Utilizando fórmulas norte-americanas de comédias que beiram ao pastelão, estreia na próxima quinta-feira (04 de junho), o longa-metragem Qualquer Gato Vira-Lata 2. Sob a regência da dupla Roberto Santucci e Marcelo Antunez, o filme é uma mistura torva de comédia romântica com dramas existências, extremamente mal desenvolvidos. O ponto positivo chega apenas para a atuação de Álamo Facó e Marcelo Saback que, mesmo com algumas falas totalmente sem sentido e com seus personagens, muitas vezes, perdidos na história, conseguem tirar risadas do espectador sempre que em cena.

A história (bobinha, bobinha), baseada no espetáculo homônimo de Juca de Oliveira, conta a saga da bela Tati (Cleo Pires) que viaja com seu namorado Conrado (Malvino Salvador) para a paradisíaca Cancún, onde o segundo irá fazer um lançamento/conferência do seu novo livro. Aproveitando a ocasião, a inocente Tati arma um pedido de casamento surpresa com a ajuda de sua melhor amiga Paula (Leticia Novaes) e da mãe de Conrado, Glaucia (Stella Miranda). Quando o pedido vira um pesadelo, por conta da incerteza da resposta de Conrado, Tati parte em buscar de respostas para dúvidas que começam a pairar sobre seu relacionamento.

O filme tem sérios problemas quando falamos em roteiro. Parece que falta ritmo à trama, personagens não se encaixam ou são mal colocados, diálogos superficiais que não acrescentam em nada ao longo dos 104 minutos de projeção. Senão fosse as atuações já mencionadas na introdução, o filme seria mais um sonífero em forma de comédia nacional. Os protagonistas são inconstantes e parecem não conseguir o carisma necessário para prender a atenção do espectador. Cleo Pires se esforça mas sua personagem soa forçada, já Malvino Salvador desenvolve Conrado de maneira bem lúcida mas não deixa que ele continue sendo o personagem mais chato do filme.


É complicado analisar um filme tão frívolo como esta continuação. Tanto filme nacional bom que não tem nem 10% do marketing que este projeto terá. É de deixar o coração cinéfilo triste, Qualquer Gato Vira-Lata 2 é um mini enlatado tupiniquim criado a partir dos moldes norte-americanos. Nosso cinema, nosso público, merece mais. 

Crítica do filme: 'Qualquer Gato Vira-Lata 2'

Depois de dirigir o ótimo Celeste e Jesse Para Sempre (filme que passou desapercebido aqui no Brasil), o jovem cineasta Lee Toland Krieger voltou às telonas com o inusitado reconto moderno romântico A Incrível História de Adaline. Lembram daquelas histórias de começos “Era uma Vez”? Esse projeto caminha nessa vagarosa estrada, porém, possui uma profundidade marcante na maioria dos seus arcos, uma direção de arte espetacular e uma ótima atuação da atriz californiana Blake Lively. Tudo é muito bem feito nesse belo projeto que deve agradar ao público.

Ao longo dos 110 minutos de projeção, vamos conhecendo (muito por meio de flashbacks) uma linda mulher chamada Adaline Bowman (Blake Lively) que nasceu próximo da virada do último século e após um terrível acidente de carro nunca mais envelheceu. Depois de viver grandes amores, ser perseguida pelo FBI, ver sua filha envelhecer, trocar de nomes a cada nova década, resolve se entregar/viver um novo e recente amor, Ellis Jones (Michiel Huisman). Assim, deverá enfrentar todos os seus medos e receios de sua curiosa imortalidade.

O filme tem vários aspectos interessantes, que chamam a atenção. O primeiro deles são as explicações estribadas em conceitos físicos lógicos sobre a questão da imortalidade. Essa opção de uma explicação mais complexa merece nosso respeito, não só porque adiciona e muito à trama mas também porque não quiseram nos empurrar uma explanação parva. O segundo é a surpreendente delicadeza, sutileza e sobriedade da atuação de Blake Lively, uma atriz que vemos pouco nos cinemas e que se dedicou anos ao seriado Gossip Girl. O terceiro são os ótimos Harrison Ford e Ellen Burstyn (a eterna vencedora do Oscar, na opinião cinéfila, por sua magnífica atuação em Réquiem Para um Sonho (2000)) – Obs:  dane-se o que a Academia decidiu naquele ano) , cada um melhor que outro, tornando seus personagens impactantes para a história.


