O tempo e seu ritmo lento. Para contar a história de uma população esquecida no ciclo temporal, a diretora brasileira Rejane Zilles volta ao seu passado resgatando as tradições e costumes de um lugar longínquo denominado Walachai. Afastado 100 quilômetros de Porto Alegre,  comunidade é basicamente um cantinho alemão no Brasil. Lá quase não existe telefone, sinos ditam o toque de recolher e trabalhar se consegue apenas de maneira natural, oriunda das plantações de verduras ou na única fábrica da cidade. Walachai é um retrato de uma memória que o tempo se esqueceu de contar.

Uma comunidade que não esquece suas origens e não conhece os impactos da globalização que enfrentamos diariamente nos grandes centros. A simplicidade adotada no cotidiano é de se admirar. Na questão da alfabetização das crianças, todos chegam ao colégio falando alemão transformando o português como uma língua de apoio, uma espécie de ‘step comunicativo’. São diversos elementos que são envoltos personagens reais que fazem parte do nosso país. Além de tudo, é um filme educativo, pronto para ser passado em qualquer instituição que preze o real sentido dos fundamentos da sociologia.

Percebemos um grande toque de afeto e carinho da diretora Rejane Zilles ao contar essa agradável história. É interessante a descoberta desse cantinho alemão no nosso país. Nos relatos dos moradores, conhecemos não só a história dessa comunidade, como também de momentos marcantes da trajetória brasileira ao longo do tempo. Diversas histórias sobre a segunda guerra e as dificuldades que os antigos moradores da região enfrentaram por serem descendentes de alemães são relatados através de situações vivadas pelos moradores.

O filme passa por partes sem objetivos, ou melhor dizendo, sem uma direção. Em certo momento, o roteiro se estabiliza na fala mansa dos carismáticos personagens reais esquecendo de acelerar na telona o seu contexto, a famosa comodidade de um certo vazio existencial. Mesmo apontando este detalhe, os sorridentes brasileiros alemães em conjunto com as belas imagens, conseguem segurar a atenção do espectador.

O longa deve agradar quem curte bons documentários que conseguem estabelecer paralelos entre as ações da globalização e a permanência de uma certa tradição.  

Crítica do filme: 'Walachai'


A decadência emocional de um músico, a intensidade carnal entre dois corpos e o silêncio entre uma nota e outra são partes exploradas no confuso filme Réquiem para Laura Martin. Dirigido pela dupla de cineastas Luiz Rangel e Paulo Duarte, o drama nacional tem seríssimos problemas em seu roteiro. O público se sente perdido, bocejos serão frequentes. O filme tem vários falsos finais, o que só prolonga o martírio que o espectador é contemplado.

Na trama, somos conduzidos aos amores e tragédias de um famoso maestro (Anselmo Vasconcelos) que sofre por um amor louco e obsessivo pela sua compositora preferida, Laura Martin (Ana Paula Serpa). Essa relação circula em joguinhos sexuais intensos, diálogos picantes e um triângulo amoroso que é surpreendentemente imposto pela mulher do músico, passiva por si só, que engole seco todos os absurdos que o marido lhe faz passar por conta da amante.

Na história com aroma melancólico do homem que busca na dor um reencontro, a personagem mais bem definida é a mulher traída, interpretada pela veterana Claudia Alencar. Fria e com muito rancor guardado, enlouquece em muitas sequências já no desfecho da história buscando desesperante reconquistar a atenção do marido.

Entre um som de piano e outro, o Beethoven brasileiro, que usa botas de gaúcho e boinas de Da Vinci,  pensa em Laura o tempo todo, até nas suas necessidades sexuais individuais. Laura e sua boquinha suja, cheia de palavrões, envolve o protagonista de maneira fantasiosa deixando a dúvida se realmente existe ou se é fruto da cabeça do brilhante, rico e famoso Maestro.

O roteiro é muito complicado, confunde a todos. A plateia manifesta gargalhadas quando a intenção era provocar o drama. Essa troca de reações são características do esquisito molde do roteiro, praticamente ficamos que nem cego em tiroteio. Entre o Réquiem e o repouso, o segundo pode ser feito confortavelmente na sala de cinema. 

Crítica do filme: 'Réquiem para Laura Martin'


Dirigido por Chris Wedge (que dirigiu A Era do Gelo ao lado do cineasta brasileiro Carlos Saldanha) O Reino Escondido possui uma técnica de apuração apurada, personagens que beiram a um certo carisma comedido porém deveras excêntricos. O foco da trama de divide em questões próprias para a criançada e questões que só os adultos entenderão. Os dois tipos de interação passam pelo pai malucão da personagem principal que possui barulhos de morcegos em seu Ipod.

