a ver sua carreira ir por ralo abaixo até que vai parar em uma modesta academia em um subúrbio norte-americano e começa a tentar reconquistar sua carreira, a guarda da filha e acender uma luz no fim do túnel que ele mesmo cavou. 

Nocaute é uma história sobre superação, muito parecida com outros filmes, um já até citado acima. O roteiro é bem honesto e a construção do personagem principal muito bem feita por Gyllenhaal. O andamento da história que vai se tornando sonolenta por sempre criar expectativas e acabar não superando as mesmas. É um avião que não pista de pouso não consegue decolar. O foco principal é mal distribuído, as subtramas foram pouco exploradas. Quando entra na história o personagem de Forest Whitaker, Tick Wills, o longa-metragem volta a ter uma direção mas logo nos minutos seguintes se perde. Pode ter havido interferência, a sensação é que houve uma mexida em algumas partes para tornar a história mais com cara de filme comercial, um erro que nós cinéfilos não perdoamos e que muitos produtores adoram executar.   

Outro fator que chama a atenção negativamente são as cenas de luta de boxe. Longe de sermos especialista nessa arte que Éder Jofre e Popó dominam mas ao longo dessas sequências de ação percebemos uma falta de sintonia. Não passa verdade essas cenas. Um Rocky Balboa teria feito muito mais em menos minutos. Se Stallone assistir a esse filme, acho que terá essa impressão também. Mais o campeão em incômodo desse filme é a velha, chata, e quem sabe algum dia obsoleta arte dos clichês. Não é preciso nem enumerar, são claros e evidentes durante toda a projeção. Poxa, porque não podemos tentar inovar, ser mais criativos? A história, Jake e sua atuação, o espectador, mereciam bem mais. 


Mesmo com uma atuação de gala do excelente ator que faz o protagonista (ele vai ganhar o Oscar e muitos outros prêmios ao longo da carreira), nesse Menina de Ouro com um protagonista masculino, faltou talvez um pouco da força cênica de ‘Warriors’ (um filme que absurdamente nunca foi lançado nos cinemas brasileiros) e um pouco do tom dramático bem executado que encontramos perfeitamente em Hurricane.  

Crítica do filme: 'Nocaute'