A Incrível História de Adaline estreou na última quinta-feira em alguns cinemas de todo o Brasil. Mesmo com algumas poucas fragilidades, é um trabalho requintado que beira ao primoroso, uma espécie de conto de fadas pós-moderno que possui elementos para fisgar públicos de todas as idades. Vale muito a pena conferir. 

Crítica do filme: 'A Incrível História de Adaline'

Tudo o que um sonho precisa para ser realizado é alguém que acredite que ele possa ser realizado. Dirigido pelo produtor, roteirista e cineasta californiano Sean McNamara, Spare Parts tinha tudo para ser mais um filme chatinho sobre o tal do ‘vencer na vida’ mas o longa-metragem consegue uma profundidade pitoresca que usa e abusa do carisma que seus personagens exalam sem serem sardônicos. Mesmo não sendo um filme ótimo, tendo uma direção apenas regular, os destaques são George Lopez e Marisa Tomei que ficam com a missão de levar a história e conseguem com muito êxito agradar aos cinéfilos.

Na trama somos apresentados a um grupo de estudantes do ensino médio que possuem um cotidiano duro, tanto na escola quanto em casa. Eles estudam em um colégio barra pesada em uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos que é comandado por uma carismática diretora, interpretada pela sumida Jamie Lee Curtis. Certo dia, um dos professores tira uma licença e o engenheiro e professor Fredi Cameron (George Lopez) é chamado para assumir o cargo. Isso mudará a rotina de todos, pois um clube de ciências é restaurado e alguns alunos decidem se inscrevem em um torneio de criação de robôs subaquáticos, de esfera nacional. Assim, aprendendo sobre física, mecânica, união e o trabalhar em grupo, os alunos terão seus destinos mudados.

O roteiro de Elissa Matsueda, baseada um artigo escrito por Joshua Davis, é bem definido seguindo as velhas e famosas instruções, “receita de bolo”, hollywoodianas. O diferencial deste projeto, e por isso que ganhou boas opiniões não só no IMDB mas deste jovem cinéfilo que vos escreve, é a naturalidade que os personagens são desenvolvidos pelos seus respectivos atores. É muito fácil se aproximar dessa história, é pundonoroso e muito honroso a dedicação de todos quando em cena. É uma verdadeira homenagem aos reais personagens, já que o filme é baseado em uma história real.

O filme estreou nos Estados Unidos em janeiro deste ano e, infelizmente, somente por um milagre conseguirá ser exibido nos cinemas daqui. Esse é o tipo de filme que foge um pouco do radar das distribuidoras brasileiras, infelizmente. Olha que esse longa é muito melhor que muitos filmes que já estrearam neste ano por aqui. De qualquer forma, se você cinéfilo tiver a oportunidade de assistir, não pense duas vezes. Não é o melhor trabalho do mundo mas é um daqueles projetos que vale a pena dar uma olhada.

Crítica do filme: 'Spare Parts'

Vocês sabem o que é algo que se desgastou, perdeu o sentido ou se tornou algo que gera uma reação ruim? Acertou quem pensou Clichês. Dirigido pelo cineasta canadense Brad Peyton, o novo blockbuster estrelado pelo ex-lutador Dwayne Johnson, Terremoto - A Falha de San Andreas, é uma espécie de jogo de RPG, onde o espectador simplesmente pode escolher seu personagem e torcer para ele sobreviver em meio ao caos de um terremoto com números nunca vistos na escala Richter. O único ponto realmente positivo é a estrutura do roteiro, que mesmo assim possui cansativos minutos no seu arco final, assinado pelo craque mexicano Carlton Cuse (um dos roteiristas de Lost).