Na trama, conhecemos uma jovem que resolve passar um tempo na casa de seu pai, um aficionado por plantas e pela natureza. Certo dia, após quase ir embora, descobre um reino encantado e protegido por corajosas criaturinhas denominadas homens folhas. Assim, uma aventura começa com o objetivo de proteger o reino dos seres mágicos.

A trilha sonora se destaca, belíssimas canções. Entre as muito bem produzidas cenas a história volta e meia é esquecida mas o ritmo acelerado, principalmente nas cenas de ação deixam o público com atenção redobrada nos acontecimentos projetados na telona. A história não tem força para conquistar o público por completo.

O Reino Escondido é uma aventura madura em alguns momentos e imatura em outros. É uma gangorra de maturidade que deixa o público até certo ponto decepcionado. Talvez, esse motivo venha em nosso raciocínio quando pensamos que o filme tem a pretensão de ser para todas as idades. O pecado passa perto daí, quando nas cenas para as crianças não envolvem os adultos e a recíproca é mais que verdadeira.

A lesma e o caracol são ótimos personagens. Dão um show de carisma dentro dos inúmeros diálogos engraçados que estão metidos. O cachorrinho da protagonista, Ozzy, tem apenas três patinhas e um poder impressionante de conquistar o público. Vale a pena conferir o roqueiro Steven Tyler dublando um dos personagens, impossível não saber que é ele, sua voz é muito diferenciada.

O filme fala sobre esperança mas não consegue atrair atenção e todos para esse objetivo. Na falta de opção para levar a criançada aos cinemas, esse filme não deixa de ser uma opção. A premissa é interessante, dias após o dia das mães, quem salva todo mundo é o paizão atrapalhado. 

Crítica do filme: 'O Reino Escondido'


Com apenas uma letra gigante de uma música emblemática do genial Renato Russo, o diretor René Sampaio topou o desafio de transformar a canção em filme, o resultado disso é o interessante Faroeste Caboclo, um filme sobre um homem que nasceu com muitas contas para acertar. Desde a infância pobre vemos a esperança no olhar do protagonista, interpretado de maneira espetacular pelo ator Fabiano Boliveira. Com direito a flasbacks, muito bem inseridos na trama, sobre a infância de João de Santo Cristo somos guiados ao mundo das drogas e do preconceito além da paixão, criando uma espécie de Romeu e Julieta de Brasília.

Na trama, ambientada em Brasília anos atrás, conhecemos João de Santo Cristo, um homem com um passado pobre, talentoso carpinteiro mas com poucas oportunidades na vida. Certo dia, resolve ir ao encontro de um primo estrangeiro que mora no coração do Estado onde vive. Juntos, começam a entrar no tráfico de drogas, já existente na região. Quando tudo se encaminhava da maneira como João queria, uma das entregas de drogas dá errado e João, fugindo da polícia corrupta, entra pela janela de uma jovem que vai mudar sua vida. Entre festas e tiroteios (sim, com direito a Winchester 22), o amor proibido se encaminha para um desfecho trágico por conta da batalha entre o carismático protagonista e Jeremias, um traficante de renome do local.

O retrato que fizeram sobre a infância de João de Santo Cristo chama a atenção. Educado por sua mãe e seu pai, inclusive dizendo que não queriam que o filho fosse ladrão e sim uma pessoa com atitudes positivas, corretas. O que fica implícito é que João ao partir de casa e descobrir um novo mundo acaba fugindo de seu destino de bom rapaz. Nesse momento de rupturas, outro personagem importante, Pablo (e seus palavrões com sotaque latino), interpretado pelo ótimo ator argentino César Troncoso (Infância Clandestina), chega à história e o filme cresce em emoção.

A personagem Maria Lúcia, interpretada pela atriz Isis Valverde (em seu primeiro trabalho no cinema), fica isolada em certa hora. Não vemos objetivos, nem entendemos as atitudes melancólicas. Isso atrapalha um pouco o andamento da história, devido à importância que essa personagem possui. O forçado primeiro encontro com João acaba gerando uma Síndrome de Estocolmo. A maconheira, filha de senador (interpretado pelo ator e diretor Marcos Paulo), estudante de arquitetura, é, infelizmente, um calcanhar de aquiles dentro da trama.