Na trama, conhecemos Ray (Dwayne Johnson) um especialista na arte do resgate e socorros que está se divorciando de sua ex-mulher Emma (Carla Gugino). Perto de sair de folga para levar a filha até a nova faculdade, um impactante terremoto atinge a cidade onde vive deixando o caos pelo caminho. Esse terremoto foi previsto pela equipe da Caltech chefiada pelo Doutor Lawrence (Paul Giamatti) que faz de tudo para avisar a população sobre os perigos intermináveis dessa ação natural. Com esse cenário de destruição eminente, Ray não mede esforços, seja pilotando um helicóptero, um avião monomotor ou uma lancha contra um tsunami para salvar sua família.

O filme até que começa bem. Vemos uma construção bem feita das características e passado dos personagens, fruto do bom roteiro já mencionado. A estrutura familiar, os encontros inusitados, tudo é passado de forma bem inteligente na primeira parte da história. O problema é quando a destruição acontece. Cenas impossíveis, personagens perdidos, a direção entra em parafuso, coadjuvantes que estavam ajudando muito a interação com o público ganham apenas mini pontas na história, etc... parece que o terremoto atingiu também a mesa de criação da história.

O que mais incomoda, além dos clichês que não vale nem a pena entrarmos no mérito pois é chover no molhado para enlatados hollywoodianos, são as menções a todo instante sobre o nacionalismo norte-americano. Bandeiras se reerguendo (quer clichê maior que esse?), o mundo desabando e a Caltech intacta, etc. Não precisava. Há um exagero desnecessário desse nacionalismo. Aliás, o filme peca pelos exageros. As cenas de mentirinhas: da lancha vencendo uma tsunami ou no pouso fisicamente impossível do helicóptero caindo na porta de um mercado, foram feitas para dar um impacto que o 3D pode oferecer. Quando falamos de cinema como um todo, o artificial raras vezes vence o natural.


Crítica do filme: 'Terremoto - A Falha de San Andreas'

Tentando recriar todo o clima de suspense e terror que aterrorizou espectadores na década de 80 com a versão do craque Tobe Hooper, chegou aos cinemas de todo o Brasil na última quinta-feira, Poltergeist - O Fenômeno, a nova versão hollywoodiana do clássico do gênero. Repleto de diálogos recheados por um humor que não combina em nada com a essência da história e repleto de efeitos que não adicionam em nada a tensão que a trama de outrora criara. Ao final da projeção, uma indignação toma conta do coração cinéfilo.

Na trama, acompanhamos o azarado Eric Bowen (Sam Rockwell) que mesmo sem emprego tenta dar uma vida nova para sua família. Assim, a família Bowen se muda para uma cidade onde não conhecem nada nem ninguém e aceitam comprar uma nova casa, que mais tarde eles viriam saber ser construída embaixo de um antigo cemitério. As crianças da casa são as primeiras a perceber que a casa está amaldiçoada por fantasmas, sendo assim os pais precisarão reunir força para combater essas inacreditáveis aparições assombrosas.

Toda a alma da história foi sugada por uma direção menos que regular do britânico Gil Kenan e por atuações heteróclitas, principalmente de Sam Rockwell. É muito triste para nós que amamos cinema assistir a um remake/homenagem a um dos filmes mais legais das últimas décadas, do gênero terror, sem nenhuma inspiração. Para se fazer uma regravação de um filme que marcou uma geração, o filme precisa ser muito bom, fato que não ocorre com esse trabalho nem com o chatíssimo Oldboy (2015) de Spike Lee que fora lançado nos cinemas recentemente.


Não há muitos sustos imprevisíveis, há apenas sustos calculáveis oriundos de idéias vistas em outros filmes hollywoodianos. O filme parece ser mais um enlatado norte-americano que peca pela falta de criatividade e pela falta de competência em encontrar um diretor certo para o trabalho. Os atores, em sua maioria, foram mal escalados, parecem não entender ao certo seus personagens. Resumindo: uma grande decepção.