Jeremias, outra peça fundamental no quebra cabeça musical criado por Renato Russo, é interpretado bem exageradamente pelo bom ator Felipe Abib (180 Graus). Com direito a muita euforia sem fundamento, a ‘peitinhos’ (cumprimento típico adolescente carioca dos nossos tempos, não daqueles) e muita liberdade que acaba virando descontrole na hora da interpretação o personagem só é sustentado pelas boas cenas com João de Santo Cristo.

O exercício lógico seria escutar a famosa canção, fechar os olhos e imaginar a realidade dessa saga. Faroeste Caboclo é uma grande história, tinha que virar filme. Muitos vão amar, alguns não vão gostar. A coragem do diretor René Sampaio de reproduzir essa canção famosa é um mérito e um dos motivos que você leitor precisa conferir esse filme nos cinemas. Aposto que até Tarantino está louco para conferir, o longa tem a cara dele.  Escute a música e vá aos cinemas!

Crítica do filme: 'Faroeste Caboclo'


Dirigida por Seth Gordon, que dirigiu o divertido Quero Matar Meu Chefe, volta as telonas com o bem abaixo da média Uma Ladra sem Limites. O filme é uma imperfeição completa. Roteiro, direção, elenco nada se encaixa. Entre os protagonistas, é difícil saber quem está pior, Jason Bateman (Relação Explosiva) ou Melissa McCarthy (Missã: Madrinha de Casamento). É uma típica comédia Hollywoodiana que mais parece um show de horrores.

Na trama, escrita por Steve Conrad e Steve Conrad (À Procura da Felicidade) e Craig Mazin (Se Beber, Não Case! Parte 2), acompanhamos a vida de um homem, pai de família, que possui um nome unissex, Sandy. Por conta disso, descobre que teve a identidade roubada por uma pessoa longe de onde mora. A partir daí, começa-se uma viagem muito louca que envolve uma trambiqueira, um caçador de recompensas e muitas confusões.

As histórias que correm em paralelo, as chamadas subtramas, são muito mal exploradas, deixando o espectador sem entender o sentido de muitos desses personagens para com a história. Mandar alguém não ver o filme beira ao absurdo mas tem cada caso que precisamos nos esforçar. O ingresso, aqui no Brasil, é muito caro e o espectador merece no mínimo ver alguma qualidade naqueles minutinhos que está sentado na sala escura. Essa nova comédia pastelão é um típico filme do Adam Sandler (Cada um tem a Gêmea que merece), sem ser representado pelo famoso comediante. É um tremendo festival ‘nada com nada’.

Uma Ladra sem Limites, que teve um orçamento de U$$ 35 milhões, é um dos piores filmes do ano, sem dúvidas. Tudo consegue ser executado da pior maneira possível. É um festival de piadas sem graças, cenas que servem somente para encher linguiça, uma resumo de um cinema de mal gosto que só serve pra vender a pipoca.

Crítica do filme: 'Uma Ladra sem Limites'


Ganhador de elogios ao redor do mundo, desembarcou no Brasil o drama O Sonho de Wadjda. Tendo influência do clássico da década de 40, O Ladrão de Bicicletas, de Vittorio De Sica (Desejos Proibidos), o longa fala sobre a destemida juventude que calça All Star e com uma mescla de inteligência e sabedoria consegue burlar qualquer símbolo de prepotência de uma sociedade machista no tempos atuais.

Passando pelos costumes distantes, culturalmente, religiosamente e socialmente aceitos pelos sauditas, descobrimos a história de uma corajosa menina chamada Wadjda que possui entre muitos sonhos, o desejo de ter uma bicicleta. Diante do complicado objetivo, a menina moradora do subúrbio de Riade precisará passar por cima, sempre com muito inteligência, de tradições e restrições que as mulheres sofrem em seu país.

A forma como a menina enfrenta o senso comum da cidade onde vive é a grande fonte de inspiração do filme escrito e dirigido pela cineasta Haifaa Al-Mansour. Valente e objetiva Wadjda é um exemplo de perseverança dentro de um regime tão autoritário e totalmente excludente quando pensamos nas mulheres. O grande barato do filme é a forma como a jovem se relaciona com a mãe e como as duas se parecem, como somos surpreendidos no desfecho da poderosa história.

A figura do pai também é muito bem analisada pela câmera detalhista da diretora. A garota nutre um amor pela figura materna que infelizmente está preocupada em conseguir um outro casamento e pouco faz por merecer pelo carinho de Wadjda. Toda a educação da criança é modelada e acompanhada pela brava mãe que brinda os cinéfilos com um gesto lindo no final da história.

É no mínimo um filme ousado, aguerrido e alentado. Talvez chocante para alguns. Pelos diálogos nos identificamos e torcemos para que mais Wadjda apareçam nesse mundo tão perto e conservador. Bravo!

Crítica do filme: 'O Sonho de Wadjda'


Vindo do mundo dos curtas metragens, o diretor Caetano Gotardo traz a angústia como principal foco no profundo drama O que se Move. Após rodar o Brasil em sessões de festivais e apresentações isoladas para todos os tipos de público, o novo trabalho de Gotardo chega aos cinemas brasileiros nesta semana mostrando uma ousadia particular fugindo dos padrões das produções nacionais.

Na trama, conhecemos três famílias, três histórias, três dramas. Uma notícia inesperada, a angústia de um pai e um constrangimento imposto pelo destino. Cada parte possui suas particularidades e foram transformadas para a telona a partir de histórias, no caso três notícias isoladas, que aconteceram na vida real. O que se Move tem o freio de mão puxado, se fortalece nos acontecimentos e em um recurso musical no desfecho de cada história, com certeza, uma jogada arriscada do corajoso diretor.

O trabalho do cineasta capixaba faz reflexões sobre a vida, o sexo e a sociedade. Mas a narrativa muito lenta, faz a história se mover lentamente. Umas cenas esquisitas, peculiares, como a de uma família brincando de estátua em uma pista de corrida. O filme tem um ar inocente, diálogos adolescentes (na primeira história) que se aproximam da realidade mesmo não tão bem executados pelos artistas envolvidos na cena.

O longa é ousado, foge dos padrões. É admirável a coragem do jovem cineasta. As explicações chegam ao público de forma surpreendente. Uma ousadia raramente vista em nosso cinema. Vale pela experiência. 
Uma espécie de poesia triste, dramas trágicos são interpretados por vozes amarguradas, sofridas.

Pais e filhos, quem nunca pensou sobre esse relacionamento? Não é preciso ter uma alma sensível para se emocionar nas belíssimas revelações que se movem da tela até o nosso coração. 

Crítica do filme: 'O que se move'


Falando sobre violência doméstica e os procedimentos da polícia em casos específicos, o cineasta francês Jean-Paul Lilienfeld (do interessante La journée de la jupe) presenteia os cinéfilos com seu novo filme, Prenda-Me, baseado em uma obra de Jean Teulé. A grande questão é saber como o público vai reagir quando receber esse confuso presente.

Na trama, acompanhamos uma mulher, amargurada pelo seu passado, em conflito que entra em uma delegacia certa hora de uma noite e resolve assumir um crime que cometera a quase dez anos. Quando relata sua história para a tenente de plantão, a oficial tenta convencê-la a não se entregar. Aos poucos vamos conhecendo melhor aquela relação desgastada que a mulher sofria com sua família guiando o público para um desfecho imprevisível.

A personagem principal passa a impressão de ingenuidade, de estar sufocada e automaticamente não conseguindo viver. Esse conflito chega a um caminho sem volta e a ideia de assumir a culpa passa a circular fortemente em sua cabeça. A partir daí, o roteiro começa a se embolar. O filme entra um desenvolvimento estranho. Perdido, o público acaba rindo das indignações da personagem de Miou-Miou (A Datilógrafa), uma delegada no mínimo incomum.

O filme se encaminha para um vazio existencial mais profundo que os traumas que vivenciamos nos diálogos. A adoção da câmera personagem é um artifício interessante mas que não gera maiores surpresas no espectador. O diretor tenta a toda custo facilitar o processo de interação entre a história e o público, porém, nem a presença da bela atriz francesa Sophia Marceau (Rindo à Toa) é capaz desse mérito.

Crítica do filme: 'Prenda-me'


O mundo é muito grande para você viver dentro de um aquário. Dirigido pelo cineasta Francisco Garcia, em seu primeiro longa, Cores é um filme bastante atípico quando pensamos em cinema nacional. O filme fala sobre a desilusão da juventude, seus conflitos e irresponsabilidades. Pelos olhos de três amigos, completamente perdidos em suas vidas, somos arrastados para o submundo da desilusão. É um retrato nu e cru de uma sociedade sem forças para superar as adversidades da vida.