Crítica do filme: 'Poltergeist - O Fenômeno' (2015)


Conceição eu me lembro muito bem. E você também! Quem nunca ouviu essa música, mesmo sem saber quem cantava essa canção? Dirigido pelo cineasta Nelson Hoineff, Cauby - Começaria Tudo Outra Vez, mostra um pouco da intimidade de uma das maiores vozes da história da música brasileira. Influenciado pelos figurinos de Liberace (famoso pianista norte-americano que recentemente ganhou uma espécie de biografia, Minha Vida com Liberace,  pelas mãos de Steven Soderbergh e com interpretações fabulosas de Michael Douglas e Matt Damon), o rei do chique com brega é desmistificado e o público ganha pela emoção da  inigualável Voz.

Na trama, conhecemos mais a fundo a trajetória e um pouco da vida pessoal do cantor, e porque não dizer grande artista, Cauby Peixoto. Pai professor de violão, mãe que tocava violino, nasceu e cresceu em um ambiente musical e aos poucos foi aprendendo as técnicas do canto. Em sua casa em Higienópolis, São Paulo, vamos conhecendo suas intimidades, e, em paralelo ao universo Cauby, uma história de um jovem fã e a aventura de encontrar o ídolo pela primeira vez.

Aquela vitrola antiga, aquele som que nunca deveria deixar de ser obsoleto. Ao longo do ótimo documentário de Hoineff vemos depoimentos de artistas renomados como Aguinaldo Rayol e algumas pessoas próximas ao grande cantor. Histórias e mais histórias que chegam impactantes aos olhos do público pois contam curiosidades de toda a trajetória não só de Cauby mas da música brasileira.

Mas, não há como negar. Por mais que o longa-metragem, que estreia dia 28 de maio nos cinemas brasileiros, tenha tido um competente processo de pesquisa, algumas imagens históricas de arquivos e um momento marcante do filme quando Cauby fala sobre homossexualismo e suas experiências sexuais, a força do documentário está na voz impactante desse ícone brasileiro. Nas cenas intercaladas dele cantando seus grandes sucessos como intérprete corre um ventinho gostoso de arrepio no espectador.

Um calmante, um excitante. Cauby, nunca deixará de ser um ídolo de milhares de brasileiros e felicidade maior é esse presente não só para seus fãs mas para os cinéfilos. Por isso, Cauby: cante, cante e não pare jamais.

Crítica do filme: 'Cauby - Começaria Tudo Outra Vez'

Uma das poucas razões de sermos tão apegados as memórias, é que elas não mudam, mesmo que as pessoas tenham mudado. O novo longa-metragem estrelado pelo excelente ator brasileiro Irandhir Santos, Permanência, é um filme bem sincero com o público, não há clímax, apenas lembranças de um passado amoroso, a descoberta de novas possibilidades e as conseqüências de assuntos mal resolvidos.  O roteiro, muito interessante por sinal, navega na linha dos bons diálogos. Pensando sobre isso e utilizando essa base como argumento, podemos dizer que possui uma certa semelhança com o clássico de Richard Linklater Antes do Amanhecer.

Na trama, conhecemos Ivo (Irandhir Santos) ujm fotógrafo de Recife que chega em são Paulo para sua primeira exposição solo. Resolve se hospedar na casa de um antigo amor, Rita (Rita Carelli) hoje casada e um pouco mudada em relação ao que se lembrara dela. Navegando no marasmo das incertezas, o personagem principal desta história tenta se redescobrir como artista, ter mais segurança em sua vida profissional e principalmente se encontrar no viver.

Permanência não deixa de ser atemporal, e um marcante retrato de uma intimidade que pertence apenas aos envolvidos. Aos poucos vamos desmascarando desejos guardados que como um salto de mágica transbordam na vida do protagonista. Nas linhas detalhadas dos ótimos diálogos, papos sobre Twin Peaks, Recife, fotografia envolvem o espectador. A direção de Leonardo Lacca também merece destaque: Inteligente, consegue captar cada detalhe da intimidade dos personagens sem ser indelicado com a história de cada um deles.

Nesse despertar de lembranças, percebemos como é impressionante o trabalho de Irandhir Santos. Esse é um dos poucos artistas brasileiros que consegue desenvolver qualquer tipo de personagem com maestria. Ivo é um homem simples, de fala mansa, que parece redescobrir a vida a cada novo dia. A simplicidade em suas ações, esconde um pouco a confusão de sentimentos que transparecem em determinados momentos de seu presente indefinido.


Permanência estreia nas salas de todo o Brasil no próximo dia 04 de junho. Esse é uma daquelas raridades intrigantes que volta e meia o cinema nacional surpreende o público positivamente.

Crítica do filme: 'Permanência'

Dirigido pelo estreante em longas-metragens Henry Hobson e um dos filmes sensações do último Festival de Tribeca, Maggie - A Transformação é um drama disfarçado de suspense que tenta se sustentar como pode na boa atuação (quem diria) de Arnold Schwarzenegger. O roteiro é arriscado, provoca indagações e sugere conseqüências eminentes para as ações dos personagens. De alguma forma, a história prende em alguns momentos mas a falta de um clímax, além de uma convincente atuação da protagonista, atrapalha a interação com o público.

Na trama, acompanhamos a saga do fazendeiro Wade (Arnold Schwarzenegger), um homem já na casa dos cinqüenta anos que percorre uma cidade, infestada de infecções causadas por um vírus, atrás de sua filha Maggie (Abigail Breslin). Após duas semanas ele a encontra, infectada, em um hospital. A política do governo em relação ao tratamento para o vírus é colocar em quarentena todos os seres humanos que fossem infectados. Com a ajuda de um médico amigo da família, Wade consegue levar Maggie para casa mas ele sabe que assim que o vírus tomar conta por completo de Maggie ele terá que tomar uma decisão sobre o que fazer com o destino dela.

Sabe aquela história que tinha tudo para dar certo mas de certa forma não agrada por completo? Isso acontece com este projeto, que teve boa aceitação no prestigiado festival de Tribeca, que ocorreu em abril deste ano. Orçado em cerca de 10 Milhões de dólares, o filme possui uma protagonista sem carisma que não desperta o interesse do público. Recheado de cores frias, mostrando uma atmosfera caótica que vive aquela região, a história é focada em Wade e a decisão que precisará tomar em relação a sua filha.

A atuação de Schwarzenegger surpreende, mostrando com eficácia as dores de um pai de família em crise com qualquer decisão que tomar em relação a sua filha mais velha. Em relação a essa personagem, Maggie, o papel era pra ter sido de Chloe Grace Moretz mas na última hora acabou parando nas mãos da ex- Pequena Miss Sunshine, que infelizmente não consegue desenvolvê-lo da maneira esperada. Não conseguimos nos conectar com as dores de Maggie em nenhum momento.  

Com estreia prevista aqui no Brasil para o dia 09 de julho, Maggie - A Transformação tentará cobrir uma lacuna quase sempre vaga nos nossos cinemas, a de filmes de suspense. Mas provavelmente terão outras estreias melhores do gênero neste ano.


Crítica do filme: 'Maggie - A Transformação'



Você pode sobreviver, mas sobrevivência não é vida. De volta aos sets de filmagens para recriar ou até mesmo repaginar sua própria criação, o espetacular cineasta australiano George Miller, depois de uma passagem curiosa como diretor da animação Happy Feet: O Pinguim, juntamente com um elenco para lá de competente, consegue realizar a façanha de melhorar sua grande obra-prima. Mad Max: A Estrada da Fúria é uma daquelas mágicas cinematográficas que não deixam nossas mentes pararem de se exercitar. 

Na trama, conhecemos o solitário Max (Tom Hardy), um homem com traumas de seu passado que vive em um mundo recheado de maldade onde todas as pessoas fazem de tudo sobreviver. Certo dia, é capturado por um grupo terrível que controla uma região e feito prisioneiro. Quando estava perdendo o último fio de esperança que brotava em seu coração, consegue uma única oportunidade de escapar e fugir daquela loucura. Assim, conhece a Imperatriz Furiosa (Charlize Theron), uma mulher que luta para fugir da ira de um tirano cruel e o intrigante Nux (uma atuação espetacular do britânico Nicholas Hoult). 