O trabalho como desafogo e exploração emocional é um exercício constante que vemos em cena. Os três trabalhadores utilizam o seu cotidiano improdutivo para exaltar suas inconseqüências sem responsabilidades. O grande problema vem com essa viagem nas personalidades dos que aparecem em cena. Os atores não conseguem desenvolver seus personagens, pecam pela fala de experiência. Isso acaba atrapalhando a profunda história escrita pelo diretor e Gabriel Campos.

Ninguém pode falar de ninguém. Entre cigarros, bebidas e músicas barulhentas, a falta de cores coloca o filme em paralelo com o sentimento de cada personagem, associada à inconseqüente falta de direção de cada um dos amigos. O poder de revolução da juventude passa longe do pensamento e ações dos protagonistas. A história mais bem definida é a de Luara que usa a Polaroid em vez do Instagram. Sua fidelidade aos seus sonhos, sua inocência imatura e seus desejos são muito bem retratados pelos lentes de Garcia.

O filme se prolonga em seu vazio existencial, deixando o público definir o sentido de algumas sequências, consegue ser maduro e confuso ao mesmo tempo. Se o espectador se agarrar aos conflitos, metaforicamente demonstrados, de cada personagem, pode ser que goste desse curioso longa metragem. 

Crítica do filme: 'Cores'

Somos o somátorio de tudo o que fazemos e sentimos. Afastado a três anos das telonas, o cineasta Inglês Danny Boyle (127 Horas) volta em grande estilo com um thriller surpreendente que mostra o duvidoso e peculiar mundo do subconsciente humano, estamos falando do interessante Em Transe.  O filme é inteligente, eletrizante e volta e meia complicado. Danny Boyle dá um show na direção multiplataformas dessa história, consegue ser delicado esteticamente e explosivo, com muito dinamismo em cena.

A adrenalina nos quize minutos iniciais começa com a breve apresentação de alguns personagens e um frustado assalto a uma casa de leilões que desencadeia uma série de mistérios indo desde um funcionário corrupto e viciado em jogos de azar até uma linda hipnóloga misteriosa. Junto a esses dois elementos um grupo de bandidos precisa descobrir aonde foi parar um dos quadros mais valiosos do mundo. Assim, entramos no mundo da hipnologia e aos mistérios dessa história.

O universo secreto e espetacular do subconsciente humano é um dos focos que o roteiro, escrito por Joe Ahearne e John Hodge (Trainspotting - Sem Limites),  percorre.  Não é uma trama fácil de ser compreendida e por isso mesmo nem tudo são flores. Os personagens não parecem bem definidos, o que atrapalha o entendimento da história. Muita gente vai sair das salas de exibição tentando compreender a intensa sequência final. 

Será esse projeto a tentativa de Boyle em melhorar a ideia do filme de Gondry, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças? Os longas se parecem e isso acaba se tornando um spoiler, porém, precisava ser dito. A cena final lembra muito o clássico filme de Christopher Nolan, A Origem, deixando o público definir que decisão os envolvidos tomaram.

Violento e inconsequente, o thriller tem cenas espetaculares. A lembrança trancada em uma gaiola é mantida como ação de clímax pelos personagens que interagem de maneira à descobrir o mistério, dentro da realidade ou dentro de ações do sobconsciente. Complicado ou não, é um filme que merece ser visto mas como no filme, a escolha é sua!

Crítica do filme: 'Em Transe'

Ganhador de mais de 26 prêmios internacionais, chega a Brasil o novo e elogiado trabalho  do cineasta Philippe Falardeau (do excelente  C'est pas moi, je le jure! ), O Que Traz Boas Novas. Qual o papel do professor? Educar ou ensinar? O longa levanta essa questão básica da educação centralizado nos interessantes diálogos entre pais, educadores e alunos.  Além disso, o filme é delicado, transborda ao mesmo tempo pureza e maturidade.

Na trama, após uma tragédia inestimável, uma escola enfrenta um grande problema com seus alunos. Abalados, pais e orientadores buscam uma saída para a superação de toda uma classe até a chegada do novo professor de origem argelina, interpretado pelo ótimo ator Mohamed Fellag (O Gato do Rabino).

O professor tenta se entender com os alunos e a essa nova maneira de educar. Jovens traumatizados que vez ou outra ficam abatidos e reflexivos quando lembram do trágico acontecimento. A relação Professor x Aluno é muito bem detalhada, somos jogados em uma gangorra de altos e baixos nessa relação. O elenco é excelente, passa uma verdade e muito sentimento em cada sequência.

O Que Traz Boas Novas é um drama profundo que vai conquistando o espectador a cada cena. Quando somos apresentados as memórias e aos conflitos pessoais do protagonista, a história ganha em emoção. O educador, fã de Balzac, enfrenta seus próprios medos e um certo preconceito por ser de um lugar temido por guerras e atentados terroristas.

O drama promete conquistar o público de todas as idades. O desfecho é comovente. Uma lição e mensagem que o público carrega quando as letrinhas dos créditos sobem é que a amizade é uma forma de combater o desespero. Não percam esse belo filme.

Crítica do filme: 'O Que Traz Boas Novas'


Uma pessoa firme e de liderança. No novo trabalho da cineasta Malu De Martino (Como Esquecer), Margaret Mee e a Flor da Lua, acompanhamos e deciframos juntos com a protagonista os mistérios de uma das regiões mais impactadas pelas ações anti-ecológicas dos seres humanos, a floresta Amazônica. Em pouco mais de 80 minutos, por meio de narrações, entrevistas e relatos emocionados nos apaixonamos por essa história, sendo adorador da biologia ou não.

Ilustradora e amante da botânica, Miss Margaret, como um vizinho carinhosamente a chamava, logo em sua primeira expedição se apaixonou pela região do Amazonas, onde muitas vezes parecia sobrevoar um oceano de emoções. A diversidade da flora amazônica sempre foi um mundo sedutor para os adoradores da natureza e a corajosa britânica traçou seus objetivos que destinavam ao encontro com nosso país. A Flor da Lua, uma espécie de subtítulo da trama, foi o seu último grande desenho e longe de não ser uma desafiante aventura.

A corajosa e determinada artista levantou questões importantes sobre a situação da Amazônia, enfrentava autoridades e se colocava como uma grande protetora da nossa floresta. Depoimentos de ecólogos, botânicos, amigos e engraçados relatos de vizinhos comprovam que a inglesa apaixonada pelo Brasil (que tinha uma casa no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro) era uma mulher a frente do seu tempo em muitos sentidos.

O bom documentário, não deixa de ser um trabalho denúncia. Dona de olhos azuis expressivos e atitudes de pulso firme, a protagonista desta história chegou a enviar um livro com uma dedicatória polêmica ao ex- presidente militar Ernesto Geisel, onde deixava implícito seu pedido de proteção à Amazônia.

O público é introduzido a essa história passeando por lindas imagens de arquivo e captações maravilhosas feitas na maior floresta do mundo. Você não pode deixar de conferir essa grande aventura e conhecer melhor essa grande mulher.  Que os documentários brasileiros continuem nos enchendo os olhos.


Crítica do filme: 'Margaret Mee e a Flor da Lua'

"Elena, sonhei com você essa noite." Falando sobre um dos sentimentos mais sinceros e profundos, Elena é mais do que um documentário família. O projeto dirigido pela cineasta Petra Costa é um retrato delicado sobre a saudade. A diretora revive memórias tristes e distantes de sua irmã, Elena Costa,  que cometeu suicídio na década de 80 nos Estados Unidos.

Com muitas cenas em Nova Iorque, a concha de recordação vai modelando o roteiro que varia entre depoimentos de Petra e o de sua mãe. Revivendo angústias, o medo da solidão, dificuldades de adaptação em um lar estrangeiro e memórias incompletas, somos transportados a todo o sofrimento daquela família, principalmente ao de Petra que possui um desejo escondido de um reencontro impossível.

Elena conheceu Coppola, dançou em muitos ritmos, se jogou na difícil carreira de atriz. Porém, como em toda vida, nem tudo era perfeito. Quando a solidão se une à desilusão percebemos a desistência de um coração triste. Elena vivia em conflito, completamente sem direção. As dificuldades da profissão foram aos poucos derrotando a jovem artista nos levando a um desfecho trágico que mais parece um desabafo profundo, uma necessidade constante de respirar.

Um documentário muito parecido com os filmes metafóricos de Mallick. Aperta o coração em alguns momentos e tenta comuflar a dor de forma bela. Busca que o público também encontre algum alívio para o que vê nas pequenas brechas da poesia. Reune o passado e o presente de forma inteligente mas longe de ser linear.

A trilha sonora é empolgante, joga o publico para dentro de todo aquele drama. Profundo e inesquecível, um documentário que beira ao espetacular. Você precisa conferir essa experiência. Bravo!

Crítica do filme: 'Elena'