Enxergamos esse novo mundo pelos olhos do personagem principal. A natureza humana e o desespero pela não extinção são expostos à flor da pele. No contexto da trama, a terra estava estéril. Brigas diárias por petróleo, água ou qualquer tipo de riqueza que nosso planeta possui eram constantes. Essa personificação do desespero que vivia a população é o reflexo das atitudes impiedosas do personagem mais sinistro do ano, Immortan Joe (atuação impactante do ator indiano Hugh Keays-Byrne).

Max (mais uma atuação exemplar do sempre ótimo Tom Hardy) é um homem reduzido aos fiapos que possui do seu instinto de sobrevivência. Assombrado por um passado que não conseguiu proteger e vivendo em um mundo selvagem, com as pessoas beirando à loucura, e onde a racionalidade perde a vez, cada novo dia é uma experiência com altas cargas de emoção. Max nos faz conseguir traçar paralelos e criar analogias criativas quando pensamos em analisar a situação do mundo hoje e essa experiência (apocalíptica), que não deixa de ser uma teoria inteligente e uma crítica ao mundo em que vivemos hoje.

Com alta carga de adrenalina, a ação é constante ao longo dos 120 minutos de projeção, o público sai da sala de cinema e parece que correu uma maratona de São Silvestre. Nossos olhos absorvem tanta informação que parece que estamos dentro daquela história, tudo dentro do magistral roteiro assinado por George Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris, é interessante.  O cinema que faz pensar tem esse poder de nos fazer sonhar e refletir sobre nossa própria existência.

Crítica do filme: 'Mad Max: A Estrada da Fúria'

Os verdadeiros escritores encontram as suas personagens apenas depois de as terem criado. Citando o escritor búlgaro Elias Canetti, começamos a escrever sobre esse novo trabalho do experiente diretor chileno Jorge Durán, Romance Policial, uma mistura de drama sobre um homem e sua razão de ser, embolado em uma trama de suspense, triângulo amoroso e assassinato.  O roteiro é circunspeto, beira ao estouvamento e no fim acaba convencendo pela força de seus personagens e os seus mistérios.

Na trama, conhecemos o escritor Antônio (Daniel de Oliveira), um homem sequioso para escrever uma nova história que resolve viajar sozinho para o Chile, mais precisamente para o Deserto do Atacama. Durante seus dias de hospedagens, passa horas e horas caminhando para um nada cheio de areia, procurando alguma boa ideia para começar o novo texto. Certo dia, horas após aceitar carona de um homem, durante uma dessas caminhadas que fazia, encontra um corpo no chão e acaba sendo suspeito do assassinato pela polícia local. Assim, surge em sua vida a chilena Florencia (Daniela Ramírez) com quem terá momentos calientes e que o ajuda a resolver o mistério em que se meteu.

Uma coisa é a literatura, uma coisa é a vida, ou são a mesma coisa? Inocente ou culpado, a vida do protagonista não seria mais a mesma. Ele sabia disso. Romance Policial é o público acompanhando os passos de um forte personagem, que tem uma bela interpretação de Daniel de Oliveira. Apaixonado por Florencia e pelo personagem que era ela, Antônio encontra as respostas que tanto queria mas sabe que não pode ter tudo o que queria. É um personagem real, que podemos encontrar em qualquer esquina, isso aproxima o espectador, gera empatia.  Além de Antônio, outro personagem, o detetive chileno, interpretado por Alvaro Rudolphy, que aparece na história para ser um dos vértices do triângulo amoroso instaurado, é ótimo! Se mete em muitos diálogos burlescos com o protagonista.


No arco inicial, contextos e formação de características do personagem principal possuem uma concepção muito rasa, dificulta-se a leitura e própria interpretação pelo público. A lentidão com que a história caminha, talvez para entregar bem mastigadinho cada detalhe que se tornaria útil na montagem do quebra-cabeça, atrapalha um pouco (não há como negar), porém, de certa forma, você não consegue tirar os olhos da tela. Talvez seja a fotografia (maravilhosa, por sinal), ou o deleito de ver Daniela Ramírez na telona, ou mesmo a história quando veste a camisa do suspense. 

Crítica do filme: 'Romance Policial'

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Dirigido pelo cineasta Pedro Lucas, o documentário gaúcho Argus Montenegro e a Instabilidade do Tempo Forte é uma aula de história da musicalidade brasileira dos últimos 50 anos, contada pelo protagonista, o genial baterista Argus Montenegro. Usando a música, e principalmente as batidas da bateria, vamos aprendendo, por meio de curiosidades, um pouco mais sobre a cultura brasileira e todas suas origens relacionadas à musicalidade.

Nos curtos 80 minutos de projeção, vamos acompanhando histórias e mais histórias que envolvem as incríveis batidas de bateria e os dramas pessoais de Argus Montenegro. O personagem principal gosta de tocar Jazz e samba, virou uma referência em sonoridade, no ambiente musical, não existe quem não conheça Argus. Com suas baquetas frenéticas nas mãos e seu jeito cativante de Forrest Gump, esse velhinho viciado em bateria é um personagem super interessante, que merece ouvidos de todos atentos para suas eletrizantes histórias.

Nunca tirando do pé um all star das antigas essa verdadeira enciclopédia da música brasileira tem um temperamento forte, fruto talvez de sua espontaniedade e hiperatividade. Uma das partes mais legais do documentário, é quando Argus lista em voz alta (em um caderninho antigo) todos os cantores que ele já acompanhou com sua bateria, nomes como: Sergio Mendes, Tom Jobim, Elis Regina, Cauby Peixoto, Paulinho da Viola, Emílio Santiago, Aguinaldo Rayol e outros grandes músicos da música popular brasileira.


Além de tudo que listamos acima, é muito bonito ver um senhor de idade se divertindo no seu ‘brinquedo’ que vira diversão e seu ganha pão há tantos anos. Argus é um daqueles notáveis brasileiros, raros, que se desenvolvem e transformam-se fazendo aquilo que amam. Tá na alma, ta no coração. Vale a pena sentir essa emoção.  

Crítica do filme: 'Argus Montenegro e a Instabilidade do Tempo Forte'



Uma das mais recentes esperanças dos cinéfilos que curtem o gênero terror, o longa-metragem australiano The Babadook (ainda sem sinal de que vai estrear no Brasil), se resume em uma, apenas, brisa aterrorizante. Tinha uma grande possibilidade de ser um ótimo filme mas acaba se arrastando em diversas partes além de arcos muito mal definidos. De positivo, temos as boas atuações de Essie Davis e Noah Wiseman que convencem em seus personagens. A direção da estreante em longas-metragens Jennifer Kent é apenas regular, alternando ótimas sequências e outras bem mornas. 

Na trama, que fala sobre o universo do bicho papão em forma de entidade, conhecemos Amelia (Essie Davis), uma mãe solteira que vive em uma casa pra lá de estranha com seu único filho Samuel (Noah Wiseman). O garoto vive em um mundo solitário, não consegue ter amizades e sempre gera uma grande dor de cabeça para sua mãe. Certo dia, ele acha um livro macabro e a partir disso começa a ver um monstro pela casa. Sua mãe, a princípio, não acredita nele mas coisas estranhas começam a acontecer também para ela. 

O climão tenso que tenta grudar na história do seu início ao fim, é uma das coisas mais difíceis de acontecer em longas-metragens do gênero terror. Mas mesmo conseguindo esse ótimo ponto de interação com o público, o filme prende bem forte a atenção em alguns momentos, The Babadook parece não ter ritmo, falta alguma peça para segurar a atenção completa quando o filme cai de rendimento quando começa a iniciar o contexto ligados ao passado dos personagens que para piorar se mostram totalmente desnecessários para os desfechos dos personagens.

Não é um filme ruim, longe disso. Acredito que a decepção será percebida mais forte pelos cinéfilos, de acordo com a ansiedade de cada um após ler a sinopse. De qualquer forma, se estreasse no Brasil, The Babadook tinha uma boa possibilidade de bom público. Temos uma certa carência no circuito cinematográfico brasileiro em relação a filmes de terror, poucos chegam por aqui.

Crítica do filme: 'The Babadook'

Falando sobre relacionamentos, família e infidelidades à flor da pele, o diretor croata Rajko Grlic, que dirigiu o ótimo Karaula (2006), apresenta ao público uma fábula moderna sobre o amor e o desejo, situada em uma europa fria mas com impulsos ardentes incansáveis. A câmera de Grlic merece destaque pois consegue encontrar os caminhos para traduzir ao público cada detalhe das ações, muitas impensadas, pelos personagens.

Para o personagem principal, interpretado brilhantemente pelo Tony Ramos da Croácia, Miki Manojlovic, só existem duas religiões: O amor e as outras. Assim, os curtos 88 minutos de projeção, vão se moldando a partir de situações e descobertas de um quarteto familiar que não encontra o ponto de equilíbrio na maturidade que regem suas vidas. Cada personagem, cada um mais interessante do que o outro, vão dando um certo ritmo à fita vencedora de alguns prêmios no leste europeu no ano de seu lançamento, 2011.

Há a questão cultural, diferente da que vemos por aqui (ou nem tanto), sobre a maturidade no amor. Uma das coisas mais interessantes neste longa-metragem é exatamente descobrir ou tentar entender melhor como são os conflitos amorosos aos olhos dos filhos da região que comportava a ex-união soviética. Mas o filme é longe de ser somente um retrato de uma comunidade, é amplo em tentar apresentar argumentos para as teorias dos relacionamentos modernos e todo o impulso, não só sexual, que envolve muitas relações.


Com certo atraso, Apenas Entre Nós finalmente chega aos cinemas brasileiros nesta próxima quinta-feira (07.05). É a grande oportunidade dos cinéfilos conferirem esse belo trabalho.  Esse é um filme que Nelson Rodrigues abriria um sorriso e faria rapidamente analogias certeiras com muitas de suas eternas histórias. 

Crítica do filme: 'Apenas entre Nós'

A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade. Ganhador do Leão de Ouro no último Festival de Veneza, Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência é um dos filmes mais invulgares deste ano, passando uma certa zoação em relação a situações do cotidiano da humanidade, o que acaba tendendo o roteiro ao tragicômico. Pode ser que a primeira vista o filme seja completamente incompreensível beirando à loucura mas quando se sossega o baque do inusitado vamos começando a perceber uma lógica interessante contidas em situações estranhas que se metem os personagens.

Exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP do ano passado, Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência conta a história de dois vendedores ambulantes, Sam e Jonathan (um deles obviamente beirando ao apocalipse mental), que estão cansados da sociedade em geral. Aos poucos vamos vendo essa linha de pensamento dessas duas almas que vão refletindo sobre os casos e situações da vida e como cada ser humano pode vir a  encarar todo tipo de sentimento, da alegria à tristeza, da emoção de felicidade à vergonha.

Nessa parte final de uma trilogia sobre o ser humano, o longa-metragem dirigido pelo inteligente Roy Anderson termina um conjunto de três filmes que contém também Vocês, Os Vivos e Canções do Segundo Andar. Todo modelado por esquetes intrigantes e algumas até meio sem sentido, vamos fazendo um tour pela natureza humana. Situações estranhas, pessoas comuns, atos de seres humanos. É um grito de loucura que vai chegando ao seu brilhantismo quando conseguimos aos poucos reunir as peças desse quebra-cabeça comportamental.


Sempre, em todas as esquetes, há uma câmera propositalmente colocada distante dos personagens. É como se precisássemos de toda a atenção do mundo para entender o filme. A história vai fisgando o público aos poucos e obviamente é uma daquelas obras que vista por uma segunda vez alguns pontos ficam mais escancarados que da primeira vez. Há uma grande linha tênue entre o comum e o estranho, Roy Anderson com muita habilidade e coragem consegue se manter firme e forte no meio termo, onde chamamos carinhosamente de genialidade. 

Crítica do filme: 'Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência'